JOÃO SODRÉ
Há momentos em que a cidade se cala dentro de nós e ficamos sozinhos com o rumor do próprio coração — como uma fábrica nocturna que não pode parar. Ninguém vem resgatar-nos desse turno. Não há sirene final, nem abraço que substitua a coragem mínima de continuar a respirar de pé.
Aprendemos devagar que a derrota começa por dentro, quase invisível, como ferrugem. Primeiro aceitamos pequenas concessões, depois o silêncio, depois a ideia de que viver é apenas cumprir. E quando damos por isso já caminhamos como sombras disciplinadas, obedientes, sem espanto.
Mas há qualquer coisa que insiste. Uma réstia de claridade teimosa, um gesto, uma memória, uma música absurda que regressa quando tudo parece perdido. É aí que começa a resistência verdadeira: no instante em que recusamos tornar-nos peças úteis de um mundo sem alma.
Olha em volta. Vês quantos já desistiram sem morrer? Quantos atravessam os dias com os olhos vazios, cumprindo a vida como quem cumpre uma pena? É fácil juntar-se a eles. É fácil esquecer o fogo e chamar-lhe maturidade.
Difícil é outra coisa: manter intacto o centro. Defender o que em nós ainda acredita, ainda canta, ainda se revolta. Não como heróis, mas como gente comum que não aceita ser apagada.
Salvar-se é um acto humilde e feroz ao mesmo tempo. É recusar a mentira quando ela parece confortável. É proteger o riso quando tudo pede gravidade. É continuar a sentir quando o mundo prefere máquinas.
Não esperes salvadores. Nunca chegam a tempo. E quando chegam, trazem sempre uma condição.
A única batalha que importa trava-se na carne e na consciência: entre o que nos querem fazer ser e aquilo que, teimosamente, continuamos a ser. Não se ganha de uma vez. Ganha-se todos os dias, às vezes por milímetros.
E, no entanto, vale a pena. Porque há uma dignidade secreta em permanecer vivo por dentro. Uma luz que não aparece nos mapas nem nas vitórias oficiais, mas que sustenta o passo de quem não se vendeu.
Cuida dessa luz. Alimenta-a com gestos pequenos, com ternura, com ironia, com a coragem simples de dizer não quando todos dizem sim.
Se for preciso pagar o preço, paga. Há perdas que libertam. Há riscos que são a própria forma da fidelidade à vida.
Ninguém o fará por ti.
Mas no dia em que escolheres não te abandonar,
no dia em que te levantares contra a desistência,
perceberás, com uma clareza limpa e quase alegre,
que salvar-te era afinal isto:
não deixar que o mundo te transforme
num homem sem rosto,
num coração sem chama,
num corpo que morre antes de viver.

