A Luz Breve das Rosas de Teresa Alvarez

 

LUÍS FILIPE PEREIRA


luís filipe pereira – escreve poemas & ensaios, doutor em filosofia,
mestre em teoria da literatura contemporânea, investigador nas áreas da filosofia
e da literatura, docências várias.


Prática de aproximação.
Ensaio breve sobre o  livro A Luz Breve das Rosas, de Teresa Alvarez


                                                                      “Foi bom ter nascido, para ver como isto era, para matar a curiosidade.
Fugidia alegria, luz breve. Foi a que me coube, em paz a aceito.” Vergílio Ferreira (1986: 221)

 

PORQUÊ AS ROSAS? porque as rosas põem-nos diante do espelho da nossa inescapável finitude; é figura solar cuja luz é germinada pela palavra. Esta é vão afinco de Sísifo constelado pela energia da nomeação; palavras que somos por internas identificações e reduplicações, não tanto por efeito prosódico ou por simbólica lematização, mas, mais de dentro, mas por superfície de horizonte da efemeridade. Este, por seu lado, não é apenas operação redutível ao esférico paradoxo de cada círculo luminescente aprofundado em sombra e torneando a matéria ritual da existência no mundo, mas, em bom rigor, círculo derradeiro da casa projectada e jamais conhecida.

É meu privilégio pôr em palavras o modo como soube ler os meândricos filamentos deste livro, de grande fulgor, de Teresa Alvarez: A Luz Breve das Rosas.  Título que é, em si mesmo, um projecto antecipatório da inevitabilidade da morte.

As palavras: “O que procuramos será real? Ou será o impossível/ fruto do desejo sempre latente e indefinível? / Ou não será imediata presença/ e só a nossa distracção a perde ou turva o seu cristal? / Talvez tenhamos perdido o dom da simplicidade/ e da tranquila convivência com as coisas” (Ramos Rosa: 2001: 68): são as espinhosas hastes do que pode fazer continuar a cor, o aroma das rosas já emurchecidas. São os petrechos da poesia com vista à prática do assomo à superfície, debalde as suas infraestruturas e equipamentos susceptíveís de arrancarmo-nos às raízes, de atolar-nos em terra movediça por entre fluídas baias comprimidas pela disforia, pelo tremendo desamparo, quando tão já diminuta a chama, ou a luz com que contratualizamos quimeras com a morte, com as mortes que nos vão sendo punhados de vida e de pó: “Todos os nomes, todos aqueles/nomes queimados/juntamente. / Tanta cinza por abençoar.” (Celan, 1996:107).

As palavras: relâmpagos que irrompem no corpo textual como naturezas mortas, nocturnos vulcões adormecidos. próxima do vaivém aromático, da ambiguidade petalada e despetalada num só movimento: a escrita: a autorreferencialidade do poema, ou do poema que se pensa dentro do poema, reconfigurando uma questão continuada na já vasta obra da autora, e muitíssimo rediviva neste livro. “Escreve-se quantas vezes para criar uma pausa e suspender a ânsia e continuar de novo como quem respira um vago aroma branco em que o mundo é abolido e renovado ressurge” (Ramos Rosa: 2001, 87).

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Acerco-me do trinómio: vida. casa. memória.

:Triângulo: Reversibilidade intrínseca de um polígono de três lados que, não sendo partes extra partes, formam um conglomeração volumétrica, arbórea, gestada no labor da memória. Verifico a presença de uma dimensão dialéctica trifásica: semente de rosa plantada do lado cardíaco; rosa (de Silesius, 1991) incausada – tal como “o poema que vem de repente sem sabermos porquê” (Alvarez: 2025: 9) – floração e dobra de sílabas, bainhas afectivas sob a intensa luminescência da palavra poética; rosa-a-caminho-da-evanescência, da irrevogável eflorescência salina.

Três feixes que perpassam, em ímpar jeito de litania ou de ladário, todo o livro, afigurando-se, sobretudo, como agentes do mútuo processo de aglomeração & recomposição da memoria- e, não raro, in memoriam, – porquanto a brevidade é também depositária da perda, das intermitências das perdas & suas noites: “Noite das palavras – vedor no silêncio! / Um passo e outro ainda, / um terceiro [terceiro incluído: a pegada das palavras], cujo vestígio/ a tua sombra não apaga” (Celan, Ibid., 55). ______________

“Das intermitências do amor”, I Parte do livro. Leio-a sob o arco que vai da fé afectiva-amorosa à dúvida e ao desamparo, voltado malgré les roses et les épines, para cenas fulgor

na acepção llansoliana) que se cruzam na linha horizontal imaginária ligando os dois pontos donde o arco começa a curvar, ou seja, na espessura, apesar do terrível. confiante e apaixonada. Não há, assim, qualquer obliteração do paradoxo falante adentrando-se nas entranhas dos versos: “e a paixão nos lençóis e os lençóis sem paixão” ou: “e a gente a cantar e depois a sofrer e depois a sonhar”, Id., 9,10). __________________________

Assim, e mantendo a imagética arquitectónica, diria que se trata da subtil intrusão de um arco abstido: três centros (vida. amor. casa.) de irradiação, mais ou menos resplandecente, cujo raio maior é a casa, centro das intermitências da vida e do amor.

É factual -e não qualifico, cinicamente, a estranheza- que este livro- do meu ponto de vista um dos melhores de poesia de 2025- não foi credor de resenha, crítica, apreciação, embora, lamentavelmente, uma omissão previsível, dado o contexto de uma <Crítica> por encomenda, tolhida pelo jargão da cunha, do câmbio de auto e hetero interesses, da troca mercantil de favores, da transaccão comercial, ou de inclinações afins. Não. estes não são tempos d’ essa crítica louca (Mello e Castro: 1981), mas, outrossim, da <Crítica> savantizada, isto é, da “[…]” crítica respeitante apenas ao económico”: <Crítica-não-crítica>, “[…] exercício de domínio de um grupo que se esclarece pela não advertência crítica.” (Nogueira: 2024: 58, 59).

