ALEXANDRE HONRADO
CULTURA E ENTOMOFOBIA
A DESPREZÍVEL CATEGORIA DOS ANIMAIS NÃO SACRIFICÁVEIS
Em torno de Franz Kafka, Paula Rego (e talvez Santo Agostinho)
A vida é como o mundo, um aglutinado monturo de acasos temporais com uma delimitação geográfica sujeita a mobilidades ora retidas e de fronteiras inquebráveis ora inesperadas e sem limite, como aparentemente o são certos desertos de areia, hipertermia e alucinações desorientadoras e falseadas. Nesta perspetiva, trata-se de uma luta, travada entre o espaço e a negação do tempo, esta a que damos tanta importância.
A uma fase de desconstrução histórica que íamos descobrindo nas últimas centenas de anos, oferece-se agora o momento presente, bárbaro e caótico, da insana destruição.
Dos homens poderosos que exercem o (seu) poder em nome de uma glória narcísica e extremista sobre a enorme massa dos pequenos seres humanos obedientes e ofuscados, cada minúscula página que viramos na nossa contemporaneidade é um grito aflitivo de protagonistas provisórios que se esvai num eco perdido até ao último reduto de um silêncio expectável.
Morremos todos, só que agora cada vez mais depressa.
Os dramas vividos são registados em diálogo de estranhamento e indizível inquietação e, paradoxalmente, de um inquieto conformismo.
Franza Kafka – e Santo Agostinho, por exemplo – acalentavam o porvir como única esperança. Paula Rego cerrava na cave dos seus pensamentos atormentados o violentíssimo espanto da crudelíssima relação do humano com o mundo que condenou à degradação e à agonia – mas esses pesadelos nunca a impediram de evoluir e de soltar os seus monstros para que fossem, ainda, os nossos monstros.
Em processos de descrições globais e aproximativos, que podem considerar-se como metáforas ou simplesmente efeitos de sobrevivência, a destruição e os delírios estão presentes nas obras de Franz Kafka e de Paula Rego (e em última análise nas conceções de Santo Agostino ao revelar as peripécias de uma humanidade cultivando angústias, perante a sua condição individual, a do ser-lançado-ao-mundo, animal nascido para a breve caminhada num percurso árduo, impossível talvez, entre a felicidade e a eternidade).
Santo Agostinho temia o Deus que passava e não voltava (temia a possibilidade de perder a graça divina). O homem criou e depois tentou matar Deus – e ao ver-se incapaz de bani-lo procurou ainda substituir o Criador que havia criado, isto é, substituí-lo e ser, ele próprio e em Seu lugar, um deus entre deuses, ou melhor, um pequeno fantoche à procura de palco no tempo do agora (esse tempo duro e louco que Walter Benjamin tão bem identificava (e ao qual chamava Jetztzeit).
No jogo das decadências, a evolução não apresenta grandes mudanças: Santo Agostinho, em De Civitate Dei (A Cidade de Deus) descreve o mundo, dividido entre o dos homens (o mundo terreno) e o dos céus (o mundo espiritual). Franz Kafka proporcionou a visão da condição humana como um mundo profano, onde a realidade interna era a da cidade e das suas prisões – fossem um castelo, uma colónia penal, o quarto de um vendedor ambulante; Paula Rego construiu mensagens de não formatação moral. É a vida entre as margens das angústias. A própria angústia. E simbolicamente, reproduzida por uma entomofobia perturbadora: a presença dos insetos nas suas obras singulares. “São bichos que parecem pessoas e pessoas que parecem bichos”, diria Paula Rego. Franz Kafka ripostaria: um inseto como alegoria da alienação.
É verdade: Agostinho defendia que tudo o que Deus criou tem um propósito e uma beleza intrínseca, incluindo os insetos.
Religiosamente, acrescente-se: Ungeziefer (inseto), tem o sentido original pagão de “animal inadequado ou que não se presta ao sacrifício”.

