Hermeto Pascoal morreu no dia 13/09/2025.
Hermeto era daquelas pessoas às quais tínhamos a leve sensação – com esperança de certeza – de que não morreriam: era uma força da natureza, a prova total do que o humano é capaz quando vive e age dentro da criatividade, sem restrições ou amarras.
Conheci o Hermeto pessoalmente ao conversar com ele depois de uma apresentação no Espaço Cultural da Caixa em São Paulo, em 2012: figura humanissima, conversou conosco como fôssemos velhos conhecidos que haviam interrompido uma conversa dias atrás: ainda sob o impacto da música, era como se fosse um sonho onde Gledson, adepto hermético, estivesse diante do mago dos sons e da fada musical que formava dupla com ele naquele momento, a também genial Aline Morena.
Ao chegar em casa, ainda naquele estado onírico que a música deles me deixara, escrevi um depoimento sobre o show-espetáculo-happenning e de manhã lhes enviei o texto.
Com a generosidade que lhe era própria, o Hermeto publicou o texto no site dele, o que foi uma alegria imensa para um escritor desconhecido…
Hoje, escutando um dos discos dele que mais me toca – POR DIFERENTES CAMINHOS, faço essa sincera e cálida homenagem, retomando o texto se 2012: sinto que a qualquer momento poderemos nos encontrar e retomar aquela conversa que não completamos…
Depoimento sobre o show “Bodas de Latão”
07/04/2012
Bodas de Latão ou O Coração do Mundo
Gledson Sousa
Michelangelo queria libertar a forma que estava nas pedras, Hermeto libertou a música das coisas. A música de Hermeto e Aline Morena foge de qualquer rótulo. Não é erudita ou popular, é música, pura música: a mais completa substantivação do som em movimento. É difícil dizer o que é Bodas de Latão: não é um show ou espetáculo – categorias da cultura de massas que nem de longe se aproximam do que eles fazem. A forma mais aproximada seria o happening – porque traduz uma experiência coletiva de arte – se a palavra happening não fosse tão datada; mas a expressão mais apropriada é experiência espiritual – no sentido mais amplo que essas duas palavras possam ter, livres de conotações históricas ou religiosas: a maestria dos sons de Hermeto Pascoal e Aline Morena se traduz para o público numa vivência de alto nível – os sons estão livres pelo espaço, tocam-nos, nos levam para outros lugares, outras dimensões. A sensibilidade e as proezas musicais de Hermeto são notórias: é música pura em alto grau, seja improvisando uma peça ao piano – peça de imensa delicadeza e beleza -, tocando escaleta ou acordeom de oito baixos; mas a presença de Aline Morena é marcante, seja fazendo do próprio corpo um instrumento, tocando com mãos e pés, batucando na água ou encarnando a rainha da noite da Flauta Mágica de Mozart: também multi-instrumentista, vai da viola caipira ao piano, passando pela percussão na água ou no corpo, sem perder o senso musical ou a beleza. Se com toda razão Hermeto foi apelidado de bruxo – pois ele liberta a magia da música -, Aline parece uma fada, uma criatura da floresta de voz doce e cativante, batubailando como uma bacante tomada pelo espírito da música. Não há nada teatral – o que eles fazem, ELES SÃO, como se fossem um yin e yang musical a se completarem no palco.
No século XIX, o grande escritor e crítico musical alemão E.T. Hoffmann cunhou o termo música absoluta, para falar daquilo que ele considerava uma música pura, desligada de referenciais externos, e toda uma geração romântica discutiu sobre, e ele mesmo e Wagner diziam que Beethoven fora um que alcançara a música absoluta. Ora, em primeiro lugar, isso não existe como concebido: sempre há um referencial – interno ou externo – à música, e a música absoluta seria, para mim, não aquela desligada de referenciais, como se estivesse fora do mundo, mas aquela que é recuperada das coisas e que assim transforma a vivência do mundo numa vivência absoluta, pois encontra a música em todos os lugares – a música absoluta está em Hermeto Pascoal: na sua total liberdade criadora parece livrar a música de qualquer contingência- do papel pautado, das caixas de som, do feio, do bonito. Como diria Guimarães Rosa, na panela do pobre, tudo é tempero. E tudo vira alimento espiritual nesse grande caldeirão que é o Bodas de Latão – um xote, letras escritas num idioma universal (que lembram o experimento do poeta Russo Klebnikov com a linguagem Zaum, transmental), gritos, brinquedos de crianças. A música mostra que a beleza está em todos os lugares e abre nossos ouvidos para percebê-la, não como uma experiência banal, mas como generosa dádiva de uma natureza sem limites. Sim, o paraíso existe e está aqui: a beleza do mundo está ao nosso redor.
Palavras são vastas. E belas. Mas há vivências que são difíceis de serem traduzidas em palavras. A música de Hermeto Pascoal e Aline Morena é assim – fada e bruxo, amor e sonho – parece que estamos ouvindo o coração do mundo.