 

PORQUÊ A CASA?

A casa é da ordem do contraste, é espaço psicossomático de uma irrestrita polissemia: vincos, dobras: matéria plissada.     _________________

Ouso propor algumas hipotiposes, cumulativas:

Casa levinasiana: é a casa em forma de rosto, de rostos ainda não postos na moldura dos retratos fotográficos, ainda não dos simulacros de intemporalidade fotográfica, ou do que finge esgueirar-se para a intransitoriedade. Pelo contrário, a casa é espaço de intimidade onde fluem os rostos (autobiográficos. maioritariamente) que permanecem presentes, atmosféricos, ainda hóspedes dos espelhos, circulando pela casa, sob o signo prevalente da consanguinidade afectuosa: os rostos da avó e o da mãe, em especial, mas também o do avô, o do pai, escorços ritualizados, presenças audíveis, revindas sob o modo de cantilenas quase, da grande casa da infância:

“[…] e o avô a benzer o pão e as espigas de trigo e trigo

e lá fora a chover e a mesa a cantar e o cão a dormir e a avó a rezar [sub. meu]

livrai nos senhor das coisas ruins e dos males do amor”. (Id., 59)

 

Simultaneamente, a casa é reduto do recolhimento e da construção, a solo, do literário,

(na estr. seguinte àqueles versos: “e enquanto me sento a escrever […]”, Id., 59). Evidencio em ambas as citações a palavra mesa (muito frequentemente metonímia da Casa). A mesa posta para o diálogo, ora mais íntimo ora mais narrativo, com as estruturas, os recantos, as zonas quentes e as zonas fria onde o eu poético (nota: doravante, deixo de usar essa noção proficuamente útil à teoria da literatura, transferindo-o para o Eu da autora, já que, na verdade, não entendo, neste livro, o <eu> como uma Outra. Ao invés, o <eu> autobiográfico corresponde, sobremodo, a uma posição de escrita, conquanto não assimilada à monotonia do pêndulo confessional. Não é esse o caminho: é, outrossim, uma mulher-poeta, em nome próprio e exposto a exuberâncias rizomáticas, pois respiga, no exterior e no interior, traços, cicatrizes, vestígios, rudimentares materiais emergentes nos poemas cujos suportes matriciais são as suas experiências, encantos e desencantos: mulher de memórias, sujeito escrevente (na acepção llansoliana), mulher de lutos, mulher de nostalgia e resistência, mulher da escrita contra a morte, de que necessita). Mulher devindo casa dentro da casa, ouvidos das paredes, olhos de corredores, sentidos de passagens: “sentada a conversar com a casa e a casa a conversar comigo” (Id., 82).

Casa levinasiana: hospitalidade & abertura ao Outro: “a mesa/a madeira da mesa/e os nós/os da mesa e os nós das pessoas a falarem umas com as outras” (Id., 50). De modo sinóptico: a casa, em E. Lévinas, é guarida do Rosto, da Alteridade que vem abrigar-se, dos rostos-presenças, que destaquei acima, cuja invisibilidade é rosa &voz rosa desabrocham na página-pele visível: outrem é ausência infiltrada na presença: rostos estrangeiros em quiasma com o fluxo da natividade.

Dito de outra maneira: este livro tinta-se de distância & proximidade tremeluzindo, recíprocas, ao som das palavras e acoplando os espaços ao tempo suspenso, ao tempo que alia passado (que se faz futuro) e presente e, assim, fenomenaliza a endémica circularidade dos locci e de um extra-tempo. trans-tempo. omni-tempo: tempo que “era ontem/ era há muito tempo/ de repente agora” (Id., 45), eis o tempo motriz, força que não bate em retirada, antes se confronta com o seu par antinómico- o tempo cronológico -, porquanto a irrevogabilidade da morte, experiência do impensável ou, numa palavra, o incognoscível (Jankélévitch: 2008) leva consigo a brevidade, a efemeridade de tudo, a nossa incarnada finitude:

“a valsa a girar três tempos

ainda há pouco estavas agora já não estás e voltaste outra vez

ainda há pouco estavas comigo à mesa “ (Id., 44).

Luz & Contraluz, as palavras no relâmpago do vazio, o poema e que neste entardecem e morrem. Sobremaneira, a Casa como espaço para outrem & encontro de rostos:  Casa solidária. Exemplo:

“e se pudesse ser

Todos à minha volta como no dia em que nasci” (Id., 79).

“e aquele momento em que batem à porta e eu vou a correr” (Id.,99).

Casa rilkeana: Acontece que a casa, neste poemário de Teresa Alvarez, também se manifesta, estremece no sentido de uma espessura aproximável, do meu ponto de vista, à figura da casa, em Rilke. Ou seja: a casa alicerçada na pura necessidade de um espaço interior onde reverberam temores (da morte, o mais flagrante) e, simultaneamente, memórias, muitas das quais retrocedendo ao tempo da infância, ao tempo das manhãs (o qual atravessa muitos poemas do livro), e sombras, à luz-a-falhar do crepúsculo, da ordem da evocação – rigorosamente não se pode falar de analepses no espaço da casa dita in media res, porque as lembranças em circulação vivem e sobrenadam perdas-à-volta. Realço ainda que esta poética é, a todo o tempo, como em Lévinas (:2019), escatologia da paz, projecto ético “dos homens de boas vontades” e, por isso mesmo, atormentada pelos tempos actuais, baços, pela interepidez da guerra, da injustiça, dos interesses estratégicos.

