MARIA ESTELA GUEDES & MAJOR ALEX P. ZINGA
A savana sem hienas na Reserva de Bandia
O ECOSSISTEMA DA SAVANA DO SAHEL: A EXPULSÃO DOS GIGANTES
A savana que molda a Reserva de Bandia, no Senegal, insere-se na cintura de transição do Sahel, um ecossistema semiárido marcado por uma estação seca severa e um curto período de chuvas torrenciais. A vegetação é dominada por tapetes de gramíneas que secam sob o sol e por árvores altamente adaptadas à escassez de água, como os monumentais baobás (Adansonia digitata) e várias espécies de acácias espinhosas.
Historicamente, esta savana arborizada era o território de eleição da icónica megafauna africana. Contudo, a realidade atual do Senegal e da zona ocidental do Sahel é dramática: já não há elefantes selvagens nem leões a percorrer livremente estas paragens. A caça furtiva, a desertificação progressiva e a pressão humana dizimaram ou empurraram estas populações para a extinção local. Os animais que hoje observamos na Reserva de Bandia resultam de um esforço hercúleo de reintrodução ecológica em espaço vedado, transformando a reserva num oásis artificial que tenta replicar o passado perdido da pátria senegalesa.
Hienas atrás das grades
A HIENA-MALHADA, Crocuta crocuta
Classificação e Morfologia:
A hiena-malhada é o maior membro da família Hyaenidae. Caracteriza-se pelo seu corpo robusto, com a linha do dorso inclinada (quartos dianteiros consideravelmente mais altos que os traseiros), uma mandíbula dotada de uma força de pressão esmagadora, capaz de quebrar ossos de grandes ungulados, e uma pelagem amarelada ou acastanhada coberta por manchas escuras.
Costumes e Organização Social:
Ao contrário do mito popular que a rotula estritamente como necrófaga, a hiena é uma caçadora altamente eficaz e inteligente, operando em clãs complexos de estrutura estritamente matriarcal. As fêmeas são maiores, mais agressivas e dominam os machos em todos os aspetos da vida social. Comunicam através de uma vasta gama de vocalizações, incluindo o famoso som semelhante a uma “gargalhada”, utilizado para alertar o clã sobre comida ou disputas territoriais. O seu papel ecológico é vital: ao limparem as carcaças e consumirem os ossos, evitam a propagação de doenças na savana.
NATURA VS. CULTURA – AS HIENAS NA CADEIA
A Reserva de Bandia oferece aos olhos do visitante ocidental uma imagem paradisíaca: uma savana pacífica, onde zebras, girafas, búfalos e antílopes pastam numa harmonia idílica. No entanto, este “paraíso” é uma construção cultural humana fortemente vigiada. Para que esta aparente paz exista, a Natureza teve de ser domesticada e encarcerada. O maior exemplo desta tensão entre o selvagem e o civilizado é o destino das hienas. Na Reserva de Bandia, as hienas estão literalmente na cadeia. Encontram-se isoladas num recinto fechado e fortificado, atrás de redes e vedações de segurança. Esta reclusão forçada é o preço que a Cultura cobra à Natureza: se as hienas fossem libertadas na área geral da reserva, o seu instinto predatório e a sua eficácia de caça implacável dizimariam rapidamente os herbívoros reintroduzidos, provocando o colapso do ecossistema controlado que atrai o turismo. O predador topo de gama foi transformado num prisioneiro de alta segurança para que a savana pareça um jardim intocado.
CAMINHOS DA SAVANA QUE LEVAM À RESERVA DE BANDIA, NO SENEGAL
DIÁRIO DE UMA EXPEDIÇÃO AO SENEGAL


