Laura, Laura

 

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So, your name is Laura. Beautiful name. Lembrou-me logo Petrarca. A metafísica que, atiçado pela paixão ou desesperado perante a impossibilidade de a entender ou satisfazer, o poeta italiano foi aperfeiçoando, temos de reconhecer, é um acontecimento extraordinário. Ir além da matéria, espiritualizar o corpo e o desejo, revela aspirações e frustrações a que só um amor intenso e uma profunda reflexão podiam dar origem. Era a influência da religião? Ou bastava a inquietação?

Você, então, chama-se Laura. Que nome bonito. Sabe que no século XIX Eça de Queirós e Machado de Assis acabaram, no mundo que fala português, com o reinado do petrarquismo? Essa visão idealizada do amor pareceu-lhes coisa de outros tempos, talvez até fruto de alguma ingenuidade. Não passava de uma ilusão constantemente desmentida pela experiência. Bastava prestar atenção ao que ia acontecendo e olhar à volta com os olhos bem abertos para se dar conta de que a visão do amor de Petrarca tinha de ser revista e actualizada a partir de experiências mais recentes. Mas embora o cinismo e o cepticismo dominem as relações amorosas nos tempos que correm, quem se atreveria a dizer que nós deixámos de acreditar no amor como Petrarca acreditou? Quem, Laura? E, sejamos honestos, quem nos garante que a visão do amor que se encontra nos poemas de Petrarca não coexistia com visões do amor tão prosaicas e tão pouco espirituais como a que agora nos pode incomodar? Eu gosto de Petrarca e hei-de sempre fazer o elogio do amor como ele o via e sentia.

Nunca tinha conhecido nenhuma Laura, sabe? Uma Laure, é possível, uma francesa, filha de uma amiga minha. Que os sonetos de Petrarca tenham sido sobretudo a expressão ou invenção de uma filosofia, isto é, um esforço sublime para escapar às leis da carne e à certeza da morte, uma tentativa de recusar o total aniquilamento daquilo que fomos, é provável. Talvez uma forma de consolação. Talvez um estímulo que nos elevaria a uma existência mais digna. Não sei, sinceramente.

L-a-u-r-a. Gosto de dizer o seu nome. Pode ser por causa da ligação com Petrarca. Mas Lacan, o psicanalista francês, não disse uma vez, tornando tudo ainda mais simples ou mais complicado, que se há coisa que não existe são as relações amorosas? Apetecia-me perguntar ao Lacan: se não há relações, o que é que há? O que é uma relação, então? E o que é o amor? Em assunto tão complicado é certamente preferível evitar afirmações tão definitivas. Por isso limito-me a citar visões diferentes do problema, para que não me tomem por excessivamente ingénuo. E calo-me, fico-me por aqui. Acho melhor que seja cada um de nós a resolver o problema à sua maneira.

Você, Laura, nunca foi à Fontaine de Vaucluse, imagino. Se tivesse ido, tinham-lhe mostrado uma casita que está à beira da água que vem descendo, agitada, da gruta profunda lá em cima, no sopé da montanha. Parece que Petrarca costumava passear nas margens do rio que ali nasce. E que quando vinha, provavelmente para escrever e meditar no lugar idílico, morava nessa casinha hoje modesta. Não sei como é que ele conseguia dormir com o ruído insistente da água turbulenta e veloz a atormentar o silêncio da noite, mas pelos vistos ele ultrapassou a dificuldade. Eu uma vez acampei ao lado de uma cascata no caminho para Bergen na Noruega e recordo-me de como o que nos parecera um sussurrar tão poético, a mim e à minha mulher, se transformou imediatamente num incómodo quando caiu a noite e quisemos dormir.

A si não me recordo de quando é que a vi pela primeira vez, mas deve ter sido antes das férias do Verão. Talvez em Abril ou Maio. Mas não sabia o seu nome. Eu costumava ir ao café onde você agora trabalha à tarde. Sentava-me na esplanada, saboreava a bica, bebia um copo de água. Fumava um cigarro, lia ou escrevia. Às vezes a menina que estava ao balcão a servir os cafés era já minha conhecida. Quando você apareceu, porém, devo ter registado a novidade. Imagino que gostei logo de a ver. Discretamente bonita, tímida, sóbria mas elegante na maneira de vestir e nos gestos, reservada nas palavras, a sua presença não podia passar-me despercebida. Mas nessa altura eu vinha ao café sobretudo na esperança de ver a outra rapariga que lá trabalhava, uma estudante de psicologia. Além de ser bela como as figuras adolescentes de alguns quadros italianos, essa menina irradiava, com o seu sorriso, as cores das suas tshirts e a sua vivacidade, alegria e sensualidade. E conversava connosco. Às vezes punha-se a varrer o chão diante de mim, queria ser vista e sorria. Aconteceu várias vezes. Garridice perdoável, ela era tão querida. Fazia-me boa companhia, era só isso.

A sua aparição, Laura, tornou a situação ainda mais interessante para mim: em vez de uma boa companhia, passava a ter duas boas companhias. Eu saía de casa, à tarde ou à noite sobretudo, porque estava farto de estar só. Um amigo com quem às vezes eu lá ia tomar um café também estava encantado consigo e falávamos nisso. Mas nessa ocasião eu creio que não prestei a atenção devida à sua beleza serena e silenciosa. Só recentemente, talvez por me ter entretanto separado da minha mulher, comecei a olhar mais para si e a imaginar como seria bom conhecê-la, falar consigo, irmos os dois passear para o campo. Gostava de lhe tirar fotografias. O seu rosto e a sua timidez inspiram curiosidade.

Com uma coragem de que não me julgava capaz neste momento, hoje até falei um pouco consigo. Perguntei-lhe outra vez o nome, voltei a referir-me a Petrarca e à Laura dele. Você ouviu-me e sorriu modestamente, baixando um pouco os olhos, como é seu costume. E quando nós dissemos, um amigo que me acompanhava e eu, que éramos portugueses, você disse:

– Ah! gostava tanto de ir a Lisboa, gostava tanto de ir a Portugal.

– A gente leva-a connosco da próxima vez, dissemos nós a brincar.

Disse eu, na realidade, porque o meu amigo nem prestou atenção. Pouco depois, confiante, embalado pela conversa, surpreendido com a sua gentileza, pedi-lhe o seu telefone e dei-lhe o meu. Foi fácil, foi simpático, fiquei surpreendido e contente. Depois, para estar seguro de que contava consigo, de que não estávamos ali num paleio inútil, perguntei:

– Se a convidar para almoçar comigo, você vem?

– Of course, respondeu você logo.

Não imagina como ao ouvi-la a minha tarde se encheu subitamente de cores e de música. Há quanto tempo é que eu não perguntava a uma rapariga aquilo que lhe perguntei a si? Nem me lembrava já. A minha vida estava longe de ser um mar de rosas nesses dias e essa espécie de carinho que me chegou com a sua atenção fez-me bem. Muito bem. Fui para casa a pensar que apesar de estar a atravessar dias um pouco complicados, uma zona de perturbação, tudo acabaria por arranjar-se. O facto de você, Laura, me ter prestado atenção, era um bom sinal, senão uma prova indiscutível de que eu estava de novo no bom caminho. A absurda solidão seria superada. Quando fui para casa pareceu-me que o carro deslizava melhor no alcatrão, sem esforço, silenciosamente. E eu olhava para as árvores à beira da estrada e sorria de novo.

Quando cheguei a casa sentei-me diante do computador e procurei na internet páginas sobre “Petrarca”. Numa delas encontrei uma breve biografia do poeta e alguns sonetos traduzidos. Mandei-lhe uma mensagem e o link para essa página. Aproveitei para lhe dizer que já a conhecia de vista desde o ano passado e que já então me tinha apetecido falar consigo. Desculpei-me de não o ter feito confessando que às vezes, embora não sempre, sou tímido. Por outro lado, escrevi eu também na minha curta mensagem, nunca sei bem como comportar-me neste país, as pessoas parece que têm medo umas das outras e são muito desconfiadas. Disse-lhe que apreciava a sua modéstia e timidez e que achava que conhecê-la e poder falar consigo, Laura, seria um privilégio.

Provavelmente excedi-me em gentilezas e assustei-a. Você, Laura, às vezes parece um passarinho compenetrado não se sabe em que pensamentos e meio assustado. Quando você mal levanta suavemente os olhos para as pessoas a quem está a falar, a gente pensa isso. Se a assustei, paciência. Eu sei que não disse nem fiz nada de mal. Você não respondeu à minha mensagem e eu pensei que provavelmente não tinha ido ver o seu email. Lembrei-me de que você me tinha dito que andava à procura de um emprego e que ia mudar-se para casa de uma amiga. E de que você me tinha confessado a sua enorme frustração por não ter sido capaz, depois de ter terminado a universidade, de encontrar um trabalho decente. Eu disse que gostaria de ajudá-la. Talvez um amigo meu precisasse de uma secretária, eu ia perguntar-lhe. Depois, para não a aborrecer, fui-me embora com o meu café e o meu copo de água sentar-me na esplanada lá fora.

