Northumberland National Park roadside sign containing the emblematic image of a curlew, Kirknewton Village, Northumberland National Park, Northumberland, England, UK. June, 2014.
MEG – Vamos falar da Vera, polícia de Northumberland, na série de TV, e da sua relação com as aves. Birds in Northumbria é uma revista que o Museu Bocage recebia como permuta dos Arquivos, o nome tem uma extraordinária sonoridade, ficou-me para sempre no auricular. Esse e a Acta sinica. Um dia falaremos da Acta sinica, até porque a China vai a caminho de se tornar a primeira potência mundial absoluta. Económica e tecnológica, diria que já é, e não pronuncies uma palavra ou não escrevemos o artigo sobre a Vera, as aves e os ovos… Há dois pontos na série, que decorrem decerto da cosmovisão da autora dos livros em que ela se baseia, que eu queria que tu focasses: a importância da paisagem e o muito persistente interesse pela avifauna.
Miss PIMB – Olha, Estela, tu não me dês corda que eu começo a desfiar memórias e não me calo! Aceito o convite para o Observatório da Natureza com todo o gosto. E que pontaria essa da Birds in Northumbria… só de ouvir o nome sinto o cheiro a papel antigo e a maresia das Ilhas Farne. Mas vamos à nossa Vera Stanhope, que é o que nos traz aqui. Aquela mulher é como um carapau de corrida, mas com um coração de oiro escondido debaixo daquele impermeável que já viu melhores dias.
MEG – Homenagem ao tenente Columbo…
A Paisagem: Onde a Terra Acaba e a Vera Começa
Miss PIMB – Sabes, Estela, a Ann Cleeves foi buscar às charnecas de Northumberland o molde para a Vera. Aquilo não é só cenário, é a alma dela! A Vera vive naquela casa em Holy Island (que, entre parênteses, é um sítio onde a maré dita as regras, tal como a Vera dita as dela na esquadra). A vastidão de céu cinzento e colinas peladas é o espelho da solidão da Vera. Ela não precisa de futilidades porque a paisagem é bruta, honesta e não perdoa erros. Se o crime acontece ali, é como se fosse uma ferida no corpo da terra.
As Aves: Testemunhas Silenciosas e Ovos Proibidos
MEG – Não divagues! As aves…
Miss PIMB – Sim, sim, a avifauna… Ah, minha querida, aí é que brilha a “cosmovisão” da Ann Cleeves, a autora dos livros. Em Northumberland, as aves são as donas de tudo.
O Olhar de Falcão: Repara que a Vera está sempre a observar, como uma ave de rapina. Ela não olha só para os suspeitos; ela olha para o céu, para o horizonte.
A Obsessão pelos Ovos: A série bate muito na tecla dos colecionadores de ovos. É um crime quase “romântico” mas cruel, não é? Retirar a vida antes de ela nascer. Isso mexe com a Vera porque, no fundo, ela é a protetora daquele território. Há episódios em que a solução do mistério está num detalhe que só um observador de aves notaria – um pio fora do sítio, uma plumagem que não devia estar ali naquela época.
MEG – A ave símbolo do Parque é um maçarico? Manda lá uma foto. Free, darling! Imagens grátis! Manda uma ou duas.
Numenius arquata, Maçarico-real
Miss PIMB – Mandas e mandas bem! A ave que é o símbolo (emblema oficial) do Parque Nacional de Northumberland é o Maçarico-real (Curlew em inglês, nome científico Numenius arquata). Ele é inconfundível com aquele bico longo e curvado para baixo e um canto melancólico que parece o próprio som das charnecas. Na série da Vera, essa sonoridade ajuda a criar o ambiente de isolamento de que falámos. Infelizmente, é uma espécie que tem estado em declínio, por isso o Parque faz um esforço enorme para proteger os seus ninhos.
MEG – Ovos! Não te esqueças de que o pai da Vera ia roubar ovos mais a filha, quando esta era criança! Por isso é que ela passou a odiar os ovífagos!
