MARIA ESTELA GUEDES & MAJOR ALEX P. ZINGA
As zebras e o avestruz na Reserva de Bandia


A ZEBRA, Equus quagga

A designação aplica-se a três espécies distintas do género Equus, nativas do continente africano, reconhecidas pelo seu padrão único de listras verticais.

Classificação Científica
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Mammalia
Ordem: Perissodactyla
Família: Equidae
Género: Equus

Nome Lineano ou Científico: Equus quagga (Zebra-das-planícies, a espécie reintroduzida na Reserva de Bandia).

Características Biológicas e Morfológicas

Tipo de Animal: Mamífero ungulado com cascos, herbívoro e não ruminante.

Dimensões: Comprimento entre dois metros e dois metros e meio; altura até ao garrote entre um metro e um e um metro e meio.

Peso: Varia entre duzentos e quatrocentos e cinquenta quilos, dependendo da espécie.

Pelagem e Padrão: Pele preta com pelos pretos e brancos organizados em listras individuais. O padrão funciona como camuflagem de movimento contra predadores, repelente natural de insetos picadores e auxiliar na termorregulação corporal.

Dieta: Herbívora pastadora, alimentando-se predominantemente de capim alto, caules e cascas, possuindo um sistema digestivo capaz de processar vegetação de baixa qualidade através de fermentação cecal.

Habitat: Savanas, pradarias, planícies abertas e regiões montanhosas áridas da África Oriental e Austral.

Estatuto IUCN: A espécie Equus quagga está classificada como Quase Ameaçada.


CULTURAL vs. NATURAL


A nossa recente viagem ao Senegal trouxe de volta uma reflexão profunda sobre a fronteira entre o natural e o cultural, mediada pela ação humana. Ao observarmos a fauna africana, torna-se evidente como certas espécies resistem categoricamente à integração utilitária na civilização, enquanto outras são absorvidas por dinâmicas de mercado que testam os limites da sua viabilidade geográfica e económica. O contraste entre a zebra e o avestruz personifica esta tensão permanente.

Zebras na Reserva de Bandia, Senegal.

A zebra representa um dos maiores desafios à ambição humana de moldar a natureza. Ao contrário dos seus parentes equídeos, como o cavalo e o asno, as zebras nunca foram verdadeiramente domesticadas. A sua biologia foi forjada na savana sob a pressão constante de grandes predadores, o que resultou num temperamento agressivo, em coices letais e num instinto de fuga irrefreável. Além disso, sofrem de miopatia de captura, uma resposta fisiológica extrema ao stresse mecânico que causa a falência muscular e cardíaca quando são encurraladas ou amarradas.

Esta barreira natural frustrou engenheiros e pensadores ao longo dos séculos. Durante o século XVIII, em pleno fulgor do Iluminismo pombalense, Portugal viveu uma febre de modernização, industrialização e fomento do comércio. Um dos grandes nomes dessa mentalidade científica foi o naturalista de origem italiana Domingos Vandelli, que desempenhou um papel crucial na reforma da Universidade de Coimbra e na fundação do Jardim Botânico da Ajuda. Imbuído pelo pragmatismo da época, Vandelli sugeriu a aclimatização e domesticação de zebras vindas das colónias para que fossem utilizadas na tração de carruagens urbanas, substituindo ou complementando os cavalos. A proposta, contudo, esbarrou na rebeldia intrínseca do animal e o plano nunca conheceu o sucesso prático, permanecendo como esta curiosa nota de rodapé da utopia técnica setecentista.
O AVESTRUZ, Struthio camelus
Se a zebra barrou o Homem pela biologia, o avestruz cruzou a linha cultural como promessa alimentar e comercial, mas acabou por expor as fragilidades das modas agropecuárias. No final do século XX e início do século XXI, Portugal assistiu à chamada febre do avestruz. O animal era promovido como a nova galinha dos ovos de ouro, oferecendo uma carne vermelha extremamente magra, saudável e exótica, além do aproveitamento integral de peles de luxo, ovos e penas.
Apesar do entusiasmo inicial das associações de criadores, a produção de avestruzes em solo nacional revelou-se um fracasso estrutural a médio prazo. O mercado colapsou porque o negócio sustentava-se na especulação interna, nomeadamente na venda de reprodutores de luxo entre os próprios criadores, e não no consumo final das famílias.
A falta de circuitos de abate licenciados e organizados, os custos elevadíssimos com rações e cercas hiper-resistentes, e a rejeição cultural do consumidor português, que considerava o preço proibitivo e a carne excessivamente rija devido a erros na idade de abate, ditaram o fim da maioria das explorações. O avestruz, que pretendia ser uma revolução pecuária, regressou ao seu estatuto de curiosidade zoológica e atração rural local.
Tanto a insistência iluminista em atrelar zebras a carruagens como a especulação financeira em torno da carne de avestruz demonstram que a passagem do estado natural para o domínio cultural exige mais do que vontade política ou ambição económica. O Homem propõe os seus modelos de exploração, mas a resposta final pertence sempre à biologia do animal e à identidade de consumo do território onde é inserido.