À noite, preocupado com a hipótese de você não ter lido o seu email, decidi telefonar-lhe. Você atendeu com uma vozinha ténue, tímida, mas firme. Ouvi-la acariciou-me os ouvidos e a alma como um bálsamo. Quando se está muito tempo sozinho acontecem estes exageros. Também me fez pensar em duas mulheres que tinham sido importantes na minha vida, o que complicou mais as coisas. Elas também atendiam assim o telefone, com a voz ténue e quase tímida de uma criança.

Perguntei-lhe o que estava a fazer e se estava a incomodar. Você disse que estava a ler um romance de Steinbeck e que eu não incomodava nada. Mas disse isso falando baixinho, eu ouvia-a mal. Houve uma pausa e eu ouvi-a dizer:

– E então?

– Aborreço-me bastante, a minha vida neste momento está um pouco complicada, disse eu.

Você não comentou, não me perguntou porquê. Eu não me sentia muito seguro, estava ainda a tentar inventar qualquer coisa, encontrar um assunto que nos pusesse a falar descontraidamente. Perguntei-lhe se tinha recebido o meu email e você disse que sim, mas que ainda não tinha tido tempo de “trabalhar nisso”, o que me pareceu curioso.

A conversa estava assim meio que anda, meio que não anda, você parecia que queria falar mas ao mesmo tempo eu tinha a impressão que havia um problema. Então eu perguntei-lhe se estava sozinha e você disse que não, que estava com o seu namorado. Caramba, pensei eu. E percebi tudo de repente. Fiquei meio atrapalhado, reconheço. Em vez de continuar a conversa, tive medo de incomodar e comportei-me como se me quisesse esconder, envergonhado, debaixo da mesa. Que chatice, pensei.

– Ah, você tem um namorado, disse eu.

E murmurei:

– Eu não sabia.

E então pedi desculpa por ter ligado. Não estava nada contente comigo. Você disse que tudo bem, que não tinha importância nenhuma, que não havia problema. Mas eu despachei-me a dizer que, sendo assim ou de qualquer modo, a deixava em paz. Pedi outra vez desculpa pela interrupção, disse boa-noite e pousei o auscultador do telefone.

 

II

Fiquei desiludido comigo, senti-me estúpido. Que ela tivesse namorado ou não que me interessava a mim, o que é que eu tinha a ver com isso? Nada. Quantas raparigas tinha eu conhecido que apesar de dizerem que tinham um namorado me tinham beijado na boca e deixado acariciar-lhe os seios? Provavelmente o namorado dela era um namorado de passagem, nada de sério. Ela tinha-me dado o número de telefone, tinha-me prometido que ia almoçar comigo, o resto não tinha importância. Mas eu tinha-me comportado como um adolescente imbecil.

Depois compreendi: o soit-disant namorado, se estava sentado ou deitado ao lado dela ou perto, não percebeu certamente patavina da nossa conversa. Ela nem sequer disse nada que deixasse entrever com quem estava a falar. O uso da expressão “ainda não tive tempo de trabalhar nisso”, que não vinha a propósito ou não era uma resposta clara à minha pergunta, provava que ela tinha querido manter fora do alcance de outra pessoa a nossa conversa e a nossa quase inexistente relação.

Que burro que eu era, que inexperiente. Nunca aprenderia a viver no meio desta gente cheia de códigos de comportamento que me escapam e me parecem perigosos? E por causa disso, por ser um incompetente existencial, tinha de me contentar com uma solidão desoladora? De solidões desoladoras eu estava mais do que farto. Os anos que já perdera a viver sem ser amado! E nos livros e nos filmes andam todos aos beijos e envolvidos em paixões demoníacas, é uma provocação constante.

Fiquei sem saber o que fazer. Passaram uns dias e ela não respondia ao meu email, não me agradecia o livrinho com poemas de Petrarca que eu lhe tinha oferecido, no café, quando lá voltara no dia a seguir à nossa conversa telefónica. Nesta confusão de país, quando se trata de mulheres, pensei eu, desenvolto, se não telefonamos nem fazemos nada, somos uns anjinhos ou uns maricas; mas se tentamos fazer alguma coisa arriscamo-nos a passar por chatos, obcecados, maníacos ou tarados.

Eu pensava nestas coisas enquanto ia bebendo um vinho branco que a minha ex-mulher deixara no frigorífico quando passara uns dias na minha casa durante o Verão. Eram sete da tarde e a minha vida era tão absurda como imaginar uma barata a dançar o samba no cimo do Empire State Building. Vinham-me umas saudades monstruosas e um sentimento de culpa insuportável se me punha a pensar na minha segunda mulher, de quem acabava de me separar. Mas eu queria de volta era a primeira, queria ir com ela às compras, esperar por ela enquanto ela experimentava vestidos nas lojas. Fazia-me falta tê-la ao meu lado, mas eu sabia que não podia fazer nada para a recuperar. Ela e eu tínhamos desperdiçado tantas oportunidades de compreender que mesmo discutindo, mesmo protestando, mesmo queixando-nos, nos amávamos e necessitávamos um do outro. Eu sabia qual era a minha parte de culpa ou de responsabilidade no desastre da nossa relação, mas havia outras pessoas que também tinham, involuntariamente talvez, contribuído para nos afastar um do outro.