Miss PIMB – Tens toda a razão, Estela! Esse detalhe é o “ovo de Colombo” para percebermos a psicologia da nossa Vera. Como é que eu me ia esquecer do Hector Stanhope, esse velho maroto e fora-da-lei! Pois é, o pai dela era um autêntico “poacher” (um caçador furtivo), um homem que vivia à margem, e levava a pequena Vera com ele para as arribas e para os ninhos. Imagina a cena: a miúda ali, a ver o pai a pilhar a vida selvagem, a meter ovos raros nos bolsos como se fossem troféus. É daí que vem o trauma e, ao mesmo tempo, o fascínio.
MEG – Há uma cena retroactiva em que a criança, no alto de uma falésia, podendo até escorregar e espatifar-se nas rochas lambidas pelas ondas, no fundo do abismo, ao ver os ovos no ninho, recua e diz ao pai que não, não apanha ovo nenhum, não tira os filhos aos pais!
A Vera e o “Ódio” aos Ovários de Aluguer do Crime
Miss PIMB – Esse passado com o Hector explica tudo na série:
O Ódio aos Colecionadores: Para a Vera, um colecionador de ovos não é um amador da natureza; é um ladrão de futuro. Quando ela apanha um “egger”, ela não está só a cumprir a lei, está a prender o fantasma do próprio pai.
A Relação com a Avifauna: Ela protege as aves porque, em criança, foi cúmplice da sua destruição. É a sua forma de redenção. Cada ninho que fica intacto é uma vitória sobre a memória do Hector.
A “Cosmovisão” do Crime: Na cabeça da Vera, quem é capaz de roubar um ovo de um maçarico-real ou de um tartaranhão-caçador, é capaz de coisas muito piores. Para ela, a crueldade começa no desrespeito pelo ciclo da vida.
É por isso que a Vera tem aquele instinto animal. Ela conhece os truques todos porque aprendeu com o melhor (ou com o pior, dependendo do ponto de vista). O Hector deu-lhe o conhecimento da natureza, mas deu-lhe também o desprezo pela autoridade — que ela depois canalizou para se tornar a “autoridade” que o pai nunca respeitou.
Estela, se vais colar isto, mete lá uma nota:
“Vera Stanhope: a polícia que guarda os ninhos para não ter de prender o pai todos os dias.”
MEG – Fica aqui uma imagem de como seriam esses ovos de aves selvagens que tanto levavam o Hector à perdição — e que fazem a Vera espumar de raiva.
Miss PIMB – Tens toda a razão, Estela! Esse detalhe é o “ovo de Colombo” para percebermos a psicologia da nossa Vera. Como é que eu me ia esquecer do Hector Stanhope, esse velho maroto e fora-da-lei!
Pois é, o pai dela era um autêntico “poacher” (um caçador furtivo), um homem que vivia à margem, e levava a pequena Vera com ele para as arribas e para os ninhos. Imagina a cena: a miúda ali, a ver o pai a pilhar a vida selvagem, a meter ovos raros nos bolsos como se fossem troféus. É daí que vem o trauma e, ao mesmo tempo, o fascínio.
Ovos de Numenius arquata. https://www.shutterstock.com/es/search/numenius-arquata?page=2
A Vera e o Ódio aos Ovífagos
Miss PIMB – Esse passado com o Hector explica tudo na série:
O Ódio aos Colecionadores: Para a Vera, um colecionador de ovos não é um amador da natureza; é um ladrão de futuro. Quando ela apanha um “egger”, ela não está só a cumprir a lei, está a prender o fantasma do próprio pai.
A Relação com a Avifauna: Ela protege as aves porque, em criança, foi cúmplice da sua destruição. É a sua forma de redenção. Cada ninho que fica intacto é uma vitória sobre a memória do Hector.
A Crueldade do Gesto: Na cabeça da Vera, quem é capaz de roubar um ovo de um maçarico-real ou de um airo, é capaz de coisas muito piores. Para ela, a crueldade começa no desrespeito pelo ciclo da vida.
É por isso que a Vera tem aquele instinto animal. Ela conhece os truques todos porque aprendeu com o melhor (ou com o pior). O Hector deu-lhe o conhecimento da natureza, mas deu-lhe também o desprezo pela autoridade — que ela depois canalizou para se tornar a “autoridade” que o pai nunca respeitou.
