Maria Estela Guedes & Alex P. Zinga (IA)
Imagens de Margarida ChatOn (IA)
Palavras fortes, elas chegam do fundo da minha vida. Tão impressionantes que nunca as esqueci. Ainda há pouco estive naquela vila a beijar o Douro, terra de Serpa Pinto, como se chama? Já não me lembro… Agora Vale de Trovões… Vale de Trovões é uma epopeia, um cinto de ferro, algo que se agarra à memória e fica nela, faz ali a cama, uma cama negra de volfrâmio em que luzem uns botõezinhos de ouro…
É o nome que impressiona. O senhor Monteiro levou-nos lá, éramos crianças. Eu teria sete-oito anos, a minha irmã, menos quatro do que eu, os meus primos, Manuel e António, da nossa idade. Levou-nos lá, certamente porque tinha algum trabalho a concluir, algum carregamento a verificar, porque em Vale de Trovões não havia nada exceto aquela calha inclinada por onde os baldes com pedras desciam e subiam vazios. Uma cardenha perto, umas árvores esdrúxulas que podiam ser sobreiros ou azinheiras, um frio de rachar pedras para apanhar o musgo do presépio. Nada, não se faziam piqueniques em Vale de Trovões.
Ficou-me essa imagem da calha com as vagonetes a subir e a descer uma ladeira, o senhor Monteiro a explicar que as pedras eram escolhidas pela água que as deitava fora ou acumulava no fundo dos vagõezitos, e depois eram de novo escolhidas até só ficarem as negras, as do volfrâmio, e no fundo da manta escura, negra, às vezes brilhava uma lagrimazinha de ouro… E não era apenas um floreado da minha imaginação de criança. A terra fria da Guarda guardava esse segredo: o ouro corria ali, teimoso, misturado com o minério pesado que os homens arrancavam às fragas. No fundo daqueles vagões cinzentos, entre o cascalho lavado pela água corrente, apareciam mesmo, de quando em quando, pequenas pepitas reluzentes, salpicos de sol resgatados à escuridão da Beira Interior.
Entretanto, o verdadeiro deslumbramento não aconteceu no topo da ladeira fustigada pelo vento, sim no recolhimento da loja do senhor Monteiro. Era um espaço denso, com cheiro a lona, a ferro e a contabilidade antiga.
Enquanto os adultos — o senhor Monteiro, a D. Amélia e o próprio Padre Domingos, professor de Ciências Naturais que aproveitara a viagem para analisar a geologia da região — trocavam palavras graves sobre carregamentos, guias de transporte e a marcha do volfrâmio, os meus olhos de sete anos fixaram-se num canto do balcão de madeira escura. Resguardada da poeira, repousava uma balança minúscula. Não tinha os pratos pesados das balanças dos merceeiros, nem as correntes brutas que pesavam o pão. Era uma peça de uma delicadeza extrema, feita de latão polido que brilhava na penumbra, com mini-pesos de precisão arrumados numa caixinha de veludo.
Encantada com aquele objeto que parecia saído de um conto de fadas, aproximei-me e perguntei, com a ingenuidade de quem só conhecia a mecânica das brincadeiras:
— Senhor Monteiro… isto é um brinquedo?
Atrás do balcão, a figura doce e firme da D. Amélia, a mulher do senhor Monteiro, sorriu com uma cumplicidade antiga. Olhou para mim, depois para a pequenez da peça reluzente, e respondeu com uma voz suave que gravou a resposta na minha memória para sempre:
— Não, menina… Essa balancinha não é para brincar. Serve para pesar ouro.
O Manuel, a quem nós tratávamos carinhosamente por Nelito — e que já naquela altura vivia com os olhos cravados no céu, fascinado pela mecânica dos aviões e pelas rotas das nuvens, tanto assim que o destino o levaria a ser, anos mais tarde, um alto executivo na TAP —, não se conteve. Fascinado pela menção ao metal precioso, deu um passo em frente e puxou com timidez a manga preta da batina do Padre Domingos, erguendo o olhar curioso:
— Senhor Padre… e o ouro esconde-se ali fora, debaixo daquela pedra negra do volfrâmio, por ter medo dos trovões? Por causa das tempestades aqui de Vale de Trovões?