Espaço interior onde demora a busca constante do “poema perfeito”, esse que o sujeito tem em mira e jamais alcança (símil à noção de Ideia na gnosiologia de Kant), ou melhor: espaço encaminhado por memórias até ao clamor da página, lugar onde a escrita irradia os perímetros da exterioridade. Por conseguinte, resulta do entrelaço de ambos a aspiração à ideia de Perfeição, e que entendo, sobretudo, como gradual concretização da perfectibilidade, desejo mais consentâneo com o ideal da palavra mais despida, mais vulcânica, mais perfeita: “a conseguida palavra” (Id., 133).

Creio que é, em larga medida, esse trabalho, penelopeano, da escrita a gerar uma espécie de irmandade (virtual) inter-poetas na meio da qual a autora se reconhece:  a união aurática (penso em W. Benjamin) de energia fluída (e, no caso de Teresa Avilez com maestria compositiva e estabilizada qualidade poética) de uma “[…] lava[que] vai cismando por dentro do poeta” (Id., 102): dos poetas, da casa-chão comum da poesia de que se aprumam o poeta jubiloso e o “poeta triste” (Id., 117).

Por outro lado, é no espaço interior [chamemo-lo casa ou maturação da palavra], cruzável com a duração interna (de H. Bergson et altri; vide por todos José Gil: 2024), que clareia o dilema da escrita e da irrefragável morte, pese o empenho da autora em continuar a escrever, obcecadamente, em virtude da ligação da Poesia (= vida); em prolongar o que dá “saúde” (Deleuze: 2000), ou o que, magicamente, vai postergando o fim da brevidade de tudo. É para essa dimensão, renovadamente afectiva, que dão os seguintes versos:

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“e um eco bate-me no coração e fica a ressoar pela casa/até que eu volte a acordar de novo na lava de um poema” (Id., 169); “tenho um saco imaginário [qual ânfora de Pandora] cheio de palavras cintilantes [as que rasuram a noite, o desmoronamento] / para iluminar aqueles dias que têm o peso de uma cruz/ um madeiro cheio de nós [a prenhez da palavra poética é antídoto do vazio] que ninguém vem desatar/ aqueles dias de palavras magoadas” (Id., 105-6); “ uma só palavra que seja uma simples arma de arremesso/ contra aqueles dias em que os cornos dos animais muito pouco domésticos// nos trespassam as mãos”; “respiração assistida do poema” & “ e sempre que o sol se punha nos meus olhos eu ia dizendo a palavra mãe (enfatizo a <palavra>) // COMO SE ELA ME PUDESSE SALVAR DA ESCURIDÃO” (:85). Deste modo, o poema e a escrita encontramo-los concebidos como acções soteriológicas: salvação no campo galvanizado da imanência (volto, infra, a esta questão).

Para Rilke, lemos nas Cartas a um Jovem Poeta (Rilke: 2014), a morada humana ideal seria à semelhança do coração: abertura à vida, escavação até ao fundo de silentes recantos, rearranjo de peças, aromas, sabores, visões, reencontro com a persistência da arqui-arco de cantilenas, mas, simultaneamente, com escolhos e matérias adversativa,  e movimentos em sentido contrário à florescência dos poemas, ou seja, memória de fracassos, privações, contra- agentes do texto poético, tubulações intrínsecas.  Muito na linha deste verso de José Rui Teixeira:

“As casas são coisas que se pensam contra as paredes” (Teixeira, 2020: 110).

Neste livro de Teresa Alvarez há uma símil distopia: blocos do desespero conexionados com a metonímica imagética das paredes, imóveis superfícies que fecham a casa e a atravancam. Nelas, avançam diagonais de sombra e insistência do cansaço, a ruptura de ligamentos acometida pela intrepidez escritural, o intermitente desequilíbrio e o desassossego. As paredes: abismos emparedados, mesas transformadas em mortalhas. Alguns exemplos:

“naqueles dias em que o longe não é mais do que a parede em frente” (Id., 95) [efeito de fechamento de horizontes]; “fiquei a tarde [período penumbroso, de intensidade negativa] toda a falar com as paredes/ e as paredes dão me sempre razão [efeito de ensimesmamento] / não pedem nada em troca “(Id., 51); “[…] talvez a conseguida palavra/ que ande pela casa/ e devolva o sossego à inquietação das paredes (Id., 133, sublinhados meus). Aí onde esteve alguém e já não está, sequer na forma de poema; paredes que fazem sentir “a servidão das casas” (Id., 124).

Assinalo a refluente simbólica dos degraus como polo contrário ao das paredes, uma vez que aponta ao vaivém de chegadas e partidas, bem como, na sua vacuidade de movimento, mostração da delonga no limite da rude ausência.

Ademais, Teresa Alvarez pontilha vários poemas com a invocação de ANJOS metamorfoseados em visitantes da Casa, inquilinos, estacas & couraças, figuras de benévolas companhias (de igual valor simbólico a evocação dos santos que povoaram, em faianças, o tempo da infância – “a querer fugir da guerra e a guerra a chamar e a mãe a esperar/ curvada sobre os santos ainda protetores”, (Id., 108) – e do ciclo de vida menos exposto aos abalos, às concussões. sabemo-lo bem: a ideia-força do Anjo na poesia de Rilke, a sua potência salvífica:

“Como os anjos passam e vão marcando as portas dos que hão-de salvar-se, / assim nós tocamos isto e aquilo, com aparente ternura” (Rilke: 1999: 376, vide 378 sobre as casas). O leitmotiv das Rosas: “Numa rosa está o teu leito, amada […]) / perdi-te. Assim como pra vida de antes/ (de fora incomensuráveis) estes três vezes três meses são/ eu, caído para dentro. “(Rilke, ibid., 377, sub. meu. Voltarei ao dispositivo triádico que pauta o rimo do livro sob análise). Ainda outro exemplo de Rilke, aquele que foi escolhido pelo poeta para seu epitáfio: “Rosa, ó contradição pura, volúpia de ser o sono de ninguém sob tantas pálpebras.” (Rilke, ibid., 381).