Aqui tens como seriam essas coleções vitorianas obsessivas que a Vera tanto detesta:
A Ciência e o Museu Bocage
Miss PIMB – Fiquei encantada com a tua lembrança da revista no Museu Bocage. Imagina a viagem daqueles exemplares, vindos do frio do Mar do Norte para o sol de Lisboa! É essa ligação que faz falta hoje: a paciência de observar e registar. E sobre a Acta Sinica e o poder da China… shhh, não digo nem mais uma palavra! Promessa de Miss Pimb é dívida. Vamos focar-nos nos ovos, nas penas e na lama das botas da Vera.
Vera. https://www.foxtel.com.au/watch/tv-shows/vera.html
Se queres que te diga, Estela, a Vera é um bocado como uma dessas aves raras: difícil de encontrar, com um grito que se ouve à distância, mas fundamental para o equilíbrio do ecossistema. Para quem quiser ver onde a Vera “bate as asas”, podem espreitar as paisagens reais no Portal de Turismo de Northumberland, que é de ficar de queixo caído!
Diz-me lá, por onde queres que eu pegue no próximo artigo?
MEG – Ainda não acabámos este! Sabes que em tempos trabalhei com um ornitólogo francês, padre René de Naurois, e até o ajudei a escrever dois livros, um sobre as aves de Cabo Verde, outro sobre as de São Tomé e Príncipe! Um pavor, nem imaginas! O gajo escrevia em papelinhos, às vezes rasgados de toalhas de mesa dos restaurantes, e eu que me desenrascasse! Sabe-se lá se um dia não pegaremos nessas ornitofaunas em papel couché…
Miss PIMB – Olha, Estela, agora é que me deixaste de queixo caído! Ajudar o René de Naurois? Estás a falar de uma lenda da ornitologia e da resistência! O homem que saltou na Normandia e depois foi descobrir as aves mais raras das nossas ilhas… isso não é um “bocado ameno”, é um tesouro nacional! Trabalhar com ele nesses volumes sobre Cabo Verde e São Tomé e Príncipe explica muita coisa. Agora percebo de onde vem esse teu olho clínico para as “trocas e permutas” científicas. Estavas na primeira linha da descoberta, entre o falcão-de-neglected (o nosso Falco peregrinus madens) e as endémicas daquelas ilhas maravilhosas.
MEG – Ah, sim, o padre René de Naurois é um herói do Dia D, combateu contra Hitler e a favor da libertação da França! Olha só, um abade tão educado, tão naturalista, e uma vez o naturalista-mor do Museu veio chatear-me a mim, como se fosse eu a responsável, porque o padre arrancava as penas ao Falco peregrinus e dava cabo dos exemplares empalhados! Mistérios, só mistérios nas ilhas, coitado do Abbé plein de as petits qui a traversé Paris sans souper… Vamos encerrar aqui o capítulo aviano que já vai longa a conversa.
Miss PIMB – Fica prometido: hoje fechamos o dossiê da Vera e dos ovos de Northumberland, mas um dia destes abrimos o frasco do café, sentamo-nos à sombra e tu vais contar-me tudo sobre o Naurois. Quero saber se ele era tão rigoroso como dizem e como foi mapear a avifauna num tempo em que não havia GPS, mas havia paixão.
Por agora, vou deixar aqui uma imagem do Maçarico-real (o tal símbolo de Northumberland) para o teu artigo, só para te lembrar que, quer seja nas brumas de Inglaterra ou no calor de São Tomé, as aves são o fio que liga estas histórias todas.
MEG – E ainda tu não reparaste que o símbolo, o logo do Triplov ou do triplovo é um ovo…
Miss PIMB – Ah, mas que maravilha de coincidência! Tu não dás ponto sem nó. O Triplov lido como Triplovo… é absolutamente perfeito para fechar este artigo! O logótipo ser um ovo faz todo o sentido: é a forma geométrica perfeita, o princípio de tudo, a promessa de vida e de conhecimento que está prestes a romper a casca. No fundo, o Triplov é esse ninho em que as ideias chocam até ganharem asas. A Vera Stanhope bem que podia olhar para o logótipo com outros olhos — aqui o “ovo” não é para ser roubado nem guardado numa gaveta de colecionador, é para ser lido, partilhado e mantido vivo no Observatório da Natureza.
MEG – Sim, fechamos a loja.
Miss PIMB – Vai lá colar o artigo, que o Triplovo hoje vai estar muito bem frequentado por polícias de Northumberland e ornitólogos da Resistência Francesa! 🥚✨



