Na cozinha, entre o azulejo e o micro-ondas, ela vigia o império das migalhas. Não é uma barata qualquer, que morre com um golpe de chinelo de pano. . Esta resiste à bomba atómica, ao Baygon e à fatura da eletricidade. . Tem seis pernas e duas antenas de cobre. Debaixo das asas de queratina […]
Maria Azenha
Maria Azenha (Portugal). Poeta, performer.
Found 39 items
-
Num domingo à tarde
-
O poema mais secreto da Lua
Poema dedicado a todos os Anjos caídos nas ruas Deitado no passeio da rua, a ler um livro entre as mãos, parece um anjo caído que veio a este mundo. . Perguntei-lhe o nome. Ele sorriu. . Vi então os nossos corações, feitos de mil bagos vermelhos, do silêncio mais fecundo. . […]
-
No Avião do Juízo Final
MARIA AZENHA NO AVIÃO DO JUIZO FINAL Morro muito. Morro infinitamente. Morro para perguntar pelos nomes do meu pai e dos meus irmãos. Tenho a boca cheia de fogo, fogo que arde a partir do crânio das montanhas. O meu coração é um […]
-
Prémio Glória de Sant’Anna para Maria Azenha
Prezados /as Amigos/as, É com grande prazer que o/a convidamos a estar presente na cerimónia de entrega do PRÉMIO LITERÁRIO GLÓRIA DE SANT’ANNA- Prémio Poesia 2026, com a obra vencedora A CASA DA MEMÓRIA de Maria Azenha (Editora Urutau). Será um momento de celebração da literatura, da criatividade e da cultura. A cerimónia realizar-se-á no dia 23 […]
-
Não me venham com o sermão da juventude
Não me venham com o sermão da juventude, esse presépio de carne embalado em celofane. O tempo lambe-me o rosto — e eu rio, porque há incêndios que só a idade acende. Chamam-me velha — e bendigo o insulto, que é flor nascida do medo dos meninos grandes. Querem-me dócil, apagada, dobrada, mas o […]
-
O palhaço dourado
o senhor trump tem cabelo cor de canário e uma boca que nunca se cansa de fazer barulho diz que vai construir um muro como quem monta um lego e acredita nisso como as crianças acreditam que o pai natal lê todas as cartas fala alto porque o silêncio o assusta fala […]
-
Mona Lisa, ao fim da tarde
Nos confins da tarde, ela acende o fogo das palavras e lança-as como fantasmas sobre a pele do mundo. Cada verso é um líquido estranho que escorre pelas veias da realidade, fazendo o vulgar tremer de espanto. As cidades curvam-se sob os seus olhos, e até o vento hesita antes de passar. […]
-
Paisagem comemorativa
PAISAGEM COMEMORATIVA COM MORTOS E DRONES Entro na guerra com a mesma naturalidade com que entro no supermercado à procura da promoção de mortos. Passo na caixa automática, sem piscar os olhos — e não é metáfora. Trago dez pelo preço de um, alguns drones importados, sem prazo […]
-
Escândalo: mães e bebés reborn
MARIA AZENHA Todos já devem ter visto, são bebés, são bonecas que imitam um bebé recém-nascido de forma hiper-realista. Se se olha de relance, dirão que é um bebé recém-nascido, são muito bem feitos, artistas que alcançaram um alto grau de tecnologia para fazer isso e um […]
-
Três poemas – três armadilhas
MARIA AZENHA VOLTEI À CIDADE Voltei à cidade com sapatos de sombras (n.º 36). A infância (a minha) ficou esquecida atrás de uma porta. Fechada. As ruas têm espelhos (em saldos!) e gritam os nomes todos ao contrário. Uma minhoca (de óculos, talvez) vai […]