NUNO GONÇALVES RODRIGUES
CONQUISTA DE CEUTA: 21 AGOSTO 1415


É durante o reinado de D. João I (1357-1433) – o rei responsável por determinar em 1422 que o nosso calendário fosse feito a partir de então pela era de Cristo – que podemos afirmar que começa a nossa Expansão Marítima com a conquista de Ceuta em 1415.

No início do século XV Portugal era um país pobre em que dois terços do seu solo eram demasiados pedregosos ou íngremes para serem cultivados mas tinha uma situação geográfica privilegiada para ser pioneiro na expansão do Atlântico.

Mas o que levou de facto Portugal a conquistar Ceuta ?

Segundo Gomes Eanes de Zurara (1410–1474) cronista mor do reino e que é a fonte a que os historiadores contemporâneos recorrem sobre este assunto, Ceuta foi a alternativa para armar cavaleiros os filhos de D. João I que teria como primeira opção oferecer os seus préstimos ao rei de Castela D. João II (1405-1454) para criar uma aliança contra o reino de Granada, mas o rei castelhano recusou a oferta porque nessa época existia uma trégua entre Castela e Granada.

  1. João I considerou organizar grandes torneios em Lisboa para armar seus filhos mas os Infantes queriam ser cavaleiros por um ato guerreiro e recusaram esta opção.

É então que o rei se vira para Ceuta influenciado pelo seu Vedor da Fazenda, João Afonso de Alenquer, que era o representante dos burgueses mais abastados de Lisboa e cujo argumentos era que a conquista de Ceuta seria uma enorme honra e um grande serviço prestado a Deus e por ser um território difícil de tomar constituiria a situação ideal para armar seus filhos cavaleiros. Mas o argumento que terá convencido D. João I é que Ceuta daria estabilidade ao reino, ou seja, os nobres teriam algo com que se “entreter” deixando assim de ser uma preocupação para o rei, dado que, com esta deliberação pacificaria a nobreza.

Segundo Vitorino Magalhães Godinho (1) os motivos que levaram os Portugueses a Ceuta foram fatores religiosos e económicos, uma vez que, este território tinha ouro, açúcar, cereais – o que nos dava imenso jeito visto sermos um país com uma agricultura muito pobre – e era a porta que facilitava a entrada e a coexistência entre os dois mundos. Era também, uma excelente base de apoio não só para as tropas, como também para os pescadores e corsários portugueses.

Para o historiador e professor universitário Torquato Sousa Tavares (1903-1987) Ceuta foi conquistada com o intuito de combater a pirataria marroquina nas nossas costas.

Já António Borges Coelho (2) é da opinião de que Ceuta era um ponto estratégico e baseia a sua tese na Carta do Pão de 1414 (3). Escreve que os portugueses faziam saltos que era como se designavam as pilhagens. Ceuta era um mercado importante no comércio de escravos e diz-nos que conquistamos a fortaleza, mas não a cidade, e que o grupo social de mercadores foi o primeiro motor da conquista, mas quem enriqueceu foram os nobres.

Para finalizar o professor Luís Adão da Fonseca (1945-2026) considerou que se escolheu Ceuta como meio para controlar o estreito de Gibraltar.

Qualquer que tenha sido o motivo, a expedição partiu de Belém a 25 de Julho de 1415, e foi encarada como uma Santa Cruzada porque tinha o aval do Papa Gregório XII (1326-1417).

Foram para Lagos e só aí o rei autorizou o seu confessor, Frei João de Xira ( ? – c.1425 ou 1427) – também conhecido como Mestre – a revelar na praia o seu destino.

Aportaram em Faro e partiram a 7 de Agosto. Quando estavam em Algeciras (atual cidade espanhola), os mouros de Granada foram ter com os Portugueses oferecendo-lhes vários presentes com o intuito de procurarem saber se os iriam atacar, o que não era o caso.

Em mar aberto enfrentaram uma tempestade que divide a armada sendo que os maiores navios são levados até Málaga e os mais pequenos, as Galés, ficam sozinhas perante os tiros dos defensores de Ceuta.

Depois de novamente reunida a armada, uma nova tempestade divide as embarcações para Málaga e Algeciras.

