JOSÉ RIBEIRO MARTO
Crónica
O Andar Nacional
Grandes descobridores são os portugueses!
É a um português que se deve a descoberta do movimento, cuja definição reúne dedo indicador apontado, fala e música: ´toca a andar daqui pra fora`. Não sei quem foi esse português, mas posso admitir que a descoberta tivesse sido disputada com os inventores do ´põe-te a andar daqui pra fora` e do ´põe-te a mexer daqui pra fora`, que queriam igualmente registar patente, mas dispensando a música. A esta luta de patentes ter-se-iam juntado os que afirmam que não houve invenção nenhuma, porque o abreviado ´andor`, alargado mais tarde para o ´andor que se faz tarde` ,foi criado por deus. Segundo estes defensores, o andor foi uma criação que abriu perspetiva ao movimento e tempo lusos, muito embora a procissão estivesse frequentemente no adro. Como estas disputas não tinham fim à vista e os portugueses andavam com a cabeça à roda, um dia um português deu um pontapé numa pedra e descobriu o ´andex`, que pressupunha o ´práfrentex`, dando assim uma orientação mais sintética à cabeça. A partir deste momento inaugural, nenhum português quis mais andar às arrecuas. Contudo, foram os políticos que andavam políticos ou feitos uns com os outros, os primeiros a encontrar no ´andex` um eixo de orientação nacional. Concentraram posições e proclamaram imediatamente que nenhum português podia ficar para trás. O país tinha de andar pra frente, todos tinham de olhar na mesma direção. Era preciso reunir os andantes lusos à volta do mesmo desígnio. Ninguém podia andar de qualquer maneira! O andex era inultrapassável, já que uns andavam por aqui e por ali, outros lá por fora. Esse ´deixa andar´ tornava-se inviável. Seria impossível andar de candeias às avessas! Uns não podiam iluminar aqui, outros ali, quem iluminava lá fora muito dificilmente iluminava cá dentro. Os portugueses tinham de andar pra frente! Certos estavam os que nos breves encontros, não se lembravam de alguma coisa e já à frente quando deram conta, não estiveram para voltar para trás.
Ficou-se a saber então que, se se vir um português a andar para trás e para frente, não se poderá pensar que anda a ´andar por andar`, que ´anda a apanhar bonés`, pois essa ideia é ilusória. Esse português, sabe-se por ciência sabida, mas esperta, que anda à procura do terceiro andamento. Houve um ponto de partida, haverá um ponto de chegada! Se anda para trás é para frente que anda, se anda pra frente é assim que deve andar. Se houver uma paragem nestas suas andanças, essa foi para ver se se encontrava o ponto intermédio. Esse português viu, ganhou fôlego e desandou, o que quer dizer andar, mas no sentido inverso, que é sempre para a frente. Se for numa subida, vemo-lo a andar de vento em popa e ao alto, se for numa descida anda cego ou com os olhos em bico.
Enquanto povo imparável, os portugueses andam de carro, mota, bicicleta, trator, a pé, ou de transportes públicos à cunha, porém, só alguns andam e vão de carrinho. Quanto aos que andam de carruagem pouco se sabe, pois quem os vê de fora, não sabe quem lá vai dentro. Descontem-se aqui uns quantos que usam franja e, que ao ver passar a carruagem, já não andam com a cabeça à roda, porque passaram a andar pelos cabelos que é a forma portuguesa mais moderna de andar.
Foi o ´práfrentex ` que deu disposição de andamento aos portugueses, daí que muitos andem um metro e caiam, outros andem aos caídos, grande parte a marcar passo, quase todos com disposição de andar um pouco. Por isso, vemo-los andar aos empurrões, outros à cacetada ou à lambada, outros optam por andar ao molho, outros a pedi-las. Mesmo que andem sozinhos entre gente, os mais solitários, esses andam a ver no que é que dá. Nestes vastos andamentos, há muitos que andam feitos, umas vezes sabe-se com quem, outras não se sabe, porque os portugueses são muito misteriosos e não andam por aí à toa.
Este povo é imparável e as suas andanças explicam-se. Quando andam em palpos de aranha, tal acontece porque andaram em coboiadas, no regabofe, na retouça ou na gandaia. Estas andanças observam-se claramente, porque uns andam com um olho à belenenses, outros com um braço ao peito, alguns andam coxos, ou com uma dor nas costas, outros ainda com a espinha tombada, ou mal de tudo definitiva e provisoriamente. Poderão andar políticos uns com os outros, ou de candeias às avessas, o que nunca andarão é de cavalo pra burro, porque a espécie cavalar anda à solta e a sina encontra-se protegida.
Há, no entanto, uma dimensão que sempre uniu os portugueses, mas paradoxalmente também sempre os diferenciou. Trata-se da meteorologia.
No Inverno muitos portugueses andam a tinir, no Verão quase todos andam à fresca ou em corpo bem feito, na primavera uma escassa minoria anda à cata ou a ver se chove, no outono alguns andam à coca, à nora ou ao tio- ao- tio.
Como o clima anda muito alterado, muitos andam sempre de guarda-chuva, porque quem anda à chuva molha-se, mas também há quem passe pelos pingos dela, ou ande a pedi-la aos que andam nas nuvens.
Contrastam enormemente os que andam à larga com os que andam ao largo, porque aos primeiros não lhes põem a mão, os outros andam sem paciência para andar atentos aos mouros que andam na costa.
As lides a que se dedicam alguns portugueses são diversas: andam na faina, andam desaparecidos, andam mortos de trabalho, andam a roubar, andam à espreita e à escuta, andam à coca, andam numa fona, andam a ver, andam na boa vai ela, andam à pesca, andam nos ministérios. Andam pelo beiço.
Contudo, já não há português que ande a monte, agora andam no terreno e estudam-no.
Na grande movimentação portuguesa que o andex tornou possível, nunca será demais lembrar a existência de outros seres que não sendo dotados de pernas, andam de modo diverso e gradual. É o caso dos processos judiciais que estão a andar ou têm pernas para andar, estão em fase de andamento ou estão a correr. Não se compreende muito bem que os portugueses não compreendam estas andanças e recorram exaltados à fase lúdica explicativa: andam a brincar com eles.
Estes portugueses não compreendem o essencial que há nas coisas. Se as coisas não andam nem desandam, será necessário empurrá-las, nada anda sem movimento, pois se até a Terra anda à volta do Sol e encandeia as pessoas.
Não nos esqueçamos aqui de cadeiras e mesas que têm pernas e andam. Não se trata de uma anomalia da natureza, compensada, no caso das cadeiras, com o encosto e no caso das mesas que se juntam na precisão e alvoroço, pois podem andar no ar. Será só preciso dar-lhes tempo!
José Ribeiro Marto, O alfabeto português

