MILTON REZENDE


GOLES DE LEVEZA

 

chás & cicatrizes

aromas em lata com

ferrugem

o intervalo do trajeto

entre o chão e o

travesseiro

melhor ser um homem

deitado que um andarilho

de joelhos, e bêbado.

 

Um Andarilho Dentro de Casa

 

HISTÓRIA CONCISA

 

 “Quando em meu peito rebentar-se a
  Que o espírito enlaça à dor vivente”.
  Álvares de Azevedo (1831-1852)

O poeta dobra a esquina

com uma sacola de plástico:

pão, bife de hambúrguer e solidão.

Não vale a pena chorar por ele:

se fez as opções erradas,

se tombou pelo caminho,

nada fica além do fato

de um dia ter existido

e comido aquele sanduíche

barato.

Uma Escada que Deságua no Silêncio

 

HOUSE OF DYING 

 

Febre

Sudorese

Incontinências

Vômitos

Sitofobia

Excesso de saliva

Falta de ar

Palidez

Convulsões

Feridas

Gritos

Roncos

Fedor

Espumas na boca

Excesso de gás

catinguento

Dor no calcanhar

e cansaço no mesmo.

 

Uma pequena lista

do que somos e

ainda tem gente

que se jacta.

 

O Jardim Simultâneo

 

IDENTIFICAÇÃO

 

Identifico-me com a noite

e com o que ela traz

de específico a si mesma,

e assim fazendo, aceito

o convívio de seres opacos

e da nova ordem e estado de coisas

que o escuro inaugura.

Identifico-me com o avesso

sou aliás o próprio avesso de mim,

e assim sendo, conheço

as esquinas sombrias

nas quais se disfarça

a inexorável nulidade.

Volto de manhã para casa,

e num balanço isento da noite

nenhum acréscimo se me acrescentou

de forma permanente.

Voltei eu mesmo sozinho e íntegro,

apesar das concessões necessárias

ao convívio comum entre os homens.

Nada ganhei e também nada de mim

se perdeu, exceto esta vida

que amanhece mais velha.

 

O Acaso das Manhãs

INSTANTE DE DELÍRIO

 

Olho para o vazio

de meus olhos.

O espelho

não reflete mais o amor,

outrora visível.

 

Imagens tão nítidas

se me afloram perdidas

na incongruência do vidro,

uma vez descascada sua tinta

prateada de reflexão.

 

E agora as manhãs

trazem o hálito da perda,

do que fui e que no meu delírio

se esgotou em fome.

 

Não a fome dos homens

do nordeste, biológica.

Tampouco a fome dos homens

civilizados, que inventaram a fome

para dois terços do mundo.

Mas fome ela mesma,

que não se come e me digere.

Não se alimenta e me fez assim

um antropófago de mim.

 

Fome que se reverte em morte

e não me assusta, pois construí

a vida a partir dela.

 

Sou um desses seres que acreditam

que na sombra se esconde a morte,

e se perde a vida e se ganha a vida.

 

A vida ganha com a morte

não é metafísica.

Por isso eu me mato a cada dia,

consciente de que um vazio com outro

não se compatibiliza.

 

O Acaso das Manhãs

INTERSTÍCIOS DA VIDA

 

Deixar de ser cúmplice da vida

de outros que em mim personificam

a parcela da culpa que subtraio

do erro coletivo e meu, individualizado.

 

Obscurecer o reflexo do sofrimento

de homens que não vejo em presença,

mas que em espécie me julgam digno

de vê-los (como testemunha da morte

sem remissão de si) em que se abrigam.

 

A desvisão do homem como forma de se

desviar do mundo, numa covardia anônima

de se cegar para o que há de recíproco

no duplo ato de existir e ser responsável

por esta morte latente, usada como escudo.

 

Mantendo a essência que não explico

mas sei que existe onde deixo

de existir para ser parceiro da vida,

criação simbólica do gesto de um deus

não conclusivo, que se deu por satisfeito

em seu cansaço.

 

Areia (À Fragmentação da Pedra)

 

INTERVALO

“Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino
Que envelheceu, um dia, de repente!”
Mário Quintana (1906-1994)

 

Tenho quarenta e cinco anos

e já neste meu último aniversário

foi levantada a hipótese irreversível

do envelhecimento antes da morte,

mas nunca sabemos o que virá primeiro.

 

Seja como for o assunto é desagradável.

 

Imaginei-me de carteirinha sexagenária,

entrando pela porta da frente dos ônibus

e viajando de graça pelo país dos meus netos.

 

Logo adiante eu precisaria sacar um dinheiro

no banco e haveria um guichê específico

esperando a minha dificuldade de caminhar.

 

Soube também que eu poderei requerer

um acréscimo no valor da aposentadoria,

para gastar com hospitais, médicos e remédios.

 

Seja como for o assunto é desagradável.

 

A minha vontade é rasgar

o estatuto do idoso

e voltar a ser criança.

 

Uma Escada que Deságua no Silêncio

 

ISOLAMENTO 

 

A lua na casa de saturno

saturno na casa da lua

todo mundo em casa.

A casa de todos no mundo

todo mundo na casa de

todo mundo e eu que não

encontro o meu lugar

em lugar nenhum,

no escuro.

 

O Jardim Simultâneo

 

JORNALEIRO

 

O menino vendendo o jornal

grita pelas ruas da cidade

com sua voz mecânica

(misto de automatismo e resignação).

A tristeza feita esquecimento

na sobrevivência através de palavras

rápidas e mal articuladas,

“olha o diário olha o diário”.

Naquela noite, ao voltar pra casa,

o menino morreu no trânsito,

e no dia seguinte

a sua morte não foi noticiada no jornal.

 

Areia (À Fragmentação da Pedra)