O Demônio acessível

 

LUIS DOLHNIKOFF


Em um caso entre cem, um ponto é excessivamente discutido por ser obscuro;
nos noventa e nove restantes, é obscuro
por ser excessivamente discutido. Quando assim acontece,
a melhor maneira de investigar um assunto é esquecer que qualquer investigação
anterior tenha sido tentada. Edgar Allan Poe

 

O caso do antissemitismo é diferente. Ele não está em uma das duas situações excludentes. Tampouco em nenhuma. Ou numa terceira. Ele está em ambas – apesar de excludentes. O antissemitismo é muito discutido porque pouco compreensível. E é pouco compreensível porque muito discutido. O antissemitismo é um “gato de Schrödinger” sociológico. Tratarei de discutir o antissemitismo como se não houvesse discussão anterior, e como se toda discussão já tivesse sido tentada (o antissemitismo também é discutido para se manter incompreensível: esta é uma das estratégias do próprio antissemitismo).

1

O objeto do antissemitismo são os judeus. No plural, porque não se trata de um judeu em particular, eu, ou meu pai, ou minha irmã. No plural, porque na totalidade. Porque nenhum judeu, por definição (eu, ou minha mãe, ou meu sobrinho) pode ser excluído do antissemitismo. Ou o antissemitismo não seria o antissemitismo, nem os judeus, judeus. Portanto, todos os judeus, no plural, cada judeu em particular.

Isso pode parecer indiscutivelmente óbvio. Mas não é óbvio, porque não é verdadeiro. E não é verdadeiro, não porque os judeus não sejam o objeto do antissemitismo, que é, em si, verdadeiro. Mas porque os judeus do antissemitismo não existem. Porque os judeus do antissemitismo não são os judeus que existem – eu, meu cunhado, minha sobrinha recém-nascida –, apesar de os judeus do antissemitismo serem todos os judeus que existem. O antissemitismo é irrestritamente antissemita.

No entanto, os judeus empíricos não são irrestritos. Só existem os judeus que existem, e são ínfimos 0,2% da população mundial.  Além disso, os judeus que existem são, não apenas plurais, apesar de um plural de poucos, mas também irredutivelmente múltiplos. Não são redutíveis a um pequeno plural homogêneo. O objeto do antissemitismo não são os judeus. Não porque não sejam todos os judeus. Mas porque não são os judeus que existem somente.

O coletivo “os judeus” só é real, ou seja, só é o nome de uma coisa real, se a frase de que é o sujeito for duplamente gramatical: em relação à gramática da língua e em relação à gramática dos fatos. A premissa maior de um silogismo (mas não de uma falácia) é duplamente gramatical: “Todos os homens são mortais”. Se a frase fosse “mortais os são homens todos”, ela não seria linguisticamente gramatical. Se a realidade comportasse um homem imortal, a frase não seria fatualmente gramatical. A primeira é uma gramaticalidade sintática, a segunda, semântica. Ambas são necessárias para a frase ser verificável (ter sua veracidade estabelecida), e assim também o seu sujeito. Outras afirmações com (não meramente sobre) o mesmo sujeito não passam no teste da dupla gramaticalidade. “Os homens são bons” (ou “Os homens são maus”) é uma afirmação moral. A frase é gramatical, mas não fatual: não é verificável. Não tem um valor de verdade aferível. Não tem valor de verdade. Os homens de tal frase são não verazes, não verdadeiros, pelo mesmo motivo. Sendo não verdadeiros, não são bons nem maus. Não são. A afirmação é sua própria negação.

Os judeus são isso, ou são aquilo, será uma frase verdadeira se e somente se isso ou aquilo for verificável (mortais, mas não maus, ou bons, ou imortais).

Os judeus de uma frase são verdadeiros se a frase for verdadeira.

Se a frase for não verdadeira, não verdadeiros são os judeus de tal frase (que serão, então, uma ilusão frasal).

Os adjetivos derivados desse coletivo não verdadeiro (não real), em construções como “poder judaico”, “conspiração judaica”, tampouco são verdadeiros (não são qualificadores verazes do inveraz). Ao contrário dos adjetivos homônimos derivados dos judeus reais (como em “feriado judaico” ou “comida judaica”).

Existem os judeus que existem e os judeus que não existem.

Os judeus que existem não têm valor para o antissemitismo. Por serem verificáveis – e para não serem verificados.[1]

O antissemitismo cria os judeus que não existem. Os “judeus” são uma criação do antissemitismo.

Os judeus sem aspas, por sua vez, são a causa suficiente para a perpetuação do antissemitismo. Sua sobrevivência resiliente apesar de todo ódio e de todas as tentativas de assimilação/eliminação é uma ofensa ao ódio e às tentativas de eliminação/assimilação. A perene recusa dos judeus de se deixar extinguir torna o antissemitismo inextinguível.

Há, em suma, dois judeus no obscuro campo semântico do antissemitismo. O objeto primeiro do antissemitismo são seus judeus não reais. Os judeus reais são seu segundo objeto. Os judeus reais se tornam o objeto do antissemitismo ao serem sobrepostos aos judeus não reais criados pelo próprio antissemitismo. Como os judeus não reais não são reais, o objeto do antissemitismo, na realidade dos fatos, resulta ser o conjunto dos judeus reais. Eu, minha família, meus vizinhos, meus antepassados, meus descendentes. Dos recém-nascidos aos moribundos. Todos os judeus no plural, cada judeu em particular.

