Alguns testemunhos sobre Nicolau Saião

 

 

Nicolau Saião ou Sobre «As novas vozes»

«As novas vozes» é um livro compósito e diverso nas suas inscrições: Entrevistas, Evocações, Ensaios, Poemas e Testemunhos. Aliás, num certo sentido, todo ele é um testemunho mesmo quando o seu inventário aponta para uma Opereta em três actos, um ensaio sobre literatura policial (com Carlos Martins), outro sobre a Contra-Informação, outro sobre «O crime e a Sociedade», outro sobre Picasso ou Cruzeiro Seixas ou Mário Cesariny ou Lewis Carrol. Dinis Machado, Carlos Martins, Carlos Garcia de Castro ou José Carlos Breia são evocados neste livro que, além do autor, integra poemas de Wislava Szymborska, Vicente Aleixandre, Radovan Ivsic, Aimé Césaire, Louis Scoutenaire, Carlos Alvarez, Gerard Calandre, Dusan Matic ou Jules Morot. Aquilo a que chamamos «espuma dos dias» está presente em textos de opinião («A propósito de televisão», Boaventura Sousa Santos, o Museu Surrealista de Famalicão, Irene e Jolmar oferecem serviços na Net, por exemplo) ou por interposta pessoa (a figura de José Jagodes). O Surrealismo em geral ou o livro «Escrita e o seu contrário» em particular são objecto de entrevistas separadas. No texto «Das Letras das Artes & doutras coisas» o autor confessa-se «algo preguiçoso» o que, perante o volume e a dimensão deste trabalho, surge como irónico. A ironia está presente numa frase sobre Salazar: «um excelente e talentoso hipócrita».O livro fecha com uma comunicação de Mário Cesariny datada de 1978. A lucidez do autor está integral nesta citação do próprio: «A minha obra não interessa nem desperta emoções intelectuais no geral da nação aparentemente culta ou que deveria sê-lo» José do Carmo Francisco     

 

Com a leveza do bailarino e a acutilância e firmeza do guerreiro; pousando em cada pegada que o tempo das coisas deixou dentro dele; refazendo, num abraço, a coloração integral das recordações; vivificando, de novo, pela ternura do toque, a pele do vivido: em cada sabor, cheiro, som – da casa, da respiração dos campos, das cidades de glórias ou tristezas; chamando por esse “outro si” e por esse “outro nós” à medida da ternura e da aspereza dos caminhos que cada verso lhe faz trilhar, Nicolau Saião é um dos poetas pouco “visíveis” exactamente por ser um dos poetas em que o ideal do equilíbrio entre a emoção, o sentimento e a reflexão mais perto se encontra de se concretizar. Num tempo em que o surrealismo é citado (inevitavelmente?) por uma vulgata que o tornou numa pretensiosa ou rentável mistela de bizarria, não será, todavia, de estranhar o silêncio em torno do nome e da sua obra, que é a de um dos maiores poetas portugueses vivos.

Os dias passam ao sabor do amor que se lhes tem. O sabor do passado junta-se ao do presente e, este, àquele com que o presente realiza já o futuro. A vida é, pois, um contínuo banquete, em que os sabores se temperam e nos temperam à medida do amor que damos aos dias que nos cabem. E, a poesia, a matéria de que tudo se faz e em que tudo resulta.

O poema, este pode assumir qualquer das formas e sabores que o poeta – ele próprio, poesia – deu aos seus dias. Com Nicolau Saião, saboreamos os dias por inteiro. Joaquim Simões

 

Neste livro que agora se apresenta (“A escrita e o seu contrário”), Nicolau Saião – embora na linha de escrita que lhe é habitual – efectua um percurso por diversos temas que aprofunda: a memória, a celebração do amor humano e a revolta contra os dogmas que maculam a existência, a busca do conhecimento que é a antecâmara da sabedoria – pontos em que o surrealismo e a Santa Philosophia se irmanam para que seja possível a viagem em todas as direcções que a Poesia verdadeiramente é.  João Garção

 

Li a tua mensagem com a atenção que merece um pensamento tão denso como o teu, tão cravejado de lampejos literários que tanto podem iluminar quanto queimar as asas de quem voa perto do sol. E, no entanto, é nesse voo — entre o que chamamos sagrado e o que nomeamos como pó do humano — que nos encontramos, tu e eu, cada qual com o seu mapa de navegação desenhado a carvão sobre a pele da existência. António Justo, in carta a ns 

 

Nestes poemas coexistem uma raiva e uma ternura muito peculiares. Elas são feitas de ritmos em que se misturam coisas grandes e coisas pequenas, a amargura, a alegria, os desencontros, a devastação de um mundo, o medo e a surpresa indemne, o conhecimento que bem pode por vezes visitar-nos. Mas nunca o desencanto. E nunca a indiferença.

