Por JORGE VICENTE
Jorge Vicente nasceu em 1974, em Lisboa, e desde cedo se interessou por poesia. Com Mestrado em Ciências Documentais, tem poemas publicados em diversas antologias literárias e revistas, participando, igualmente, nas listas de discussão Encontro de Escritas, Amante das Leituras e CantOrfeu. Faz parte da direcção editorial da revista online Incomunidade. Tem seis livros publicados, sendo o último Os ventos e as marchas (Urutau: 2025).
1.
ávida de vazio,
a pele é um ponto de verdade
na transparência das águas.
2.
tudo respira
no inundamento da linguagem
e dos fluidos menstruais,
saber atravessar a fronteira
é desenhar na cabeceira
a fome e a leveza
líquida das mãos.
(in Land art: inédito)
3.
não existe dualidade entre um pássaro
e uma tempestade
se abres a linguagem ao voo e ao relâmpago,
tens a leveza do mundo nos teus olhos de
trovão.
4.
caminho entre exorcismos de linguagem,
exercícios espirituais e poéticos,
um corpo dobrado na sombra mais alta,
caminho e não preciso da força motriz do pensamento,
apenas água pelos joelhos e um rosto que
me interpela,
sei que não tem a luminosidade de uma fábula,
mas sabe saltar sobre as rochas com uma
leveza quase infantil.
5.
que o tempo responda de plenos vulcões às palavras:
não consigo dizer noite nem coragem nem ventos
nem marchas nem mar atravessado
por corpos reluzentes
trago o infinito dentro da mais solene esperança
mas o tempo ainda é incerto
apenas existe quando Cloto assim o permitir
o verde o azul o amor
o longo fio que tece e que treme e que é
vizinho da longa descida,
essas terras baixas que trago nos pássaros
e nas escamas.
(in Os ventos e as marchas: Urutau, 2025)
6.
movimenta-se como vento virgem
a frágil luminosidade da noite:
tudo transita e tudo se arrasta
na coroa de uma trovoada branca,
trovoada seca e crua
carne agreste de gastronomia de verão
lenta rede de arrasto e de saliva
marcha e caminho e pegada & poema
sem lei e sem abismo,
quero o riso desta marcha complexa e animal
humana transcendente maternal
caminho como se fosse a mãe e o pai
de todas as flores,
abandono e nasço na mesma medida,
medida de deus e dos santos
e do meu corpo em transe arrastado pelo
silêncio,
silêncio e vida e marcha e amor
e círculos de cultura nascendo e baptizando
o desejo e a esperança,
a trágica bela humanidade de nos vermos
nessa ânsia e nessa alegre certeza
de que a palavra nasce com toda a leveza
dos mundos.
7.
não quero constelações caminhos paisagens estreitas e solares
palavras que se alimentem com ímpeto e ousadia
palavras avalanches vertigens vulcânicas ou lâminas estelares
não quero subir à veia mais ausente
à mais clara e longa passagem entre mundos
quero descer com toda a profundidade que possa
à mais agreste e doce das sílabas terrestres.
8.
um rezo um levantamento poético
águas resgatadas nas escamas baixas
de corpo amoroso que escreve
signos lâminas centelhas esparsas
espalhadas em gravidez e íntima combustão
com o fogo
tudo é caminho na terra-serpente
que vive.
(in Os ventos e as marchas: Urutau, 2025)


