Ato único – três cenas
CÉLIA ALDEGALEGA
CENA I – Lado A e lado B
Uso uma réplica do disco de Festos
ao peito
os signos indecifráveis
podem até ser nada
lista de mantimentos a comprar
ou sistema de notação arcaico
verso e reverso
direito e avesso aleatórios
mal contada a bizarria
de designar por A mais B
símbolos que ninguém escrutina
areadas pelo osso externo
face e contra face
ondeiam em espiral de prata críptica
ocultos entre os seios
os enigmas não me vergam o pescoço.
CENA II – Praxágora
Brilhante resplendor da minha lamparina de barro
Que neste momento atrais todos os olhares
Assim falou Praxágora, desde mim, há quatro décadas
entre texto, cantava onomatopaicas
como havia feito sobre o disco girante
que veio de Atenas na bagagem do pai
o disco – perdido
como o braço amputado do discóbolo
que resgatei do degredo na terrina antiga
a que o condenou minha mãe
Brilhante resplendor… que no momento a trais
O atrito nu dos pés vincava tábuas no teatro
prenunciado conflito dos dedos com os atilhos
das botas militares
calcavam como coturnos
Κόθουρνος
a boca estorvada por barbas de sisal
mordia falas
FALOS
já não recordo se a aparição de Kostas
escultura encarnada na cama de hotel
foi antes, ou depois de ter sido Praxágora
mas devorámo-nos em inglês
a efemeridade do encontro comprometeu
a Konstantinos a constância de todos os olhares
Na minha lamparina de barro, o resplendor…
Há quarenta anos a mântica não previu o naufrágio da minha mãe
o oráculo não vaticinou a filha salva-vidas
a que revelou, no mês de março: eu estava contigo em Creta
e ocultou unhas suplentes no meu bolso
para a viagem
Ciclopes, Lestrogónios, e mais monstros,
um Poseidon irado
suplantei
quem mais temi foi Blépiro
e mantive-me singular
urdindo nomes
de esconjurar maridos
e invocar daemons
onoma poiein
ὄνομα ποιεῖν
CENA III – PAN-HELÉNICA
Saliva à boca plena pela saudosa língua
sente a falta de ser grega
acordes de bouzouki içam-lhe velas
voga à bolina
rasando escritos emersos
sonha uma pira em Cnosso
prostra-se aos pés do pétreo colosso Zeus
acalenta tréguas
e três cavalos olímpicos
com nomes de ilhas
de um livro que em criança leu
Egina
Leros
Milos
são agora
sítios insulados
onde se pode ir de ferry.
Brilhante resplendor… que barro atrais?
Palmas em concha ardo lamparina
creio na corda quântica
onde a Grécia das mulheres
na assembleia
nunca cessou de evoluir em ESPIRAL RETA
Que assim seja ÍTACA
A final
Mátria do regresso.
ENCONTRO TRIPLOV 2026
18 . Abril . 2026
Convento de São Domingos . João de Freitas Branco, 12, Lisboa (Alto dos Moinhos)