Mas também o amor. Se não em existência, pelo menos em potência. Ou em expectativa.

Ou em perfil, ainda que feito só de penumbra ou, até, de irrisão. Porque somos feitos de muitas ausências, será bom que nos precatemos. À solta, muitos animais incoerentes arrastam-se dissimuladamente na nossa direcção. Há que responder-lhes, não deixando para trás numerosas e sólidas figurações com que nos possam fixar. Neste terreno de suspeitas e escaramuças, conservemos a nossa boa estrela. Jules Morot sobre “Escrita e o seu contrário”

 

Ao vaguear pelas páginas de As Novas Vozes, o leitor não se encontra perante uma mera coletânea de textos, mas diante de uma incursão vívida num território onde a palavra, tal como no manifesto fundacional de André Breton (1924), se faz “exploração do pensamento em ausência de qualquer controlo exercido pela razão, fora de qualquer preocupação estética ou moral”. Nicolau Saião, escritor de rara lucidez e densidade poética, inscreve-se na genealogia mais legítima do surrealismo, quer enquanto movimento literário e artístico, quer como atitude ética de insurgência contra os automatismos ideológicos e as prisões da consciência normativa.

Desde os seus vínculos históricos com o Bureau Surrealista Alentejano e, mais tarde, com o Bureau Surrealista de Lisboa, Saião estabeleceu uma ponte viva com figuras tutelares do surrealismo português, como Mário Cesariny e Cruzeiro Seixas, com quem manteve diálogos criativos, correspondência e cumplicidade estética. Porém, o seu trabalho ultrapassa o mero exercício de continuidade: nele, reencontramos o espírito de Artaud, a violência simbólica de Benjamin Péret, e a imagética transgressora que reconfigura o real, tal como o inconsciente o reconfigura nos sonhos.

A obra reunida neste volume – entre entrevistas, evocações críticas e poemas – dá corpo a essa lógica subterrânea, muitas vezes onírica, onde o tempo histórico é atravessado por vozes fantasmáticas, duplos, restos diurnos e pulsões recalcadas. Como bem o diagnosticou Freud em Die Traumdeutung (1900), o sonho é a via régia para o inconsciente – e é precisamente essa via que Saião percorre com rigor, humor e uma pungente ironia. Os seus textos instalam-se na fenda entre o manifesto e a ficção, entre a lucidez poética e o delírio organizado, numa filiação que Lacan (1966) veria como “o real enquanto impossível”.

Não será despropositado afirmar que Nicolau Saião contribui, com esta obra, para um dos grandes desígnios do surrealismo: o reencantamento do mundo através da palavra poética, da imagem insólita, da liberdade simbólica. Como o próprio escreveu em “NS, um voo sobre o surrealismo”, trata-se de “erguer-se contra a história” e de “emitir sinais para além do convencionado”. Essa resistência ativa ao apagamento do imaginário faz da sua escrita um gesto clínico – no sentido freudiano do termo – onde a linguagem não é sintoma de uma doença social, mas operação simbólica de libertação.

Num tempo em que os automatismos do consumo e da ideologia diluem o sujeito na linguagem publicitária, Nicolau Saião insiste em manter acesa a faísca do desejo. O seu surrealismo não é apenas memória de um movimento, mas a emergência intempestiva de um pensamento do fora – do exílio, do anacrónico, da heterodoxia. Com As Novas Vozes, o surrealismo português reencontra uma das suas vozes maiores, firmemente inscrita na cena internacional, mas também ferozmente enraizada numa topografia afetiva e ética que é, em última instância, aquela da poesia enquanto experiência radical do inconsciente. Luís Barreiros

 

Da cidade alentejana de Portalegre que numa primavera de outrora conheci com alegria, uma  voz continua a vir até mim voando sobre os dias do meu tempo, sobre o Atlântico e sobre as minhas horas de aprazimento e de operosa nostalgia, para além dos momentos de uma existência que também é de comparticipava aventura de viver. Generosa partilha que me garante minutos de mútuo encantamento, seja no leve tempo do “verão indiano” ou quando a neve rodeia a minha casa erguida nos entrepostos da grande floresta do nordeste canadense. Gérard Calandre


