Introdução a «As Novas Vozes», de Nicolau Saião

 

 

 

 

 

 

 

 

LUÍS BARREIROS


Luís Miguel de Jesus Lopes Barreiros é psicólogo clínico e da saúde, doutorado em Psicologia Aplicada com especialidade em Psicanálise. Investigador de pós-doutoramento na Universidade da Beira Interior, coordena protocolos internacionais com foco no trauma psicológico em contextos lusófonos. É também psicoterapeuta, docente, orientador académico e autor de múltiplos ensaios sobre psicanálise, antropologia e sofrimento humano. Com vasta experiência em Angola e Portugal, tem conciliado prática clínica, docência universitária e investigação aplicada, em articulação com instituições civis e militares. Desenvolve ainda atividade como Psicólogo Clínico e da Saúde / Well-being Coach na PULSO Portugal Europe.


Nicolau Saião e a Persistência do Surrealismo como Insurreição do Real


Ao vaguear pelas páginas de As Novas Vozes, o leitor não se encontra perante uma mera coletânea de textos, mas diante de uma incursão vívida num território onde a palavra, tal como no manifesto fundacional de André Breton (1924), se faz “exploração do pensamento em ausência de qualquer controlo exercido pela razão, fora de qualquer preocupação estética ou moral”. Nicolau Saião, escritor de rara lucidez e densidade poética, inscreve-se na genealogia mais legítima do surrealismo, quer enquanto movimento literário e artístico, quer como atitude ética de insurgência contra os automatismos ideológicos e as prisões da consciência normativa.

Desde os seus vínculos históricos com o Bureau Surrealista Alentejano e, mais tarde, com o Bureau Surrealista de Lisboa, Saião estabeleceu uma ponte viva com figuras tutelares do surrealismo português, como Mário Cesariny e Cruzeiro Seixas, com quem manteve diálogos criativos, correspondência e cumplicidade estética. Porém, o seu trabalho ultrapassa o mero exercício de continuidade: nele, reencontramos o espírito de Artaud, a violência simbólica de Benjamin Péret, e a imagética transgressora que reconfigura o real, tal como o inconsciente o reconfigura nos sonhos.

A obra reunida neste volume – entre entrevistas, evocações críticas e poemas – dá corpo a essa lógica subterrânea, muitas vezes onírica, onde o tempo histórico é atravessado por vozes fantasmáticas, duplos, restos diurnos e pulsões recalcadas. Como bem o diagnosticou Freud em Die Traumdeutung (1900), o sonho é a via régia para o inconsciente – e é precisamente essa via que Saião percorre com rigor, humor e uma pungente ironia. Os seus textos instalam-se na fenda entre o manifesto e a ficção, entre a lucidez poética e o delírio organizado, numa filiação que Lacan (1966) veria como “o real enquanto impossível”.

Não será despropositado afirmar que Nicolau Saião contribui, com esta obra, para um dos grandes desígnios do surrealismo: o reencantamento do mundo através da palavra poética, da imagem insólita, da liberdade simbólica. Como o próprio escreveu em “NS, um voo sobre o surrealismo”, trata-se de “erguer-se contra a história” e de “emitir sinais para além do convencionado”. Essa resistência ativa ao apagamento do imaginário faz da sua escrita um gesto clínico – no sentido freudiano do termo – onde a linguagem não é sintoma de uma doença social, mas operação simbólica de libertação.

Num tempo em que os automatismos do consumo e da ideologia diluem o sujeito na linguagem publicitária, Nicolau Saião insiste em manter acesa a faísca do desejo. O seu surrealismo não é apenas memória de um movimento, mas a emergência intempestiva de um pensamento do fora – do exílio, do anacrónico, da heterodoxia. Com As Novas Vozes, o surrealismo português reencontra uma das suas vozes maiores, firmemente inscrita na cena internacional, mas também ferozmente enraizada numa topografia afetiva e ética que é, em última instância, aquela da poesia enquanto experiência radical do inconsciente.

Por Luís Barreiros

Monte de Caparica, 07 de junho de 2025

 


Referências Bibliográficas 

Breton, A. (1924). Manifeste du surréalisme. Paris: Éditions du Sagittaire.
[English edition: Breton, A. (1969). Manifestoes of Surrealism (R. Seaver & H. R. Lane, Trans.). Ann Arbor: University of Michigan Press.]

Freud, S. (1900). Die Traumdeutung. Leipzig: Franz Deuticke.
[English edition: Freud, S. (1953). The Interpretation of Dreams (J. Strachey, Trans. & Ed.). London: Hogarth Press. (Original work published 1900)]

Lacan, J. (1966). Écrits. Paris: Seuil.
[English edition: Lacan, J. (2006). Écrits: The First Complete Edition in English (B. Fink, Trans.). New York: W. W. Norton & Company.]

Péret, B. (1936). Le Déshonneur des poètes. Paris: Éditions de la Main à Plume.

Artaud, A. (1947). Van Gogh, le suicidé de la société. Paris: K éditeur.

Cesariny, M. (1977/2021). Pena Capital. Lisboa: Assírio & Alvim

Saião, N. (2025). As Novas Vozes. [in press].

Saião, N. (n.d.). NS, um voo sobre o surrealismo. Manuscript included in As Novas Vozes.