CRISTINO CORTES
«Flores para Camões», de Cristino Cortes (Calçada das Letras, Tomar, 2025), foi publicado e apresentado como parte integrante das comemorações oficiais do 5.º Centenário do Nascimento de Luís de Camões. Trata-se de uma obra híbrida que reúne materiais de natureza ensaística (sobretudo biográfica) e poemas de vários géneros, todos eles dedicados ao épico ou glosando a sua poesia.
Cristino Cortes é membro da Associação Portuguesa de Escritores (APE), entidade que tem promovido ativamente a divulgação desta obra no âmbito do centenário. Esta nota biográfica é aqui pertinente, dada a inclusão de um poema inspirado no célebre “Vinde cá, meu tão certo secretário”, no qual o autor estabelece um paralelo com o cargo que ocupa na instituição que nos representa a nós, escritores portugueses. E por nos representar a todos, não creio que algum de nós descarte a a hipótese de que a reverência de Cristino Cortes acaba por funcionar como homenagem coletiva.
O Compromisso do Primeiro Secretário
(em casa de escritores, APE)
Meu tão certo secretário, de mim irão dizer
E oxalá me achassem a virtude que o Poeta
No papel encontrava, já que a pena, bem modesta,
Me cabe empunhá-la e à sua sombra algo escrever.
É este o tempo, e o fado assim o determinou.
Sob a protecção de Camões exerço pois um cargo
Que ele jamais exerceu, oh honroso encargo
Quanto maior seria face ao génio que o marcou!
Eis o sortilégio da poesia que do seu príncipe
Logo lembro uma expressão, uma palavra certa;
A distância sinto mas a alma está aberta
A cumprir lá das estrelas o mistério insigne.
Humilde secretário em casa e poesia, nem tanto
Sonharia Camões, folgando a pena e o espanto.
Cristino Cortes, a despeito da sua inegável contemporaneidade, escreve parcialmente segundo padrões clássicos. O exemplo acima é um soneto que, tal como outros no livro, apresenta a particularidade de se estruturar em três quadras e um dístico. A temática central da obra reside na metáfora das “flores” — tributos que exaltam a importância do épico, figura basilar da Nação e da Língua Portuguesa, notando que as flores são imagens centrais na poesia camoniana, a simbolizarem a vida efémera e a beleza feminina. As flores oferecem-se a quem amamos, participam de um jogo de sedução, ritual cumprido por Cristiano Cortes. Não tem limites a admiração deste poeta por aquele cujos cinco séculos agora comemoramos.
A Camões, sintética visão
És a fonte a origem
De todos nós e desta língua;
Inconsciente e inútil a comparação
Mas não há poeta maior, não!
Não se estreita com o maior conhecimento
A mais funda e antiga admiração;
É outra a escala, a dimensão
Génio da língua, bem seu é todo o momento.
A tanto eu não me atreveria.
Mas… esta funda e velha homenagem
Oxalá o Poeta a aceitasse
E à vida nada mais pediria.
A obra revela-se heteróclita não apenas por cruzar o ensaio com a poesia, mas também pela diversidade formal desta última. Embora o soneto predomine, encontramos também a canção, e glosas de redondilhas, como a que parte do famoso mote de Lianor:
Redondilha
Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura:
Vai fermosa e não segura.
Eu vi-a hoje, a linda
Cheia de doce ternura:
Que era louca loucura
Da sua graça infinda…
Vai fermosa e não segura.
Não sei bem para onde ia
Essa beldade entrevista
Via só enchê-la o dia
(O meu) de sorte benquista…
Vai fermosa e não segura.
A Lianor que Camões viu
Também minha alma amou;
Porém eu Camões não sou
Aqui isto bem se viu.
Vai fermosa e não segura.
Ao longo do volume, o autor apresenta os seus textos com uma humildade que denuncia a sua profunda veneração pelo mestre. É precisamente essa reverência que justifica a coragem de escrever sobre um tema de tamanha grandeza, estabelecendo diálogos constantes entre o poema presente e o legado camoniano. Pela honestidade da homenagem, a obra de Cristino Cortes afirma-se como um contributo interessante para esta celebração.
CRISTINO CORTES
Flores para Camões
Calçada das Letras, Tomar, 2025
Participação do chatGPT (IA)