Neste poemário, as figuras dos anjos aparecem fulgorizadas de dois modos, a saber: por contraposição ao temor e como apaniguados da ternura, ao mesmo tempo que coreografam rumores de um tempo mais antigo, o da casa primeira, espécie do que J. Lacan (2021) denomina como lalangue, ou seja: a linguagem não verbal e não representativa, influxo inconsciente, não- língua, linguagem corporal prévia à sintaxe e à utilização comunicativa da fala: lalação infantil que se traduz em palavras repetitivas, próprias de cantigas de embalar, ladainhas que se vão tornando balbucios, estórias, fonética inaugural: a linguagem no limite da linguagem: a heterotopia não alheia à emergência de fantasias.

Confirmo-onos trechos seguintes:

“convoco os anjos e outros seres celestiais que andam pela terra [Imanência]/ disfarçados de coisas da nossa casa/ e anuncio solenemente que abri as portas do paraíso// [além do contexto religioso, permitem-me o acesso às portas de bronze dourado de Lorenzo Ghiberti] na voz das aves os anjos vão cantando um salmo antigo/ escrito muito antes do princípio das coisas [e da palavra poética]” (Id., 94); “sepulta me onde o passageiro do último comboio costuma pernoitar/ e depois fica em silêncio/ que quero ouvir a voz do mensageiro [sentido religioso: quem prega as palavras de deus] e o coro dos anjos [perspectivo-o como, eminentemente, litúrgico; ligado à Assunção de Nossa Senhora] (Id., 33);

in absentia: “nenhum som no degrau da entrada/ nenhum anjo à solta no jardim/nem o favor de um eco ou de um grito/ nem alguém que venha confirmar a existência ou ausência de deus” (Id., 29): o abandono.

Por último, e é um dos aspectos mais surpreendentes na vasta e consistente obra de Teresa Alvarez, isolo o que ouso denominar como Casa-Eucarística, dando nota da sua intensificação topológica, seja no patamar litúrgico & ritualista, presente em muitos destes poemas ao nível do conteúdo, mas igualmente da forma & ritmo, seja na relação –anfibológica, ambígua, porque acontece, grosso modo, sob o modo interrogativo – com deus. Uma relação, não metafísica, mas sim afectiva & poética- inscrita, também ela, no movimento de esconjura e de busca de uma saída de emergência para o peso da solidão, da brevidade das vidas perdidas para a morte: por um lado, (avó, mãe –  que, juntamente com o Eu autoral, granjeiam predominância e trazem à atmosfera do livro uma prevalência matriarcal- inversa, portanto, aos códigos dominantes – pai, filho, amante, e, por outro lado, a iminência da morte própria como matéria de escrita: _______________

_____zonas de fugacidade dolceamaro; nebulosas de luz e de obscuridão & reversibilidade de ambas: crepúsculo, declinação; infância e amor, arrebóis: luto e desespero: extensões de lusco-fusco.

A multiplicação (dos pães, em sentido bíblico, mas também no sentido de germinação: <dar à luz> os filhos, rosas, cujos agentes principais são as mulheres. Enfatizo este aspecto, de grande amplitude e fecúndia poética, na medida em que rompe com a estrutura societal paternalista, com a predominância do masculino (inclusive na literatura). Eis alguns exemplos textuais do que acabo de mencionar:

“dizes o meu nome devagar como quando nos escondíamos dos olhares indiscretos/ e tu dizias o meu nome como se estivesses a ler um dos livros sagrados // mas tu vens mais triste que da última vez/ e a tela de repente escurece como no calvário/ e um temor faz abanar a casa /[…] e eu deixo me ficar aos teus pés a ouvir o murmúrio das rosas” (Id.; 15) ____________________deste trecho, friso:

a repetição (prosódia que venho assinalando através dos sublinhados), tracejados gerundivos, cujos efeitos mais relevantes são: a consolidação das memórias repercutidas no presente, por via de uma neuroplasticidade afectiva, e  prolegómenos, por iteração, a um logos cerimonial, quer de natureza eufórica  e celebrativa, quer de árida raiz, pesadez e sacrifício diante da inevitável brevidade de tudo, conquanto, em ambos os registos, salvaguarde o constante ladário, litania transformada em instrumento de procura, demanda de uma incerta fixidez intermediada no âmbito imanente ou térreo. Com efeito, persiste uma imaginal intemporalidade, em grande parte agregada à permanência da escrita e à da constância da Casa, pese as tubulações sucessivas. Diria que a poesia se torna uma espécie de repouso e de protecção diante do que desmorona, do que não passa de ponteiro da transitoriedade, é a escrita que filia o advérbio <devagar>):  ___________

“depois guiarei as tuas [mãos] até ao meu peito/ este corpo é nosso/ come e bebe dele em teu e meu proveito” (Id., 18_________________ .

Realço nestes versos a espessura fusional do corpo amoroso – do corpo glorioso -, mas, principalmente a metáfora bíblica < comer e beber>- (vide Evangelho de S. João), cuja simbologia espiritual relaciona o sacrifício do sangue (vinho) com a carne (o corpo de cristo na cruz), embora aponte à união, à aliança de corpos, a um <nós> de continuidade e de êxtase, temporária ilusão de ultrapassagem do efémero: < Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna>. Ademais, essa metáfora é verbalizada a propósito da multiplicação dos pães, encontrando-se, assim, intimamente ligada à mesa-eucarística da última ceia. É, penso, a força amativa que cria uma falsa percepção da realidade que perdura, da luz que vara as rosas, alcandorando-a, em prece, ao tempo sem sem tempo, à fé amorosa sob a luz das palavras_____________________________.

Numa espécie de súplica, rogo:

“mas deixa me partir antes do colapso do mundo/ […] entoa um salvo novo que não fale de coisas que um dia já ouvimos/ e que deixámos de repetir/ porque os salmos mentem/ e a única verdade da cotovia que anuncia a manhã/diz-me palavras novas […] enquanto de mãos dadas/ tu e eu/ vamos subindo aos céus” (Id., 34).

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Destes versos o que mais me importa salientar é o elemento apocalíptico, dado pela hipérbole <colapso do mundo>, significando a perda das perdas e ainda a alusão ao salmo (cântico sagrado), voltado para o possível, para o campo heurístico, idealizado e revertido  pelo fingimento que a escrita encerra, pela tradução das lembranças, sinal de distância, ou pela aragem dos poemas dessacralizados no coração da realidade: o poema no limite da verosimilhança, uma zona de perigo por que caminha a autora “contra aqueles dias em que os cornos de animais pouco domésticos”: escrever perigosamente, um dos traços mais emblemáticos da poesia de Teresa Alvarez: “ou um anjo que vem anunciar prestes o fim do mundo” (Id., 82); “na derradeira cena de um teatro absurdo” (Id., 39).

Interessante ainda a possível intertextualidade com a aves, antagónicas quanto à luz esboçada, a que recorre o filósofo Hegel, a saber: a coruja de minerva e a cotovia, a primeira é a que parte ao entardecer, usando-a o filósofo com o propósito de advogar que a filosofia aparece sempre demasiado tarde, e cujas fronteiras são o passado e o presente (Hegel,1990, do prefácio], conotando, além disso, o retardo da sabedoria.

A este respeito convoco o verso 1120 de O Fausto de Goethe (2013): “entoa a cotovia o canto agudo”. Eis o canto que anuncia as manhãs, as antevésperas do possível, a transubstanciação da dor e do sofrimento: a edénica felicidade que não feneceria não fossem pontuais os termos das tardes. Por antítese à alegria anteposta pela cotovia confronta-se a escrita com a desaparição gradual da luz e com a chegada, por subterrâneos degraus calcados na pele, dos demónios da noite, anjos caídos na perversidade e caos. Neste livro, sob estudo breve, coexistem como frente verso do frontispício da passagem, a sucessão e a evanescência, de permeio “a eternidade se abate sobre nós.” __________

Interpelo o quadro de Goya, Saturno (Cronos para os gregos) devorando o filho, intentando evitar o destino e a queda: pintura exemplar da finitude humana, como antes, o de Peter Paul Rubens. ________________________________

 

Desde logo, esta plêiade de filamentos interpretativos, de invocações e evocações, que situa a poética e metapoética de Teresa Alvarez muito para lá da platitude do convencional e do fechamento de grupos de que os <críticos> portugueses servem, em regra, de correia de transmissão manipulada & transaccional, porque, ao mesmo tempo, é aí o lugar onde encontram, regularmente, as suas fontes nutrícias infatigavelmente deglutidas, bem como as electivas heterofagias. A poesia de Teresa Avilez é, sem dúvida, avessa a circuitos, a dinâmicas com vista à exaltação do valor venal dos livros, especialmente de poesia. A autora não abdica dos alpendres da afectividade que extravasa as ligações humanas, estirando-os à Natureza, à verticalidade das árvores, à casa, aos pássaros, sem jamais se deixar capturar pelo populismo sentimental, pelo lirismo exagerado, delico-doce. Vejamos:

“ao amanhecer/ espera pelos pássaros e vai com eles aprender a voltear/ […] e eu fecho os olhos e voo com eles por cima dos telhados/ depois volto como se não tivesse corpo/ feita de areia ou de coisa nenhuma // mas a ÀRVORE regressa sempre à beira do crepúsculo / […] e eu comovo me com a ternura que ela põe no contar// […] chora baixinho a árvore/ como mulher quando está triste e não diz a ninguém” (Id., 47). Aproveito o ensejo para referir o animismo decorrente da poesia considerada <centro do mundo>, p. ex. “faço uma vénia a esta flor poeta/ que não andou à procura da palavra perfeita [é-a em porquê] / aquela que faz com que um poema tenha luz própria / e venha iluminar/ os dias sombreados e os recantos mais escuros da memória/ num instante chegou e num instante já é o coração da casa e das coisas.”: Metáfora[s] do coração, fazendo apelo a Maria Zambrano (2000).

A poiesis de Teresa Alvarez atirada para <fora da caixa>, todavia. Porém, considero-a um trabalho de linguagem exímio, em virtude dos recursos e técnicas em perfeita sintonia com os <seus temas> só aparentemente singulares, porque transferíveis para a (des) ordem do geral: morte, amor, infância, escrita, celebração da poesia, salto de fé rumo à pacificação dos conflitos e à intencionalidade construtiva, campo magnético do amor, dos afectos, da ternura, porém tudo insuflado pela vitalidade oximórica e estruturante de cada parte do livro, e mesmo de ínfimas contradições no estofo de cada verso: “e as cenas de amor e os ressentimentos por detrás das cortinas” (Id., 173) ___________________.

A respeito do tópico-em-aberto, a magnitude litúrgica com muitos referentes colhidos dos textos bíblicos, e sem qualquer pretensão de exaustividade, partilho os seguintes versos, reveladores de uma ritualização encarada, amiúde, como uma maneira de escrever que se aprofunda n´ A Luz Breve das Rosas:

“um dia destes a morte virá apanhar me na curva do caminho

tu caracol [é extraordinário este poema do caracol-metáfora] irás sempre a tempo do esconderijo próximo

e a morte passará perto de ti

desinteressada a fingir que não vê

a morte quer poetas ou loucos que andem pelas ruas a falar sozinhos

como eu ando sempre a rezar versos em vez de ladainhas” (id., 84)

Apraz-me mencionar, a partir deste excerto, dois aspectos imbricados um no outro: o primeiro, diz respeito à iminência da morte, corolário da finitude, a qual adquire um efeito fundamental: é o desespero face à mesma (e à dura factualidade de que já não regressa ninguém) que outorga maior intensidade à busca de deus, sub-figura da espera e do paroxismo desiderativo; o segundo, concerne à metáfora “rezar versos”, profundando a melopeia destes poemas adoptados como um  conjunto de acções que conduz mais longe a conexão íntima com o que pode ainda ser re-ligado, justamente através da <luz> introduzida e relançada pela palavra poética): _________________

