A invasão

 


Homens recebem comida dos corvos
Sanguessugas, flores apodrecidas, musgo seco
Enquanto vasculham procurando mortos que possam matar novamente e novamente e tantas vezes
Quantas o ódio lhes permite
A cidade é um animal sem patas
Acuado contra o muro
Os invasores balançam suas caudas
De crocodilo
Fuzis são gadanhas, gadanhas são pétalas
Da morte
Houvesse veias nessa terra, as crianças circulariam pelos túneis soltando pipas imaginárias,
Cantariam hinos de guerra que ecoariam entre as pedras
Mas a cidade é um animal cego contra um canto de muro
E as meninas e meninos são anjos do apocalipse
Ouça as mulheres
Elas amamentam nuvens de fumaça,
Com suas mãos de fada repartem migalhas de pão misturadas à terra que as bombas revolvem com alegria
Essas palavras tão cheias de espinhos
Que se arrastam pela garganta
Não quero o silêncio
Quero que a insônia invada o sono dos monstros
Que haja véus em tua dor, Gaza
A cidade é um ovo
Que o calor
Ressuscitará
Não importa o que está sobre a terra
Eles querem as entranhas
Que escondem o negro sangue
Ou o sangue dourado
Eles espalham mercúrio, fósforo branco,
Eles colocam formol no leite, sufitos no jantar que não irão comer
Se o planeta fosse uma maçã, eles seriam o verme
Eles orquestran Ruandas e Gazas
Eles projetam desertos e valas
Nem escondem mais a sede de morte
De olhos tão brancos e dedos tão brancos segurando joy-stickers
Os dentes tão brancos, o ódio tão branco
Eles chegam aos poucos, distribuem  espelhos, miçangas, palavras de salvação
Invadem o que é teu como se fosse deles desde sempre
Se espojam na terra que te é sagrada
Defecam sobre as águas
Nada está a salvo
Como um rei frígio que transforma
Em dor tudo o que toca
Eles te tocam