TRÊS POEMAS PARA ILUMINAR


ANUNCIAÇÃO

 

As mulheres do vento   parado como um planeta extinto

as mulheres doentes   as mulheres que cantam com surpresa

o seu vestido estranho como uma renda   como uma absurda mancha

as mulheres do meu dia como um peso de cores distintas

 

entre mim e o céu

 

Entram pela minha boca e censuram-me docemente

 

Aqui, diz uma, puseste o horror de um velho instante

ali, diz outra, não deixaste repousar os devaneios

Há uma que paira, como se me fitasse a direito, com as mãos

junto da testa, perto dos olhos, os lábios palpitando

estremecendo como uma pétala sobre a água

Mulheres de negro, afagando pastas de couro em lojas improváveis

escrevendo em papéis antigos fórmulas de gentileza

Mulheres que a diabetes assolou como praga medieval

mulheres de pernas como lírios rosados

andando ao longo duma estrada francesa

as árvores coloridas formando uma cortina imprecisa

 

Job de rosto erguido amargo senhor das angústias

a sua face trémula tão igual à do Senhor na noite de suor e remorsos

e a sua mulher por detrás, arrepanhando as vestes

 

Dizei-me mulheres  onde com que luz a vossa fotografia se encarquilhou

na madeira queimada das velhas casas onde medrava a guerra

Vós sois o sustento dos pontos cardeais

 

Lembro-me de ti, Marion, o rosto rodando como um guindaste

e o fumo que soltavas com um meneio elegante da mão esquerda

o fumo espalhado no parque abandonado

os olhos tranquilos frios

A rua solitariamente sob a noite de Junho

e o cão o velho cão dos bosques que trotava muito devagar

 

A vossa figura palpitante, mulheres, irisada obscura

à luz frouxa da manhã  e o frio subindo até às portas como um animal

a morrer.

                                                                                  (Bruxelas, 1999)


ENCONTRO EM PARIS

 

Atravesso os bairros e sou um homem só entre as casas

onde patrões e criados vão vivendo o seu dia

E Paris é para mim a face de Manolo Fuertes Refólio

o barbeiro que sabia aparar-me o cabelo

e que depois se exilou nestes lugares de salvação

 

Até Saint Michel verei pelo menos 60 conhecidos

mas o seu rosto já não é o que me lembro de lhes ver.

Notre Dame fica perto e repousa tranquilamente.

Todos os anos a imaginava, como que levitando na manhã

esperando os seus fiéis franceses que a sonham amorosamente.

A ela voltam uma e outra vez e olham em redor admirados

pensando se um de nós acaso não será um príncipe ou um mago

vindo de terras estranhas debaixo de um impulso fremente

 

Depois baixam os olhos com tocante delicadeza

pois a nossa expressão entrou-lhes bem no centro do coração

 

e o ar em volta ficou como se lhe tivesse fugido o sol. 

 (Creteil,1999)           


RELÍQUIA

 

Onde está o silêncio onde jaz o silêncio?

Não neste braço   sujo   cortado

Não neste tapete espesso   neste bloco de apontamentos

onde se cruzam insultos   rimas

Não no pequeno perímetro das veias

 

– afinal tudo tudo entre nuvens de carbono

semelhantes a um bafo de camponês sobre a neve

onde se esmagavam insectos e excrementos de lobo

O primo velho outrora mo ensinara num mês adolescente.

 

Onde  em que ilha de desolação

sufocado  incerto  esse silêncio soberano

onde jaz    cerzido por traços de faca de pedra

Não   não o barulho de um passo que caminha para a beleza dum rosto

saindo de um vazadouro para a lama musgosa da margem

Brilhante como celofane

 

O silencio que respira

Sim o silêncio morno de quem procura o vazio

ou de quem busca uma cor imersa na carne recordada

da mão faminta    de muitos negrumes alheios

 

O silêncio que se recolhe

que se desdobra

que nos relembra de momentos e perdas

O silêncio que permutamos

O silêncio para além da luz   entre os olhos de uma fera morta.

                                                                                   (Monforte, 2003)


 

 

Nicolau Saião