CAMINHO DA VIDA
Sei que a vida caminha para a morte
Por trilhos de alegria e sofrimento
Entre lágrimas e risos de momento
No sopro breve onde o ser se corta
São memórias de prazer e de cansaço
De incertezas, certezas e paixão
De sonhos que o tempo faz em pedaços
E renasce em cada coração
Enquanto o caminho não terminar
Canto as cantigas da existência
Celebro o homem e o seu criar
Na arte e na divina ciência
Mas dói-me a guerra e a confusão
A fome e a miséria do mundo
A injustiça travestida de razão
O poder que cala o mais profundo
Vejo a dignidade dos pobres
Erguida contra a vaidade dos ricos
Dão eles a força que cobre
Os abismos mais antigos
Entre a luz e a sombra do dia
Entre o luar e a escuridão
Tudo nasce e morre em harmonia
Num segundo na palma da mão
Como a paz e a guerra coexistem
Como o riso e a dor se entrelaçam
Sei que nem noite nem dia persistem
Na esperança as almas se abraçam
Na dúvida deixem-me crer
Que viver é recomeçar sem fim
Pois sei e não posso esquecer
Que num segundo chego ao fim
SOLTA O CETIM
Despe-te ao cair da noite
Oferece-te ao meu abraço
Como rio que se entrega ao mar
Solta o cetim da pele,
Deixa-o tombar
Como promessa quebrada.
Pisa-me com a leveza das penas
E o peso de quem sabe o que quer
Encosta-me ao teu corpo
Morde, arranha, ama e sonha
Faz do suor a nossa língua comum
Entre suspiros e gritos
Os olhos dizem
O que as bocas calam
Somos deuses e mortais
Sonho e carne
Planeta e incêndio
No instante em que nos perdemos
O universo já não é mais
Que um orbe de fogo
Em núcleos atómicos
No leito sagrado do desejo
TUA PELE DOCE
A tua pele tem o sabor da noite
Suave e quente como promessa
Bebo-te no leito do desejo
Onde o corpo encontra a sua voz
O teu suor desliza em mim
Gota a gota
Como se a terra respirasse o prazer
As tuas mãos são tochas
Acendem caminhos na minha pele
Fazem do silêncio um murmúrio ardente
Entre nós o tempo pára
Há apenas o pulsar do sangue
O rumor da respiração
O encontro de dois mundos
Que se reconhecem no mesmo ritmo
E quando o cansaço chega
Fica no ar o perfume da entrega
Essa doçura do gesto
Que faz do amor um instante de eterna
juventude
NADA E A RAZÃO
Acordo, e em mim desperto
Um eco de quem não sei
Sou sombra num corpo incerto
Sou o que fui ou serei
Passo o dia em pensamentos
Entre o nada e a razão
Caminhando em sentimentos
Que não cabem na mão
À noite, mergulho em neblina
Num mundo que não é meu
Onde a alma se ilumina
E o corpo esquece que é eu
E ao raiar nova alvorada
Volto a ser quem não sei ser
Entre a ilusão sonhada
E o sonho de me entender
JANELA DO SER
Abro a janela do ser
O dia começa em mim
Não é o sol que desperta
É o meu olhar que se acende
Cresci sem mapa nem bússola
Com passos que buscavam
O que não sabiam nomear
A incerteza foi o meu caminho
No silêncio descobri raízes
O corpo mostrou-me limites
A mente perguntas sem fim
O espírito ensinou-me o sopro
A alma revelou-me a sede
Sou nascente e travessia
Rio que procura o mar
Para se encontrar no mundo
Ao tocar o mistério, percebo
Não sou fragmentos dispersos
Mas unidade em construção
Do ser frágil e infinito
Na filosofia humana de existir
RIO DA MEMÓRIA
Temos sempre a tentação
Em reviver o que foi bom
Como quem procura o reflexo do sol
Num espelho de água antiga e pura
O tempo é maestro invisível
Nunca repete a mesma canção
Troca o tom e apaga o riso
Reinventa o abismo interior
Em diferenças que encantam
Outras que ferem devagar
Lembranças que o vento
Não consegue apagar
Tudo corre no rio da memória
Onde dorme o que o coração guardou
E o que regressa vem coberto de fantasia
Fingindo ser o que já não é
Na ânsia de repetir o irrepetível
Mergulhamos fundo
O passado é um lago sem retorno
