O aspeto mais evidente da poesia de Domingos da Mota, haja em vista o seu último livro, Tempestade seca e outros poemas, é a destreza no manejo das formas e mestria no conhecimento dos recursos da Poética. Ele tanto manuseia com perícia o soneto como o haiku ou quase, a quadra como a não registada lista de “Contra a depressão”. Lendo-o, temos saudades de um bom soneto, bem rimado, ritmado e de sonante decassílabo. De modo geral, estes versos soam, ressoam, quer física quer mentalmente, quando atentos às sonoridades da cena circundante. O soneto e outras formas de Domingos da Mota não são os clássicos, nem podiam ser, vivemos em 2025 e não em 1580. Há uma conhecedora transgressão e mesmo concessão a tendências próprias dos nossos dias, e a lista é uma delas, inclino-me no entanto a relevar a maior importância da enumeração das fontes, patente nas últimas páginas. E ali aparece, entre tanta ilustração, o nosso Triplov (em triplov.pt/), menção que me agrada e agradeço.
Pelos motivos aduzidos, cabe então transcrever um dos seus poemas de 14 versos, em redondilha maior, de rima ababcdcd, etc., e concordar com o poeta em que é importante a forma:
Mas vale a pena dizer
que a forma é importante,
sobretudo se abranger
um conteúdo bastante,
pois nisto de conteúdos,
sem falar nos aparentes,
além dos graves e agudos
e com traços divergentes,
vê os que trazem também
uma carga de trabalhos
(para atingi-los há quem
persiga tantos atalhos)
que depois de tudo isso
o que perdura é um esquisso.
Continuando a concordar com o autor, há que ter em atenção os conteúdos, fugindo assim a uma maioritária poesia contemporânea bastante pobre deles ou irrelevante a tal propósito. No caso vertente, temos um defensor dos valores da democracia, tão abalada que vai andando um pouco por toda a parte, mas muito nos locais precisos da maior relevância, aqueles que tal jamais deviam consentir na afronta que o neo-fascismo lhes vai movendo, exemplo maior dos Estados Unidos da América, sob a tendencial ditadura de Donald Trump, sub-aludido aqui e ali, e mais fortemente no poema que leva por título “Nobel da Paz”.
Então temos um poeta que também partilha a genealogia dos de escárnio e maldizer, avaro na sentimentalidade e pródigo na crítica aos políticos e à política, agora na permanência da poesia de contestação de tantos que combateram a ditadura nos arredores do 25 de Abril, batendo-se com a pena contra as injustiças sociais. É talvez o nosso habitual martírio de David contra Golias que parece transparecer n”O caminho das pedras”. Bem árduo o caminhar sobre as pedras do caminho, mas igualmente pedras atiradas “vivas, levantadas, insurrectas,/ subversivas”. A temática da guerra é frequente, lemos até um “Manual de instinto de sobrevivência no campo de batalha” que, induzido pela ideia de instinto, lista (de novo a listagem) as qualidades necessárias à sobrevivência de acordo com as que são próprias dos animais.
No que diz respeito então aos conteúdos, para usar o termo de Domingos da Mota, temos todo o aparato do quotidiano, da realidade em que tropeçamos ou nos é arremessada dos grandes e pequenos écrans pelos meios de comunicação. Porém pobre seria a poesia se limitada ao circunstancial. Na verdade o poeta transcende quase sempre o domínio da physis para entrar no da reflexão, ou, melhor dizendo talvez, ele usa transcender o real tangível na direcção do intangível. Seja pela observação e contemplação da chuva, seja pelo agreste reparo a intolerável comportamento de algum político, ele vai elevando o grau do registo físico ao intangível, não mensurável mecanicamente, ou seja, ao metafísico, como fica patente, v.g., no poema da chuva.
Chove a cântaros
Chove a cântaros, chove
e chovendo assim
nada me demove
de ficar aqui
a olhar, a ver
a reparar que a chuva
deixa perceber
como fica turva
a luz que anuncia
a má catadura
fechada e sombria
de uma tarde escura
Ainda mais evidente esta caminhada da physis para a metaphysis, a consequência do mau tempo neste poema tão comedido, nos seus apenas dois dísticos:
Lá se foi o guarda-chuva
Lá se foi o guarda-chuva
com a rajada de vento
Soubesse eu secar as dúvidas
que encharcam o pensamento
DOMINGOS DA MOTA
Tempestade seca e outros poemas
Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto
Porto, 2025