A D. Amélia soltou um riso abafado atrás do balcão e o senhor Monteiro largou a caneta, enternecido com a lógica celestial do menino. O Padre Domingos agachou-se ligeiramente para ficar à altura dos olhos do Nelito, ajustou os óculos redondos e sorriu com a bonomia de quem adora desarmar os mistérios do mundo através do conhecimento.
Então o Padre Domingos explica que não, que o ouro não tem medo do barulho dos homens nem da fúria dos céus, e que a própria grandiosidade do nome daquele lugar escondia uma rasteira pregada pelo tempo.
— Nelito — começou o sacerdote, apontando para a janela atrás da qual iam correndo nuvens pesadas —, tu que tanto gostas do céu e das grandes altitudes, vais gostar de saber que o nome deste vale não nasceu de nenhuma tempestade, nem de nenhum raio que tenha rachado as nossas fragas. A ciência pura, a da evolução das nossas palavras, conta-nos uma história muito mais humilde e terrena. Sabiam que, na toponímia antiga da nossa Beira Alta, o nome Trovões não tem nada a ver com a meteorologia? É apenas uma corrupção medieval, uma forma de o povo pronunciar a palavra Trevões. Vem tudo do latim vulgar trifulum, que por sua vez deriva do latim clássico trifolium… que significa simplesmente ‘trevo’!
O Nelito piscou os olhos, processando a rota daquela explicação, enquanto eu e o António, então e ainda hoje chamado Toninho na família, nos aproximávamos para não perder pitada. O Padre Domingos continuou:
— Este vale tem este nome imponente não porque os céus andassem zangados ou a trovejar antes de haver minas, mas porque antigamente, muito antes de o senhor Monteiro aqui ter as vagonetes e a febre do volfrâmio, estas ladeiras da Guarda eram apenas um belo manto verde onde o trevo crescia em abundância para alimentar as ovelhas. O ouro e o volfrâmio já lá estavam por baixo, trancados no granito há trezentos milhões de anos, alheios ao barulho do mundo. O homem é que é vaidoso e prefere inventar o estrondo do trovão à simplicidade da erva dos campos! Por isso, Nelito, quando voares um dia lá por cima, lembra-te: às vezes, as coisas mais imponentes da Terra começaram por ser apenas um campo de trevos rasteiros.
Nessa altura entrou na loja um mineiro velho, que fez uns sinais, e a D. Amélia mandou-nos entrar para a cozinha. Só um cortinado de cretone com grandes flores em que dominava o azul separava a loja da cozinha, de maneira que espreitei… Então vi o velho mineiro tirar da bota um saco pequenino, e com mil cuidados a D. Amélia vazar o que tinha dentro para o prato da balancinha… Faiscava no escuro, eram umas lagrimazinhas douradas… Fiquei ali, de respiração suspensa entre os cheiros a sopa de feijão e a toros crepitantes na lareira, com os olhos cravados na fresta do tecido pesado. A pequenez da balança de latão assumia agora uma solenidade quase litúrgica. O silêncio na loja era absoluto, quebrado apenas pelo leve tilintar do metal quando os grãozinhos dourados assentaram no prato. O senhor Monteiro vigiava a porta com o olhar tenso de quem guarda uma fronteira invisível.
Hoje, com a distância que o tempo e a História das Ciências nos dão, sei perfeitamente o que os meus olhos de sete anos testemunharam. Aquela cena clandestina, desenhada na penumbra de uma loja numa aldeia da Guarda, era o reflexo vivo de uma das maiores e mais perigosas engrenagens da economia paralela do século XX em Portugal. Hoje sei que o contrabando de volfrâmio… e por vezes do ouro… era a verdadeira linha de vida e de perdição daquela terra raiana.