 

FICHA ZOOLÓGICA DO AVESTRUZ

O avestruz-comum é a maior ave viva do planeta, caracterizada pela sua total incapacidade de voar e extrema adaptação à corrida em ambientes áridos.

Classificação Científica
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Aves
Ordem: Struthioniformes
Família: Struthionidae
Género: Struthio

Nome Lineano ou Científico: Struthio camelus (Avestruz-comum).

Nota: A espécie Struthio molybdophanes (Avestruz-somali) é reconhecida de forma independente pela comunidade científica internacional.

Características Biológicas e Morfológicas

Tipo de Animal: Ave ratita com esterno plano, sem quilha para fixação de músculos de voo, bípede e omnívora.

Dimensões: Altura entre dois metros e dois metros e oitenta centímetros nos machos; as fêmeas medem entre um metro e setenta e dois metros.

Peso: Varia entre sessenta e três quilos e cento e quarenta e cinco quilos, sendo capaz de atingir picos de velocidade na corrida de até setenta quilómetros por hora.

Anatomia e Adaptações: Pernas longas e musculosas com apenas dois dedos em cada pé, apresentando uma garra afiada no dedo maior. Olhos grandes que garantem uma visão periférica excecional. Dimorfismo sexual marcado, apresentando machos pretos com pontas das asas brancas e fêmeas com um tom cinzento-acastanhado.

Dieta: Omnívora e oportunista, baseada em plantas, sementes, frutos e pequenos répteis ou insetos. Ingerem pequenas pedras para auxiliar a moagem mecânica dos alimentos no interior da moela.

Sistema Reprodutor e Características dos Ovos

Dinâmica de Ninho: Os avestruzes usam um sistema de harém: várias fêmeas põem os ovos num único ninho comunitário escavado no chão, mas apenas a fêmea alfa e o macho partilham o processo de incubação.

Os Maiores Ovos do Mundo: O ovo de avestruz representa a maior célula individual viva que existe na atualidade, medindo cerca de quinze centímetros de comprimento e treze centímetros de largura.

Peso e Resistência: Cada ovo pesa entre um quilo e um quilo e meio, o equivalente a cerca de vinte e quatro ovos de galinha comuns. A casca é extremamente espessa, brilhante, de cor branco-creme e possui uma resistência mecânica estrutural que lhe permite suportar o peso de um ser humano adulto sem quebrar.

Estatuto de Conservação e Habitat

Habitat: Savanas secas, semi-desertos e planícies áridas da África subsariana, incluindo as zonas de transição do Sahel que englobam o território do Senegal.

Estatuto IUCN: A espécie Struthio camelus está classificada como Pouco Preocupante, embora as suas populações selvagens globais estejam em declínio acentuado devido à caça e perda contínua de habitat.

 

 

 


DIÁRIO DE UMA EXPEDIÇÃO AO SENEGAL

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