José Ribeiro Marto

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  • O salto em altura

        JOSÉ RIBEIRO MARTO Que me lembre nunca desceu as escadas do prédio, pulou-as sempre três a três, quatro a quatro. Tão-pouco tenho ideia de quando começou a treinar descidas no corrimão preto e liso, do quarto andar, até cá baixo ao rés-do-chão. Talvez se tenha demorado nesta aprendizagem, mas só dei conta quando […]

  • Um adeus de Natal

        JOSÉ RIBEIRO MARTO Há um desacerto de vozes fora da estação ferroviária, autocarros furam nevoeiro, sacodem passagem. O som de velocidade vai-se extinguindo. Um homem, já velho, irrompe a reclamar: por que razão aquela porta está fechada? Aquela porta deveria estar aberta! Com a mão direita puxa, a custo, uma mala que rola […]

  • O andar nacional

                JOSÉ RIBEIRO MARTO Crónica  O Andar Nacional Grandes descobridores são os portugueses! É a um português que se deve a descoberta do movimento, cuja definição reúne dedo indicador apontado, fala e música: ´toca a andar daqui pra fora`. Não sei quem foi esse português, mas posso admitir que a […]

  • Cerejas

                JOSÉ RIBEIRO MARTO É comum ouvir-se que junho é o mês das cerejas e dos jacarandás, ou que as palavras são como as cerejas. Algumas serão, mas nem todas. Os jacarandás deixam nalgumas ruas um breve e belo espetáculo visual, as flores pingam ao segundo, criam a ilusão poética […]

  • Missiva

        Exmos. Se soubesse que iríamos coincidir na esplanada esta manhã, eu teria tomado as cautelas necessárias. Foi muito desagradável ouvir aquele trecho de conversa matinal sobre o opróbrio da civilização, a superfluidade dos costumes, a iniquidade da justiça. Por questões ecológicas, escuso-me a comentar aqueles dois segundos de presença contígua à vossa mesa. […]

  • Paisagens

                JOSÉ RIBEIRO MARTO Ninguém Ninguém te espera à franquia do muro Onde as laranjas dão o inverno ao frio E só os pardais recolhidos nas asas Deixam passar o sol pelos dias   Ninguém te espera à franquia do muro Onde a pirâmide de betão é a usura As […]

  • Uma cara de fado para toda a gente

        JOSÉ RIBEIRO MARTO A D. Irina cantava fados a gente conhecida e particularmente aos vizinhos. A transeuntes não sei. A mim, cantou-me duas ou três vezes, quando me encontrava a caminho de casa, vinha ela do supermercado. Pedia – me para a ajudar a carregar dois sacos que não pesavam nada e a […]

  • Sem cabimento

                JOSÉ RIBEIRO MARTO Eu ia a passar sem qualquer pensamento sobre o que quer que fosse. Vinha do meu passeio de fim de tarde, que nunca tem destino muito certo. Na Almirante Barroso, já quase sem trânsito e gente às oito horas da noite, vejo uma mulher alta, cabelo […]

  • Ao sol o gato

                JOSÉ MARTO José Ribeiro Marto (1960). É professor de português – língua estrangeira. Estudou Línguas, Literaturas e Culturas e é pós-graduado em Escrita Literária e em Estudos Portugueses Multidisciplinares. Escreve poesia, contos e crónicas. Paisagem   No perto os pássaros a bicicleta um comboio As horas no longe e […]