_____ “separadas que estavam as águas (reboa o segundo dia do Génesis, aquando da divisão entre águas superiores e inferiores) […]/ergueu [o sábio/deus criador] a mão direita [vislumbrável, p. ex., no filho à mão dextra do pai; <o coração do sábio inclina-se para a direita”, lê-se no Eclesiastes 10:2)] […] e porque o sábio percebia de contas de somar [saliento o recurso da ironia]/ lembrou se que para além de sermos pó e cinza/ teríamos de ter correntes nos pés e no pão lágrimas/ que serão tantas que até deus um dia chorará no sossego da tarde” [de notar a ambivalência entre um deus potencialmente protector e a prática do mal, vecchia questione do período medievo, com fortes aflorações em Sto. Agostinho (2020) que insistir, a partir da desobediência de Adão e Eva, numa transmissibilidade hereditária do mal e do pecado. Ora, Teresa Avilez mantém a relação com deus nas margens da interrogação e do desejo de crer num deus-presença, apesar de não deixar de indignar-se contra a indiferença e impotência de deus perante os males do mundo]

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PORQUÊ DEUS? Diria que há um deus dentro de deus, myse em abyme de que entrevejo um atrito insuperável entre o deus-de-sobrevoo, o deus-espectador-indiferente entrelaçado ao sofrimento humano e aparecendo no grafo ou poemas alusivos às guerras

aos dilaceramentos individuais e colectivos, um “deus de pedra que leva a vida a rir” (Id., 92) que se articula, em sobreposições diacríticas, com um deus oracularmente protector, isto é, um deus de proximidade com zelo sobre a Casa, a Escrita: um deus de apaziguamento interior não linear e, ademais um deus imanente, ao rés dos seus filhos;

cuidando-os; um “DEUS BONDOSO” (Id., 93), companheiro dos sentires da experiência amalgamada e entre-dois do real e do imaginário e, fundamentalmente, da experimentação poética, em devir & deslocação (neste caso, as constantes viagens do presente ao passado e vice-versa. Por conseguinte: um deus não cristalizado como fundamento, antes memória do possível.

Da revolta:

“depois dos icebergues

vamos ouvir o silêncio de deus e pedir lhe que deixe de ser mudo

que desça à erra

que seja de uma vez por todas tão mortal como nós

e depois pedir-lhe contas do desalento escondido

no coração dos meninos tristes

e do fardo pesado das mães ao fim do dia sem tempo para o tempo da alegria” (Id.: 53)

________________

[uma pequena nota para afirmar que a antinomia inserta nas dinâmicas da subida e descida alcançam diversas orientações na estrutura do livro: colagem de ascensão & queda.] Porque “[…] o que há redimir é a adequação desta fantástica evidência [o ser] que nos cega e a certeza de que ela está prometida à morte, de que o seu destino é a impossível e absoluta certeza do não-ser, da pura ausência, da totalidade nula, da pura irrealidade.”, Ferreira, 1985, 67).

 

Da anti-revolta: a procura de um condicional horizonte:

 

“se fosses um deus bondoso como nos contos da minha avó [marca de paganismo]

ou então o deus que invento naquelas noites

[a necessidade premente da ficção de deus. De lembrar ainda que a <noite> possui um carácter disfórico neste livro]

em que estou só e triste

e converso contigo à espera que respondas

sentavas te na minha cama e oferecias me flores da sebe lá ao fundo

e depois deitavas te ao meu lado e eu dava te o meu peito cansado

à espera de um milagre […] se eu te criasse deus [poeticamente]

pegavas no chicote

ensaiavas varadas cheias de fúria e cólera

e expulsavas os homens de muito pouca boa vontade//

e só depois eu receberia na minha casa [na topologia literária t] os afrontados

e lhes dava do pão que tinhas acabado de multiplicar

[…]

[utopia e espécie de Minima Moralia, de Adorno, 2017]

mas se um dia quiseres ser um deus verdadeiro

um deus a sério e não um impostor

procura me curvada sobre a mesa [pose do acto da escrita] ou então

debaixo da roseira//

[…]

e sobre a nossa cama uma manta de lã”

 

[o conforto, a dor mitigada na invenção de uma cumplicidade, erotizada quase, em contraste com o tempo presente pejado de individualismo, desamor, desapego e ódio]. ______________________

 

Do deus-como se: A fictividade poemática, caso tenhais em conta os poliédricos trilhos que venho avançado a partir do mel preparado pela autora (Proust, 1997: 42), encontra o avaro esvaziamento que só o trabalho da escrita pode, lateralmente, ocupar, enrolando a solidão em palavras. Neste livro, esquiça-se um deus hipotético, um como se (nos antípodas do als ob kantiano associado à representação), espécie de objogo. Melhor: na palavra <deus> é orquestrada uma re-ligação da matéria mental e da matéria concreta, a mistura entre o imaginário e a realidade contida na memória. o deus-como-se finge a supressão do hiato entre a imaginação verbal e a imaginação sensorial. Mais ainda: o como se dialoga, neste livro, com o universo micro-representado pelos volumes dos materiais da casa – em parte semelhante à acentuação das casas, p.ex. em Eugénio de Andrade-, em resposta à afectividade atravessada por uma dupla falta: os elementos da consanguinidade e da experiência amorosos desabados pela efemeridade & a necessidade de deus, ainda que como se um deus, ao serviço da espera e da projecção de um caminho e, sobretudo, de um sentido englobante-englobado que ajude a erguer a solidez  da vacuidade, mas também as secretas combinações da realidade- conglomeração de humanos e animais, árvores e asas-  transformada em textos polarizadores da realidade-a-vir na forma, em geral longa, do poema: sim, deus é uma efabulação, porém, enquanto estrutural foco de disseminação semântica e pragmática, remoto refúgio poemário com a organicidade do necessário importado da comunhão pagã. Recorro aos poemas seguintes, com vista a tentar corroborar esta interpretação__________

“aqui à minha frente está o centro do mundo [= poema]// neste pequeno vaso a flor de cato [planta equiparada à sobrevivência, à aridez e à resistência, ao amor que perdura]/ acabou de nascer/ e mostra  se lasciva à minha timidez e humilde me curvo [a curvatura insinua a significância do universo precatório, da prece, da oração] como se aqui estivesse deus ou um seu emissário [de novo, a ideia de <mensageiro>: como se o trabalho da linguagem comportasse a acção de Hermes: uma hermenêutica adstrita ao gesto poético]// vou ficar a noite toda a olhar para ela/ a vê la crescer e a vê-la morrer [diria que a luz é entre-dois da divergência adstringente, funcionando, tão-somente, um intervalo entre eros e thanatos, um espaçamento entre cristal e ferro martelado. Quanto à abdicação subversiva do hífen entre os verbos e os pronomes reflexivos, julgo que participa do fluxo fugaz de tudo: os duradouros elos de ligação não mais que miragem, fantasia interpelativa urdida de presente & passado, ainda assim lúcida face à privação, à limitação determinada pela mortalidade e que, várias vezes, é nomeada como <fatalidade> e >destino> _________________________

A este respeito, mutatis mutandis, escuto ecos do heterónimo pessoano Ricardo Reis, designadamente os atinentes à força impessoal e inelutável da Brevidade: rosas & fatum. / sem ressurreição [deus como se, logo, desinstalado dos cânones: outrossim próximo e mortal companheiro] // deslizo o vaso para a minha direita/ devagar [advérbio que dá a ver a tentativa de perduração] / como se transportasse deus de um lado para outro/ é este um momento sagrado/ […]” (Id., 110) [segue-se uma referência profusamente irónica ao rito tradicionalmente votado à Anunciação da N. Senhora, e que diz bem de uma infância assoberbada de indícios católicos]:

“mas eu tenho sempre de esconder esta dor este cravo espetado no peito

olho esta folha como se contemplasse um sudário com o rosto de deus

[segundo o texto bíblico, foi o mesmo encontrado por Simão Pedro e João; santo sudário de Turim. O que mais importa: a equivalência fictiva da página com a morte, primigénia e vestigial interrogação da poeta]:

[…]

e mesmo que alguém me oiça repetir

este é o meu corpo [a página, a dádiva do poema aos leitores]

tomai e bebei dele e não mais sereis tristes

eu direi sempre que foi a voz do vento que sopra da capela ali junto ao ribeiro

[…]

sentir este gerúndio de uma dor que passou há muito tempo

tens apenas sobre a mão o infinito inviolável

e é deus quem está aqui e vagueia de nervura em nervura

[…]” (Id., 122-23)

________________________

Destaco, no próximo excerto, o uso do polissíndeto, que acompanha a maioria dos poemas, e, tal como o recurso às repetições lexicais, desempenham um papel essencial no plano da musicalidade e da compreensão dos ritmos, paradoxalmente, retardados, na medida em que o vagar & o retardo cumprem, a meu ver, três funções principais: sedimentar as memorações de um passado, em boa parte vivido ao som de rosários, de preces, ou seja, de um pretérito pagão & soteriológico e cuja ligação ao sagrado acontece de maneira difusa, sinuosa,  como atestação da comunidade católica com o visceral afecto das cantilenas, das cantigas de embalar, da fiada fónica, depois a música de Bach ou, p. ex., uma tela em negro de Rothko – outros instrumentos de suspensão do tempo, além da poesia. “[…] o júbilo dos corpos com a certeza do trabalho inexorável do tempo e das feridas da memória” (Barrento, 2006, 29), portas giratórias que nos fazem entrar, como que enfeitiçados diante de dissimétricas margens, nos meandros de um livro onde a poesia ainda é casa; coadjuvar o refluente perfil narrativo, para que convergem, igualmente, as anáforas e as coordenadas sindéticas, principalmente, aditivas:

“e no lume e na névoa e na guerra e na trégua [o polissíndeto confere uma eufonia ditonga ao verso]

será que estarão nestas coisas os olhos de deus mas deus onde está

onde dormirá

onde será que deus se disfarça a fingir que sou eu [enfoco: o tropo do <duplo>]” (Id.: 126-27).

__________ Havia deixado em aberto, supra, a frequência da composição triádica. Desde logo, exibe a ressonância da trindade religiosa, mas também está patente no recurso a estrofes com 3 versos/trísticos, ao serviço da fluidez da dialecticidade (de sabor hegeliano) das fatídicas transições dos ciclos de vida do ser-aí: nascer, crescer, morrer. A par dessas vertentes: a simbólica do número 3, a da interligação de pares opostos e da expansão do imaginário. Por exemplo nesta estrutura anafórica:

“quem guia o projéctil por cima dos montes

quem roubou a luz

quem desviou de repente o trilho da vida e a vida tão breve” (Id., 127)

“estás aqui mas queres o mundo todo

este estranho lugar é uma emboscada

e tão pouco tempo para escapares à morte” (Id., 90) _________________

Idiossincrasia lusa: porventura, somente entre os nossos <Críticos> a maturidade e a excelência sejam falsas pistas de uma pretensa menoridade dos poetas.

