Cerejas

 

 

 

 

 

 

JOSÉ RIBEIRO MARTO


É comum ouvir-se que junho é o mês das cerejas e dos jacarandás, ou que as palavras são como as cerejas. Algumas serão, mas nem todas. Os jacarandás deixam nalgumas ruas um breve e belo espetáculo visual, as flores pingam ao segundo, criam a ilusão poética de uma chuva que passou, já as cerejas de diversa espécie e proveniência vão chegando mais demoradas. Falemos só das cerejas.

Praticamente desde maio que as vejo nos supermercados. Pequenas embalagens de marketing mostram-nas muito luzidias a espreitar no plástico, ou são exibidas inteiramente em caixas de madeira fina adequadas a delicadezas. Lembram doenças, satisfação de desejos de fim de vida, ou pressa de as festejar na boca. Não trazem réstia de sol que as amadureceu, humor de tempo, frio ou morno, vento deixado na sua cor natural. Não se imagina a estria no tronco da cerejeira, o som da água que lhes correu nas raízes, o vento na folhagem, o brilho das flores, o voo dos pássaros que as sobrevoou e as descobriu. Não se ouve gente na colheita, não convocam a abelha zumbil, o inseto natural. São artificiais. A sua representação de cereja não me arregala o olho, não me aguça o cheiro, não me cria água na boca. São cerejas muito estudadas. São objetos. Trazem nelas a mão postiça de elaboração e composição, o jogo com o artificial, a simulação de cuidado com o ritmo dos ventos, a proteção de águas, a floração liberta de bicho miúdo. Até os efeitos das caixas onde são colocadas as representa mais falsas, menos fruto. Não ouço nada delas. Podem até trazer pedúnculo como as demais, que as dota de delicadeza e manejo subtil nalgumas mãos, mas são sempre falsas. Gestos à procura de encenação. Não compro, sei que não me saberão a nada! Não me trazem notícias de junho, não me cantam aos ouvidos, como as que compro cantadas na venda ambulante da cidade. Prefiro comprá-las  muito lançadas de peso para as instáveis balanças de cozinha, o gesto de pôr no saco mais um punhado, com a garantia de que houve um prémio que não houve.

Junho vai trazendo uma quantidade infinita de cerejas, mas não gosto de todas as que vão aparecendo. Não gosto das amarelas fingidas, as meio-encarnadas parecem-me ginjas. Não percebo quem afirma que qualquer coisa boa lhe soube que nem ginjas. Gosto de cerejas muito escuras, minúsculas ou graúdas, quase pretas, rijas, carnudas, comidas duas as duas, que se demoram na boca, perfeitas para o dente. Cerejas que deixam marca no guardanapo, honro com brio a sua existência.

As cerejeiras da rua José Estevão florescem em março, depois carregam-se rapidamente de folhas verdes, tornam invisíveis as  belas  e dispersas  cerejas.  Festejo-as com o olhar.  São cerejeiras de jardim urbano, quis o acaso ou ciência que ali fossem plantadas, dando nota poética invisível à rua num aceno de primavera.  Hoje foi um melro que soltou asas de um galho, e se foi em canto de protesto pelo sol, contra a minha presença. Não tive como evitar o seu repasto, interrompi a sua sobrevivência, o seu lauto manjar.


 José Ribeiro Marto