Exmos.
Se soubesse que iríamos coincidir na esplanada esta manhã, eu teria tomado as cautelas necessárias. Foi muito desagradável ouvir aquele trecho de conversa matinal sobre o opróbrio da civilização, a superfluidade dos costumes, a iniquidade da justiça. Por questões ecológicas, escuso-me a comentar aqueles dois segundos de presença contígua à vossa mesa. Uma civilização não se edificou num dia, tão-pouco será na brevidade de um café que poderá vir a ser desmantelada. Vossas Excelências prosperavam com os maus augúrios e até os repetiam alto e bom som. Nenhuma civilização se edificou no estereótipo que é sempre atrevido, por isso deveriam saber que umas gotas de café filtradas pela raridade de uns raios de sol merecem o mais profundo silêncio. Vossas Excelências nunca se calaram! Se tivessem o conceito de cadeias intermináveis do Universo, se percebessem as suas complexas interconexões, teriam compreendido que eu estava a olhar minuciosa e demoradamente para um carreiro de formigas. Fui sempre muito afeiçoado aos esforços de outras espécies que, com alguma ordem e agudo sentido de pertença, caminham na vida sem atropelo. No caso das formigas, o mais que carregam são coisas invisíveis, muitas vezes uma palhinha, mas isso é uma espantosa exceção que até aos nossos dias continua a carecer de satisfatória explicação.
Não quis ficar ali a assistir às vossas ordenações conclusivas no diálogo. Ora um abria a boca, ora outro acorria com um “nem mais”, ora outro rebuscava com um “tal e qual”. Nunca aflorou algum sentido de distribuição equitativa, por exemplo , o “está-se mesmo a ver”!
Foram momentos de extrema tensão aqueles! Vossas Excelências abusaram do opróbrio da civilização, da superfluidade de costumes, da iniquidade da justiça…
Nada era o que era, nada na conversa mostrava a natureza verdadeira dos fenómenos e do que existe neste planeta Terra. Aqueles jovens que ali costumam estar todos os dias, são muito mais evidentes. Nada é o que é, tudo é “tipo isto”, “tipo aquilo”.
A ideia de que se estava a sair da letargia secular em que a civilização mergulhou na noite dos séculos, não vos acudiu ao pensamento. Não atentaram devidamente nas enormes dentadas que o jovem deu na sua sandes de presunto, não viram o homem que suspendeu o pacote de açúcar, quando a mulher o chamou a atenção sobre a diabetes. Se vissem, teriam dito “ah pois é”, mas não iriam a tempo, porque a eles se viria juntar o senhor das palavras cruzadas que suspende, por vezes, o jornal e proclama: este é um Tempo nado-morto. Mas eu estava com as formigas que caminham retamente nas suas operações certas sem rácio calculado na oferta na procura. Ele há coisas!
Saudades muitas!
José Ribeiro Marto

