MANOEL TAVARES RODRIGUES-LEAL
Cinco poemas inéditos do caderno Livro do amador nómada (1976) de
Manoel Tavares Rodrigues-Leal
(1941-2016)
LUÍS DE BARREIROS TAVARES, org.
I
E, assim, meu Deus, freme o brilho do dia,
talvez alta e álgida melancolia do abandono que não concebo,
e não é conceito, reside na pele de quem escreve e vê,
resignado, o tempo límpido perpassar e então se indaga
do punhal cravado no coração: amar é esta atenção cruel das coisas…
Lx. 25-6-76 – título do poema rasurado: “Amar é a atenção de nada”
II
Há um retrato antigo e alheio que alimenta meu delírio
e minha heráldica, o da infância, que é mera vírgula mental.
E um oceano de cio e de nuas trevas fremem, oscilam,
e então meu desejo é vegetal e puro e desliza como a água cantante de um rio.
Lx. 26-6-76
III
Sóbrio o poeta aguarda a obra,
que vagina não quer coito.
Então, o olhar do poeta se demora
através da escrita que escreveu e era oito,
nove ou dez, porque aritmética de palavras,
que aritmética de amor, essas não as há.
E o poeta perdeu-se em delírios e só se lhe deparou Deus.
Deus disse-lhe: que tempestade te atormenta, se és rei de ti-mesmo e abdicaste
da grandeza porque humílimo: aos céus ascendes e portanto a Mim te entregaste.
Lx. 26-6-76
IV
É manhã, é Verão, apetece cantar
ou morrer em seus corredores.
Mas morrer é um cancro possível,
mas cantar implica exílio.
Poeta e espelho é uma dualidade divina.
Agora, a idade de morrer, que ninguém ma ensine!
Lx. 27-6-76
V
És tu, continente ou corpo que dispo,
sobre o qual, contente, me deito.
O que me dás é antigo e esparso
e debruça-se sobre brilhos que são a assinatura de cruel solidão.
Quando me visto, sei a mudança.
Lx. – 76 – [26-6-76?]