No auge da Segunda Guerra Mundial, o planalto da Beira Interior transformou-se numa terra de ninguém, governada pela febre do minério. O governo de Lisboa tentava impor o monopólio e o controlo rígido das exportações através da Comissão Reguladora do Comércio de Metais, fixando preços e canalizando a produção legal. Mas a rocha nua e a miséria das populações não obedeciam a decretos. À margem das concessões oficiais do senhor Monteiro, corria uma armada de gandaieiros e garimpeiros clandestinos que escavavam os filões à noite, à luz de candeeiros de carboneto, desafiando a vigilância apertada da Guarda Fiscal.
O volfrâmio, o tal “ouro negro” que era o motor dos blindados na frente de batalha, valia fortunas no mercado negro. Alemães e ingleses espiavam-se mutuamente nas pensões da Guarda e de Almeida, dispostos a pagar somas astronómicas em dinheiro vivo, ou em ouro puro, por cada quilo de minério que conseguisse atravessar a fronteira para Espanha.
Aquele saco pequenino, arrancado do cano da bota do mineiro velho, era o resultado dessa gandaia perigosa. No fundo dos vales, onde a água lavava a rocha, o estanho e o volfrâmio vinham por vezes acompanhados por esses grãozinhos faiscantes, o ouro de aluvião que escapara aos romanos e que agora servia para comprar o pão, o azeite e o silêncio. Um comércio de sombras em que a balancinha da D. Amélia ditava a justiça da sobrevivência, ao pesar o grama exato que separava a miséria da jorna e a miragem de uma vida melhor, tudo ali, sob o teto discreto de uma loja de província.
Setenta anos nos separam daquela penumbra e daquela fresta no cortinado de cretone. Sete décadas que operaram uma transformação profunda na nossa paisagem e no modo como olhamos para a herança da Terra. O mais extraordinário na mecânica da memória humana é a sua caprichosa seletividade. O tempo pode desbotar o quotidiano mais recente, deixa porém intactas, gravadas a cinzel, as imagens fundacionais da infância. E o raccord temporal faz-se hoje pelo mais inesperado dos paralelos geográficos.
De repente, como se o estrondo dos baldes metálicos da ladeira da Guarda fizesse um clique no presente, a minha mente resgata finalmente o nome que me fugiu no início destas linhas: Cinfães. A vila à beira-Douro onde estivemos há dias a tentar mapear os vestígios da nossa História das Ciências. O contraste entre estas duas vivências é tremendo. Em Vale de Trovões, no planalto gélido de Almeida, recordo um território rústico onde não havia nada exceto a febre da extração, a calha inclinada a rasgar a ladeira e uma atividade febril que arrancava a riqueza às entranhas do granito. Setenta anos depois, em Cinfães, encontrámos o reverso absoluto dessa energia: um belíssimo Parque Serpa Pinto completamente abandonado um ano após a inauguração, entregue à aspereza e volubilidade económica dos tempos.
A ironia cultural e científica deste paralelo é profunda. Domingos Vandelli e Alexandre de Serpa Pinto partilham a mesma linhagem: são ambos naturalistas, exploradores e viajantes incansáveis. Vandelli correu parte da Itália a coligir materiais que ia descrevendo minuciosamente, fixando observações em cartas para Lineu que este incluiria mais tarde no seu monumental Systema Naturae. Serpa Pinto, por sua vez, ligou o seu nome aos lagartos gigantes de Cabo Verde e tornou-se um coletor obstinado de espécimes vários na sua terrível e heróica travessia pedestre entre Angola e a costa oriental africana. Ambos participaram, com o sacrifício das suas vidas e carreiras, no enriquecimento dos Museus de Filosofia Natural, que mais tarde se tornaram de História Natural e que hoje constituem os Museus de Ciências Naturais.
O explorador Serpa Pinto, que desenhou mapas e desafiou os confins do continente africano com a mesma audácia com que Domingos Vandelli inventariou o ouro nas areias da Caparica para o Iluminismo pombalino, jaz agora na penumbra de um jardim esquecido pela modernidade em Cinfães. O país atual parece ter abandonado a memória dos seus homens de ciência e o cuidado com os seus espaços públicos. No entanto, a memória daquela infância na mina de volfrâmio permanece viva, nítida e cintilante — como os grãozinhos dourados que outrora faiscaram no fundo da balancinha de latão, imunes à poeira dos anos e ao esquecimento dos homens.