_________

Em síntese, A Luz Breve das Rosas é um dos melhores livros de poesia que li em 2025. Teresa Avilez não se atém a uma fonte que, por sua vez, seria o pretérito. Não é, sobretudo, disso que se trata, dado que o trabalho da escrita em reversibilidade com o da memória faz com que o livro percorra incomensuráveis fontes. Mais acrescento que, em rigor, Teresa Alvarez dá-nos a ler um documento, porque manifesta a historialidade da escrita & da vida (inseparáveis) com uma marca de água proliferante: a afectividade que é luz do presente tremeluz sensações da noite, palpável quase, tristeza, pesar, ermos lugares das perdas e da brevidade do ser-para-a-morte (Heidegger:  condenação nossa, de quem amamos e nos amou, desmoronamento, à beira de. Documento de uma vívida cadeia de lembranças, falências, torpezas. O que resta subsistirá enquanto houver leitoras, leitores, debalde a aspiração continuada da autora a alcançar o poema, idealmente perfeito, e cujo não acontecer continua a espera, a vitalidade, a durabilidade possível.  Documento ainda em virtude dos caminhos de uma escrita que mergulha na liquidez matutina que não deixou linhas escritas, tão-só linhas e gestos, linhas e rostos, lágrimas e cânticos.

Subscrevo o seguinte ponto de vista e aplico-o à minha experiência de leitura e reflexão partilhada sobre A Luz Breve das Rosas:

“O valor colectivo do <eu> do mundo do texto, está na capacidade de ultrapassar a singularidade da experiência dos limites da consciência individual que são os nossos limites na vida, está na possibilidade que o leitor tem de se apropriar do texto, de levantar questões e de se libertar.” (Ernaux, 2025, 71-2).

Esta é uma linha de pensamento que me leva a sublinhar que Teresa Alvarez não assume, bem pelo contrário, a postura solipsista, e inclusive a Casa é sugestiva de visitantes, inquilinos, companheiros (do latim, cum panis). Há uma subjectividade, uma singularidade em devir, sim, orientadora – porventura é esta a pedra de toque deste livro –das multímodas identificações que espoleta nos leitores, mérito do alastramento ao geral. Teresa Alvarez consegue um livro que pensa e sente dentro de quem o lê, ao mesmo tempo que apresenta, poeticamente, o pensar e o sentir dentro de quem já feneceu, embora latência memorativa. Mais: este é um livro que nos dá a ler crenças, comportamentos, códigos da sua infância, paraíso perdido, ou modulação da luz interior, invisível, manifestada na esfera de visibilidade dos poemas ______________.

Dito de outra forma: se acaso é o sentimento de perda que está na base deste livro, é igualmente a escrita poética a que mais se acerca da sua transfiguração, promovendo a perda de si, a acção de transfugir para o âmago do mundo: a memória e o presente surdem como a maior distância entre dois pontos, pois a escolher um caminho de encontro entre aí & aqui, não seria, decerto a recta, mas sim os nexos, as sinuosidades, o flexuoso, as diagonais, as elipses, a intersecção e propagação: um caminho de vulnerabilidade & tenacidade

Quanto à <Crítica> que se não abeirou deste livro, nem os prémios literários, tem, a meu ver, um lado positivo: a <Crítica> renuncia ao diferente, ao novo, põe fora de circuito livros a que retira lastro mediático, apenas garantindo a sua própria continuidade. Agora bem, a obra poética de Teresa Alvarez, em geral, e este livro, em particular, não são institucionalizáveis, mas são, largamente, credores de aturada investigação: este é um livro que desacomoda e transporta em si a vontade de escrever. este breve estudo: eis a prova____________.

Porque nos poetas-caracóis, sempre tão breve a luz d´” esse momento excelso da palavra a cair vertical sobre o papel e sobre o coração” (Alvarez, 2005: 86).

 

Referências

2017- Adorno, Theodor W., Minima Moralia, Lisboa, ed. 70.

2020- Agostinho, Santo, O Livre Arbítrio, ed. Paulus Brasil.

2006 – Barrento, João, “…Por tanta coisa que amamos em comum”, in AA.VV, Cadernos de Serrúbia, n.6, outubro, C. M. do Porto, Fundação Eugénio de Andrade.

1996- Celan, Paul, Sete Rosas mais Tarde, Lisboa, Ed. Cotovia.

2000- Deleuze, Gilles, Crítica e Clínica. Lisboa. Edições Séc. XXI.

2025- Ernaux, Annie, A Escrita como uma Faca, Porto, Porto Editora.

1986- Ferreira, Vergílio, Alegria Breve, Lisboa, Bertrand editora.

1989- Ferreira, Vergílio, Carta ao Futuro, Venda Nova, ed. Bertand.

2024 -Gil, José, O Espaço Interior. Lisboa, Relógio D´Água.

2013- Goethe, Johann W., O Fausto. Lisboa, Relógio D´Água

1990- Hegel, G. W. F., Princípios da Filosofia do Direito, Lisboa, Guimarães editora.

2008 – Jankélévitch, Vladimir, La Mort. Éd. Flammarion.

2021- Lacan, Jacques, La Troisième & Miller, Jacques-Alain, Théorie de Lalangue, Paris, Éd. Navarin.

1997- Proust, Marcel, O Prazer da Leitura, Lisboa, Ed. Teorema.

2018 -Lévinas, Emmanuel, Totalidade e Infinito, Ed. 70.

1999- Rilke, Rainer Maria,Poemas. As legas de Duíno. Sonetos a Orfeu [prefácios, selec. e trad. de Paulo Quintela. 5ª ed. Porto, Edições Asa).

2014- Rilke, Cartas a um Jovem Poeta, Lisboa, Edições Modo de Ler.

2018 – Rilke, As rosas [prefácio e tradução Yvette Centeno] E-Book, ASIN : ‎B0722R7H16.

2001- Ramos Rosa. As Palavras, Porto, Campo das Letras.

1991-Silesius, Angelus- A Rosa é sem Porquê, Ed. Vega.

2020 – Teixeira, José Rui – Autópsia [Poesia reunida]. Porto, Ed. Porto Editora.

2000- Zambrano, Maria, A Metáfora do Coração e outros escritos, Lisboa, Assírio & Alvim.

 

TERESA ALVAREZ

A Luz Breve das Rosas

Ed. Labirinto, 2025