Enfim, quero lá saber, agora não me apetece pensar no passado, recordar nada disso. Laura, apetecia-me telefonar-te outra vez, falar contigo. Mas o teu namorado pode andar aí por perto e eu não tenho coragem para telefonar, não quero criar-te problemas ou ser simplesmente mal interpretado e mal recebido. Além disso, se já te intimidei com as palavras inocentes que te escrevi na curta mensagem que te enviei, o risco de voltar a assustar-te obriga-me a não fazer absolutamente mais nada. Sem contar que não acho bem meter-me nas relações já existentes entre duas pessoas e perturbá-las levianamente. Ficaria com remorsos, tanto mais que o meu interesse em conhecer-te, provavelmente superficial e passageiro, não justificaria que eu, sem querer, viesse a estragar uma relação que pode ser séria e merece ser respeitada.

Fiquei em casa a pensar nela, a lembrar-me de que no dia em que ela tinha falado comigo e me dera generosamente o número de telefone e o endereço de email, eu, enquanto ia conduzindo o automóvel, já estava a pensar que podia modificar a vida dela se ela quisesse. Que além de a amar a havia de proteger e ajudar, pôr fim aos seus problemas actuais. Havia de arranjar-lhe emprego, levá-la comigo a Lisboa e viajaríamos semanas e semanas por Portugal, num carro alugado. A ideia de ter um ou dois filhos com ela deixou-me feliz, sonhador, encantado. Eu sei, sempre fui um exagerado. Mas se se entender que todos estes projectos são fruto da solidão e manifestações agudas e irracionais de energia vital em mim, provavelmente poderei ser desculpado. Com os meus trinta sete anos eu não me conformava a passar os dias a arrumar livros na biblioteca da universidade. Para além dos livros e do emprego de bibliotecário que nem me desagradava tinha de haver outra vida, eu queria esquecer-me dos divórcios, queria ter de novo uma família. E, devaneando, já me tinha posto a ver na Laura a mãe ideal.

Laura, Laura, onde estás? Que estás a fazer? Porque não me telefonas? Bastava passarmos uns momentos a conversar ao telefone para tu entenderes que não há qualquer razão para desconfianças ou receios. Eu não sou mau tipo e até há quem me ache piada. E sou capaz de ser carinhoso se me deixam sê-lo. Queria levar-te a Itália e ao sul da França, procurar e descobrir contigo, deslumbrado e emocionado, o percurso de Petrarca, os caminhos por onde ele andou. Talvez fosse capaz de escrever eu mesmo alguns sonetos inspirados por ti e em que seria evocada a nossa alegria, a nossa paixão.

Laura, Laura. Eu dizia o teu nome na sala silenciosa e não acontecia nada. Não, nunca soube amar, pensei então. Nunca aprendi. Tive sorte, algumas mulheres perdoaram-me essa incapacidade, essa grave insuficiência, pelo menos durante algum tempo. Mas eu não merecia, nunca merecera nada.

 

III

O Pouilly Fumé acabou-se, fui à cozinha e tirei do frigorífico uma garrafa de Pinot Grigio. Abri-a, enchi um copo. Provei. Que diferença, meu Deus. E no entanto eu achava o Pinot Grigio em geral um substituto razoável para o Chablis. Não tinha nada a ver, dava-me conta agora. Tudo me corria mal neste malvado sábado de Outubro.

Laura, Laura, minha Laura, minha querida, balbuciei eu com emoção, olhando para o tecto da sala. Porque não me telefonas, meu amor? Mas não obtive resposta. Nada. Niente. Zéro. Rien du tout. E continuei a beber.

Eu não ia desesperar, porém. Não é o meu género, nunca foi, sempre reagi às adversidades do destino com tenacidade. Não estou a pedir uma estátua nem medalhas, essas palermices nunca me interessaram. Estou apenas a constatar, ok? Pouco tempo passou ainda, apenas dois ou três dias sobre a nossa conversa e troca de números de telefone. Nada está por conseguinte perdido. É preciso é não ter pressa, manter a calma.

O sábado, esse sim, estava quase perdido. Mas ia passando. Eu ia bebendo o Pinot Grigio, não muito conformado, e fumando uns cigarros, convicto de que de uma maneira ou de outra, com Laura ou sem Laura, tudo acabaria por solucionar-se mais cedo ou mais tarde. Devia ter razão.