Cartas de Amor de Susette Gontard

 

 

 

 

 

 

 

 

GLEDSON SOUSA


O Amor Louco e o Acaso Objetivo nas Cartas de Amor de Susette Gontard


Em boa hora a editora Assírio e Alvim publicou as cartas de amor de Susette Gontard e Friedrich Hölderlin (Sossega Este Coração – Cartas de Amor. Susette Gontard e Friedrich Hölderlin. Assírio e Alvim: Porto, 2025); um dos casais mais famosos do romantismo alemão, assim como Novalis e Sophie von Kühn; a correspondência não é volumosa: estamos falando de 17 cartas de Susette Gontard para Hölderlin e três cartas e um bilhete de Hölderlin para Susette. Fatores históricos explicam a escassa correspondência de Hölderlin: a família de Susette teria dado cabo das cartas  dele para ela, enquanto as cartas dela para ele foram encontradas no espólio do poeta. Compõe também o volume uma introdução e um posfácio que nos explicam o contexto dos acontecimentos, mais duas cartas: uma do filho mais velho de Susette, de quem Hölderlin foi preceptor, endereçada a Hölerdlin, logo após esse precipitadamente ter que deixar a casa dos Gontard, e também uma carta de Isaac Von Sinclair, amigo íntimo de Hölderlin.

Para quem não lembra do nome Susette Gontard ou não a conhece, ela é a Diótima que aparece nos escritos de Hölderlin: foi sua musa e o grande amor da sua vida, desse que foi um dos maiores poetas da Alemanha, valorizado principalmente no século XX, e que teve como leitores nomes como Nietzsche, Paul Celan e Heidegger.

Sendo assim, o conjunto da correspondência apresentada nos traz muito mais um retrato de Susette Gontard que de Hölderlin, haja vista a proporção das cartas de um e de outro.

Mas, quem era Susette Gontard? A partir das cartas o que podemos perceber é que era uma mulher sensível e inteligentíssima, a par do próprio Hölderlin, e que, por arranjos familiares, se casara com um banqueiro, Jacobus Gontard, um casamento arranjado como era comum em todas as famílias burguesas. Por mediação dos amigos Isaac von Sinclair e Johann Gottfried Ebel, Hölderlin vai trabalhar na casa dos Gontard como preceptor do filho mais velho do casal, e o contato cotidiano entre o professor-poeta e a mãe do aluno fez com que rapidamente surgisse um amor arrebatador.

Arrebatador é a palavra correta, mas podemos também chamá-lo de amor louco, expressão cunhada por André Breton e que dá nome a um de seus mais belos livros: o amor louco é o amor que toma posse dos amantes, e os joga numa verdadeira vertigem, sem brecha a nenhum vacilo ou hesitação quanto ao próprio amor.

Os sentimentos expressados por Susette Gontard nas cartas são dessa natureza; por mais que ela ainda permaneça casada, ela sente sua vida (de casada) como algo falso, sua vida e seu amor verdadeiro é ao lado de Hölderlin, e o peso da separação deixa-a ainda mais desiludida com o entorno familiar burguês.

No Arcano 17, André Breton faz um apanhado dos livros que, na sua visão, expressavam o que era o amor autêntico entre duas almas complementares: “(…) ele se caracteriza pela propriedade seguinte: entre suas partes componentes existe uma aderência física e mental à prova de tudo. Uma concepção como essa, embora possa parecer ainda ousada, preside mais ou menos explicitamente às Cartas de Heloísa, ao teatro de Shakespeare, às Cartas da Religiosa Portuguesa, a toda a obra de Novalis, ilumina o belo livro de Thomas Hardy: Judas, O Obscuro.”[1]

Diria que Breton falha aqui ao não incluir a correspondência amorosa de Susette Gontard entre um dos exmplos, se não tivesse a quase certeza de que ele não conheceu essas cartas, pois além do seu aspecto arrebatador, revelando uma concepção do amor muito próxima à própria visão bretoniana, numa das cartas, aquela escrita a 12 de março de 1799, ela expressa basicamente aquilo que seria a noção surrealista de acaso objetivo: “Não me sai da cabeça a palavra ‘acaso’ que usei e não me agrada, soa a pequenez e a frieza, no entanto não consigo encontrar outra. Podemos também dizer que o secreto encadeamento das coisas constitui para nós algo que chamamos de acaso e que, no entanto, é necessário. Por causa da nossa miopia, de nada, a esse respeito, podemos ter um conhecimento antecipado e admiramo-nos quando as coisas acontecem de modo diferente do que tínhamos pensado. As leis da natureza, porém, seguem sempre seu caminho, são para nós insondáveis e, por isso mesmo, consoladoras, pois ainda nos pode acontecer aquilo que nem sequer sonhávamos e apenas distanciadamente esperávamos.”[2]

Que ela pense nesse “acaso necessário” como elemento para explicar o encontro amoroso entre os dois mostra o quão aguçada era a percepção dela e quão rigoroso era também seu pensar, basta lembrar que Hegel, que pertencia ao círculo das amizades de ambos (ela e Hölderlin), não havia publicado ainda nem a Fenomenologia do Espirito nem a Ciência da Lógica (onde aparecerá a expressão Acaso Objetivo), e faltaria muito tempo para que Engels elaborasse sua interpretação do acaso, sendo que Hegel e Engels são geralmente apontados como sendo as fontes de onde o surrealismo hauriu a noção de acaso objetivo.

Claro que essa discussão, sobre acaso e necessidade, de certa forma estava presente no espírito da época, mas a expressão cunhada por ela precede a expressão hegeliana(quanto à publicação), e na carta ela não faz nenhuma menção a qualquer pensador, ainda que Hegel seja citado várias vezes ao longo da correspondência.

Retomando a questão do “acaso necessário” citada na carta de 12 de março de 1799, há que se destacar que a ideia elaborada por Susette Gontard é quase, ipsis literis, idêntica aquela que será usada por Breton; no ensaio Magia, Poesia e Realidade: O Acaso Objetivo em André Breton, Cláudio Willer tenta situar as origens da expressão ‘acaso objetivo’ na obra de Breton, bem como rastrear suas reais fontes:

“A carta que havia recebido de George Sanson podia ser um comentário à discussão da noite anterior sobre o misticismo no Segundo Manifesto do Surrealismo e uma religiosidade disfarçada no âmbito do surrealismo:

“repito que entre nós essa discussão havia acontecido na véspera, à noite. Vê-se como os fatos dessa ordem podiam encadear-se em meu espírito. E é isso que é tachado de misticismo em mim. A relação causal, vêm me dizer, não poderia se estabelecer nesse sentido. Não há nenhuma relação sensível entre aquela carta que lhe chega da Suíça e tal preocupação que poderia ser a sua nas vizinhanças do momento em que essa carta foi escrita. Mas isso não é, pergunto, absolutizar de maneira lamentável a noção de causalidade? Não é deixar passar a palavra de Engels: “A causalidade não deve ser compreendida senão em ligação com a categoria do acaso objetivo, forma de manifestação da necessidade?”[3]

Na sequência, Willer mostra como Marquerite Bonet contesta que tal expressão haja aparecido na obra de Engels, de qualquer forma, na frase atribuída a Engels o acaso é uma manifestação da necessidade, justamente a mesma ideia expressada por Susette Gontard na carta de 12 de março de 1799.

Essa única menção já seria suficiente para incluí-la numa daquelas listas tão ao gosto bretoniano, de escritores pré-surrealistas, mas é na poética amorosa das cartas que identificamo-la como uma adepta do amor total, absoluto, tão estimado pelo próprio Breton: