MILTON REZENDE
EX-100
Perco-me no trabalho de ser acessível
a alheias vidas que não me dizem respeito
ao se aproximarem de mim, cuja solidão
se tornou um fardo inevitável pela própria
impossibilidade de desdobrar-se em convívio.
Sinto que estou exposto inteiro
para uma vitrine frequentada por cegos.
Vejo que me revelo em sonhos e sombras
para a interpretação de uma plateia
aficionada em pormenores sem importância.
E percebo que a soma de tudo
é essa tranquilidade adiada de meu sono
para depois da morte, que já apascento
em contagem regressiva e neutra.
Areia (À Fragmentação da Pedra)
EXÍLIO SEM REINO
Caminho pelas ruas de
uma cidade, mas é como
se eu andasse descalço
sobre um depósito de
vidros quebrados.
Pulsava em meu sangue
coágulos de nostalgia
e o desejo ardente do
corpo esbarrava num corpo
que, exaurido, envelhecia.
A calçada é deserta
na extensão da noite,
e no escuro a minha
solidão era a mesma
e se misturava com
a solidão das pedras.
Visito em meu roteiro
sem rumo uma antiga
chácara da morte, e
era como se eu entrasse
num canteiro de obras
ao som de um sino.
Havia, ao lado deste
cenário em que se
morria, um boi que
pastava, ruminando
a nossa sina.
Inventário de Sombras
EXORCISMO
Não vou mais
desenhar com dedos
o teu nome
no ladrilho do banheiro.
Não vou mais
esculpir com fezes
o teu rosto
no rolo de papel higiênico.
Não vou mais
esboçar com esperma
o teu filho
no lençol de solteiro.
Não vou mais
gravar com sangue
os detalhes
de nosso pacto impossível.
Não vou mais
seguir como bêbado
o roteiro
do encontro no cemitério.
Não vou mais
escrever pelo correio
a trajetória
do isolamento poético.
Não vou mais
dissimular em versos
a tua identidade
de demoníaca beleza.
Não vou mais
negar que sejas mulher
vou apenas
exorcizar o amor.
O Acaso das Manhãs
EXPLICAÇÃO DE UM SILÊNCIO
Fala em meu cérebro
o projeto de uma fala
que arquiteto em segredo
de não saber falar.
Levei muitos anos
para decifrar
meu código interior,
mas como não fiz anotações,
hoje não sei reproduzi-lo
em caracteres humanos.
Então falo comigo em silêncio
como se eu abarcasse em mim
toda uma plenária em murmúrio.
E aquilo que escrevo é o resultado
desse diálogo numa sala vazia.
Areia (À Fragmentação da Pedra)
EXPLICAÇÃO
Não somos assim tão poetas,
somos pessoas comuns
como quase todo mundo.
E o que nos diferencia
é permanecermos no mesmo barco
quando todos correm para as praias
acompanhando as luzes do réveillon.
Nós vamos para o mar alto.
O Jardim Simultâneo
FAZENDA SÃO DOMINGOS (*)
para Milton e Natair, uma lembrança do filho.
Estes quartos choram a um canto
memórias do tempo longínquo e infinito,
que agora com o silêncio formam prantos
dos avós, dos netos e dos filhos.
Destas serras e destes prados
ressoam vozes dispersas, talvez de escravos,
que confusos e oprimidos no passado
procuram marcas que deixaram no assoalho.
Estes fatos e estes quadros
pintados por mãos desconhecidas,
mergulhados no tempo como os antepassados,
saem da moldura e readquirem vida.
A casa grande, a senzala fria
do tempo do meu bisavô, já destruídas,
se edificam por si mesmas e voltam ao ritmo
dos engenhos, dos canaviais e da ermida.
E vejo meu avô à frente dos negócios,
que herdando as terras, as lavouras e o gado
faz ranger nos morros boiadas com seus carros,
trazendo com suor as colheitas – frutos do trabalho.
Meu pai retorna a noite para casa.
A casa é outra, é outra a realidade.
Mas a fazenda com suas lembranças e com seu nome,
perpetuam no tempo e no espaço – fatos e imagens.
Agora depois de longos anos
retorno à fazenda. Porém não vejo a casa,
não vejo o movimento, não vejo o gado.
Mas revejo os fatos ocorridos no passado.
E posso sentir a antiga fazenda
tal como era, suspensa no infinito.
E ouço vozes, falas e gritos dos antepassados
que circulam pelo corredor sombrio.
Um Andarilho Dentro de Casa
(*) 1981
FERIADO
Estou sentado, sozinho, na mesa de um bar, numa dessas noites perdidas. Lá fora a chuva impede-me de sair e eu fico observando este meu impedimento que na verdade é fuga a uma determinação que não tenho tido. Olho para a chuva e vejo a sua cortina de indiferença. A chuva escorre e a água correndo parece trazer-me uma espécie de nostalgia semelhante à náusea. A chuva forma com suas goteiras algo parecido com uma delimitação de espaços, de vivências, de ansiedade pura. Aqui dentro a vida que tenho tido como espaço permitido ao corpo. Lá fora a vida que eu poderia (talvez) ter se imperasse o sonho de estar além do espaço físico, como uma antevisão de um espaço neutro concernente à paz. Acrescento ainda que esta noite é de finados e a questão é transpor ou não o limite da porta.
Inventário de Sombras
FLASHES DE UM COTIDIANO
Detenho-me diante da vida.
Não como faz o pedestre
no verde do trânsito, pois
há uma possibilidade
de atravessar ileso.
Detenho-me apenas e por fazê-lo
ela se esvai em minha dúvida.
Detenho-me diante de teus olhos.
Não como faz o oculista
na miopia do paciente, pois
há uma possibilidade
de receitar uns óculos.
Detenho-me somente pelo enigma
e assim perco-te de vista.
Detenho-me diante da morte.
Não como faz o religioso
na partida do irmão, pois
há uma expectativa
de vida eterna.
Detenho-me incrédulo
e por não acreditar
já não temo o vazio.
Não como faz o homossexual
no convívio social, pois
há uma chance
de vencer os preconceitos.
Detenho-me para deter o medo
e na hesitação amanheço.
Detenho-me diante de mim.
Não como faz o homem
na transparência do espelho, pois
há uma possibilidade
de não se enxergar a si próprio.
Detenho-me sem fugir de mim
e por não saber forjar-me
todo esforço é inútil.
Detenho-me diante do tempo.
Não como faz o adolescente
na festa de debutantes, pois
há uma esperança
de vencer no tempo.
Detenho-me sem alegorias
e por não tê-las
o presente é trágico.
Detenho-me diante do silêncio.
Assim como fazem os animais mesquinhos,
que com seus ruídos soturnos
não quebram o silêncio da noite.
Fazem parte dele, ou antes, o completam.
O Acaso das Manhãs
FLORES DE CEMITÉRIO
Entre a vontade ferrenha do sonho
e o bloqueio efetivo do medo,
havia toda a extensão de uma noite
em que eu devia permanecer à porta
de sua casa velando o teu sono e
vendo a morte subterrânea do desejo.
Eu não estava sozinho nas ruas
de uma cidade quieta, havia sob os
meus pés toda uma horda de cadáveres
que se arrastavam feito minhocas e
viam com vivo interesse o desfecho
de minhas peripécias góticas.
Entre a fachada fechada de sua casa
e os portões de acesso ao cemitério,
havia todo um roteiro desesperado
que eu devia percorrer ao encalço de
minha lucidez no encosto das sacadas
ou seguir bêbado à procura de flores.
Eu não estava sorrindo nos bares
próximos a uma praça deserta, havia
solidão e pânico em meus propósitos
quando eu me dirigia ao cemitério e
com as mãos trêmulas sobre o canteiro
eu enchia de flores a bolsa de plástico.
Entre a calma indiferença do teu sono
e a obsessão doente da paixão, havia
todo um ritual de poesia que visava
alterar o descompasso entre o amor
caótico que eu sentia e o abismo
de silêncio e luz que te envolvia.
E daqui a alguns anos
(findo o mistério),
quando a vida estiver
muito longe e grande
for a fileira de sonhos,
tu então terás a certeza
de ter sido a primeira
a receber flores do cemitério.
A Sentinela em Fuga e Outras Ausências
FOTOGRAFIA TIRADA NA ROÇA
O que fazer
quando não há mais
nada a fazer?
Olhar os pássaros
nos fios, as árvores
ao fundo?
Montanhas circundam
o teu sorriso de mulher.
Cercas de bambu
e o teu brinco em
forma de losango.
Negros cabelos compridos escorrem
em cascata como se fossem ondas,
e um som de flauta envolve teus ombros.
Fazer nada
quando há mais
o que fazer?
O Jardim Simultâneo