Onde até o amor perde o fôlego
Nem o amor nem as pessoas
Flutuam nas correntes que se foram
O tempo leva tudo
Até o ouro das promessas
Até o brilho do que foi eterno
Por um instante
NAS VEIAS DA POESIA
Era uma tarde como tantas tardes
Em que a poesia gritou liberdade
Rasgou as veias, inundou o ar
E o silêncio vestiu-se de palavras
Era homem
Era mulher
Tinha nomes e rostos
Donzília, Guilhermina, cento e quarenta
Fernanda, Manuel, Eduardo, Mário e João
Vestida de música, com notas soltas
Dançou no palco dos sentimentos
Respirava vida a cada instante
Vida sentida, plena, inteira
Carregada de emoções mergulhadas
no interior mais íntimo da alma
Onde o tempo espera o momento certo
para libertar o prazer de ler
Luz e sombra confundem-se
Nos gestos e expressões
Ao acender o lume da essência
As palavras, tornam-se asas
Era uma tarde como as outras
O sangue corria diferente
Nas veias pulsava poesia
Do corpo e alma
E no meu espírito do sentir
É a Poesia que respira por mim
Por nós, em nós, por vós sem fim
É corpo e alma da poesia
Com cânticos poéticos e sentimento
VOZ DA ESSÊNCIA
Voz da essência invisível
Adormeço e talvez desperte
Ou apenas atravesse o véu
De um tempo que não passa
Em mim o rumor de outras vidas
Memórias que não recordo
Que me habitam no meu silêncio
Luz de tudo o que sou
Que se move entre o real e o que imagino
Como um rio que procura o mar
Sem saber se o encontrará em si
Ou se fundem na paixão
As paixões são sinais
Fagulhas do ser a reconhecer
Ecos do que fomos
No instante em que ainda seremos
O sonho é a linguagem do oculto
A voz que regressa da essência
Chamando-me ao centro
Onde tudo começa outra vez
EM SILÊNCIO GERMINA
As ideias tremem
O sangue pulsa em pensamento vivo
Há instantes que regressam
Como ecos na pele
O corpo repousa no vazio
Desse repouso cresce
Ergue-se
Descobre-se no toque dos sentimentos
Quando o olhar se encontra
Tudo vibra
O tempo hesita
Como nuvens que passam sem destino
Há um silêncio que fala
Uma emoção que se move sem nome
No mistério fértil do ser
A harmonia dorme e desperta
Canta e chora em mim
E em silêncio germina
Qualquer coisa que floresce
Sem pedir licença
TUDO VIBRA
No íntimo do meu corpo
Habita o som do universo
As veias tremem
Como fios da alma que recordam o princípio
O sangue percorre o labirinto do ser
Em busca da sua própria origem.
O corpo, templo inquieto
Respira dentro do mistério.
Cada célula é um instante de cosmos
Cada batida, uma pergunta sem resposta,
No silêncio que molda o que existe
No vazio fértil, o sentir é semente
O tempo dissolve-se na carne
O gesto torna-se revelação
O olhar atravessa o mundo
Como um espelho líquido
Refletindo o invisível
Que habita no visível
Os cabelos, em leveza
São o vento a pensar
A pele fronteira
Entre dois infinitos.
Tudo vibra
A emoção, a sombra,
E o som que não se ouve
Quando a alma se abre
Como flor entre mundos
A matéria recorda que é luz
Na respiração do meu ser
Manuel Domingos Sengo (12/04/1954). Natural de Urros, concelho de Torre de Moncorvo – Residente em Lamego – Portugal. Licenciado – Aposentado como Técnico Superior na Função Pública. Puplicações de Poemas no Jornal Voz de Lamego , 2023,2024. Participação nas obras literárias: Lamego 2023 Era Uma Vez. V Coletânea de Poesia Lusófona em Paris 2023/25, InVersus Veritas XVII/XVIII/XLX, Antologias CAPOSC, 2023/24 /25. III Coletânea Poética Terras de Gândara 2024, Publicações como autor na Plataforma Triplov: Demandas 2024, Caminhante 2025 e Contraste 2025. InComunidade, Contraste, Luz e Sombra, 2025. Jornadas de Poesia 2025 Coletânea Poética. TODO O SAL DO MAR 2025. Boletim Da Beira Douro – Ano 1 Número 1-2025. Autor da obra “Caminhar nos Silêncios”.

