JONAS PULIDO VALENTE

 

 

 

 

 

 


Alfred Dreyfus


“Hora de acordar.” – Por mais gentis que fossem as auxiliares o despertar era sempre violento, como se tivesses dormido pouco.

“O menino é sempre o último.” – Rematou a auxiliar.

“São nove da manhã!!” – Queixei-me.

!Quando acordava prestes a sair da ala sonâmbula não tinha tempo nem de tomar um duche, oportunidade que só existia até às nove da manhã, e a única retrete na ala comum costumava estar a transbordar de merda. Passava-se pela parte administrativa com os seus doutores e casas de banho limpas para se lá chegar.

A comida era quase sempre uma merda. Petit Forrestier my ass.

Passava o tempo entre o pequeno almoço e o almoço a escrever, ou a tentar escrever, depois do almoço a nossa ala já estava aberta, logo ia direito para o colchão. O tempo passa mais rápido a dormir.

Nem todos os detidos eram portugueses. “Merry Christmas!” Gritava um, “Like Santa, Santa going down the chimney.”

Eu passei por ele e disse-lhe “Thirty billion years.”

“Whadduya mean?”

“I mean thirty billion years.”

“For what? What do ya do with that sorrt of time?”

“First you go mad” – disse-lhe. – “Because it’s thirty fucking billion years.”

“Then you go sane, from all that expanding madness.” – Continuei.

“Then you go mad again because of the stillness of it all.” – Concluí.

“Ah, I guess life isn’t made for taking in big slices.”

Tinha consultas de psiquiatria uma vez por senana, nelas tentava apelar ao lado humano dos médicos.

“Nem me deixam escrever. Quanto a ler as auxiliares dizem que me faz mal, escrever tive que conseguir a caneta e o papel às prestações, mesmo assim já vou em 48 folhas”.

“U-hum. U-hum. Sei da sua queixa quanto à escrita e leitura. E o menino, como se sente?”

“Melhor, a verdade é que creio que já fiz aqui o que tinha a fazer”.

“U-hum. U-hum. Tenho que ver outros pacientes agora, vemo-nos para a semana”.

Passei três horríficas semanas sem fumar. E pensam que me ensinou a deixar de fumar? Não, saí de lá e fumei como nunca tinha fumado. Era um bálsamo que não tocava a carne, alimentava directamente o espírito.

Foram três longas semanas, sem mal sentir uma brisa. A ouvir as tardes da Júlia, e uma M80 em volume mínimo no outro lado do corredor. Nem dava para distinguir a canção. Não que importe, não me dou com a maioria das estações de rádio que passam em Lisboa.

Foi dado como concluído o meu tratamento, mas ainda faltam trinta biliões de anos até chegar ao meu destino final.

E eles nunca perceberão isso.

Nem nós, como unidade familiar, se formos a ver bem.

Só tu, o teu espírito e talvez algo superior, passem esse tempo juntos.