  1. João I põe a hipótese de tomar Gibraltar mas como era uma Cruzada, tentam de novo Ceuta.

Os Infantes D. Pedro (1392 – 1449) e D. João (1400 – 1442) acercam-se em frente à cidade e o Infante D. Henrique (1394 – 1460) decide tomar o castelo/fortaleza que é efetuada com sucesso a 21 de Agosto de 1415 e com esta conquista os Infantes são armados cavaleiros.

  1. João I decide ficar com Ceuta dado que como se gastou tanto dinheiro na sua conquista, não faria sentido abandoná-la, isto apesar das constantes tentativas mouras para a reconquistar. É nomeado como primeiro governador D. Pedro de Menezes (c. 1370 – 1437) o Alferes-mor do reino.

O nosso rei quando chega a Lisboa propõe a D. João II (1405 – 1454) que combatessem juntos os mouros de Granada mas o rei castelhano recusou, temendo a importância e a influência dos portugueses no norte de África e junto do Papa.

Para poder manter esta guerra santa, o Papa Gregório XII, descarta o pagamento do dízimo às Ordens Militares de Avis, Santiago, entre outras, e para aumentar os rendimentos, havia sempre navios de corsários portugueses prontos a atacar todos os navios muçulmanos que se aproximassem de Ceuta que se tornou Diocese em 1417.

O rei de Portugal iria continuar a cruzada pelo norte de África, até porque, uma Bula de 4 de Abril de 1418, que mais não era do que expressar a vontade do Papa Martinho V (1369 – 1431) de que os rendimentos das Ordens fossem usadas na luta contra os infiéis em África.

Outra Bula Papal se seguiria, dando a Portugal, durante sete anos e depois desse período mais dez anos de exclusivo para explorar e evangelizar os territórios conquistados.

Isto fez com que os Portugueses tivessem autorização para matar e pilhar durante a sua vida terrestre porque sabiam que na hora da morte estariam perdoados e alcançariam o céu.

A ocupação militar foi efetiva, mas a social não, o que quer dizer que não houve emigração para Ceuta.

O Infante D. Henrique passa a ir constantemente a Ceuta devido à instabilidade social que por lá se vivia.

Segundo Zurara, numa das viagens atrás dos mouros e em busca da Guiné, os portugueses são desviados da rota e descobrem acidentalmente Porto Santo em 1419 começando assim a nossa epopeia das descobertas.

 

n.b: Portugal teve o domínio de Ceuta até 1580 ano em que Filipe II de Espanha e I de Portugal (1527 – 1598) unifica os dois reinos. Após a Restauração da Independência em 1640 a cidade africana decidiu continuar sob o domínio espanhol o que seria oficialmente ratificado no Tratado de Lisboa em 1668 ano em que efetivamente a Espanha reconhece a nossa independência.

  1. Lisboa, 9 Junho 1918- Lisboa, 26 Abril 2011. Foi um professor universitário, historiador e cientista social português, considerado um dos mais notáveis académicos portugueses, sendo um dos nomes da corrente historiográfica que se começou a desenvolver em torno da “Revue des Annales” – Annales d’histoire économique et sociale (em português, Anais de História Econômica e Social), fomentada pelos historiadores franceses Marc Bloch e Lucien Febvre, então da Universidade de Estrasburgo. in Wikipedia, 01 Janeiro 2015
  1. Murça, 1928 .É um historiador, poeta, e teatrólogo português. Catedrático jubilado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tem diversos títulos publicados sobre história medieval e começos da Idade Moderna. Em que pese o valor de seus estudos pioneiros sobre a inquisição portuguesa, a sua principal obra será, porventura, o Portugal na Espanha Árabe, colectânea de textos árabes sobre a ocupação muçulmana daquilo que viria a ser o território de Portugal. in Wikipedia, 01 Janeiro 2015
  1. A “Carta do Pão” de 1414 (frequentemente associada à expressão “Carta do Pão e do Vinho”) refere-se a um importante diploma régio emitido por D. João I em 31 de janeiro de 1414. O documento ordenava ao Condestável do Reino, D. Nuno Álvares Pereira, a requisição e controlo de mantimentos essenciais para o abastecimento da armada que conquistaria Ceuta. in Wikipedia, 01 Janeiro 2015

 

 


 

 

Nuno Gonçalves Rodrigues (2026)