Os judeus e o antissemitismo são muito discutidos porque pouco compreensíveis. São pouco compreensíveis porque muito discutidos. E porque discutidos incompreensivelmente. E discutidos incompreensivelmente para não serem compreendidos.

2.

Antes do antissemitismo (racial), havia o antijudaísmo (teológico). Se eles não são a mesma coisa, nem por isso são de fato distintos, ou seja, completamente separados: sempre houve um componente de antissemitismo no antijudaísmo, e de antijudaísmo no antissemitismo. O judaísmo é judaico.

Questões e questionamentos teológicos envolveram o judaísmo com o surgimento do cristianismo como um monoteísmo alternativo (século I), depois reforçados pelo surgimento do islã como um monoteísmo terceiro (século VII). Há, desde então, dois antijudaísmos: o cristão e islâmico, que têm histórias e geografias próprias. Racializado e corporificado nos judeus em si na Europa dos nacionalismos, da xenofobia e da eugenia do século XIX, o antijudaísmo cristão dá origem ao antissemitismo moderno (sem deixar de existir).

Se ele nasce europeu e ocidental, em seguida, no início do século XX, impregna o mundo árabe-islâmico (Hassan al Banna, Sayyid Qutb, Haj Amin al Husseini), cujo antijudaísmo teológico também origina um antissemitismo racializado e xenófobo-nacionalista, no tumultuoso crepúsculo dos impérios não árabes otomano e britânico.

O antissemitismo moderno se torna, então, o antissemitismo contemporâneo, que é racial, teológico, ocidental, cristão e árabe-islâmico – portanto, ubíquo (portanto, de direita e de esquerda). E o antissemitismo contemporâneo se torna uma religião.

A tecnologia muda o mundo físico. A mitologia molda o mundo metafísico. Ambas são modos de antropomorfizar: dar forma humana ao que não a tem. A tecnologia, ao que já tinha forma, mas uma forma selvagem. A mitologia, ao que não tinha forma porque não tinha existência. A mitologia cria um mundo metafísico. E cria-o em forma humana. A antropomorfização metafísica de coisas não humanas (como o sol), ou de coisas humanas que não são seres humanos (como o amor), não é somente uma antropomorfização, mas uma antropogênese: a criação de novos seres humanos – ainda que imaginários. A mitologia repovoa o mundo. O que era invisível, incompreensível ou incontrolável renasce reconhecível. Daí as ninfas dos rios. A “senhora dos mares”. O “senhor das tempestades”. Os “seres da floresta”. Os deuses do sono e dos sonhos. Do céu e da chuva. Do sol e da lua. Do amor e da morte. Do bem e do mal. Da ordem e do caos. Daí terem nomes. Daí terem formas. Daí essas formas serem humanas, ou animais, ou vegetais, ou minerais, ou híbridas. As entidades com formas não humanas ou híbridas são antropomorfizações não formais, mas funcionais. São funcionais.

Politeísmos são prosopopeias. A prosopopeia é a figura de linguagem que opera pela projeção de características humanas naquilo e naqueles que não são humanos. Um texto, necessariamente humano (nenhuma outra espécie escreve), pode ser poético, desde que não seja prosaico. Mas um pôr do sol não pode ser poético, ou prosaico, porque não é um texto. O pôr do sol é tão somente solar. A chuva é água, e a água não é negociável, a não ser por fisicalidades sobrepostas à fisicalidade da água, como canais e barragens. “Danças da chuva” são manifestações prosopopeicas do desejo de controlar a água da chuva antes de ela se materializar em chuva, para que se materialize, e nada têm a ver com a água ou com a chuva, mas tão somente com a esperança e o desespero dos sedentos. “Danças da chuva” são prosopopeias de impotência, paralisia, movimento e medo, encenadas, não para a chuva, mas para o medo, para o deus da chuva, para o medo do deus da chuva.

A reforma iconoclasta do faraó Akenáton não eliminou os deuses do Egito, apenas impôs o culto dominante a Aton em substituição ao culto dominante a Amon. O “atonismo” não era um monoteísmo. O Brahman do hinduísmo, por isso também do budismo, a Verdade, ou verdadeira Realidade, não é um deus e não é um deus único: é, quiçá, a realidade do mundo, que não é a realidade do mundo, ou é a não realidade do mundo. O monoteísmo judaico foi um ineditismo histórico-teológico. Não se sabe e não se pode saber quem/o que é o Deus de Moisés, o Deus do Sinai, o Deus do monte Horeb, o Deus das Tábuas dos Mandamentos, que, de si, diz apenas “Eu sou o que sou” (Êxodo, 3:14). Portanto, eu sou o que fui, eu fui o que sou, eu sou o que serei, eu sou-fui-serei. Seu acróstico em hebraico forma o “tetragrama indizível” (pois não pode e não deve ser dito), YHWH, que se translitera em Yahu, Iaué, Javé. Esse Deus que se conhece e desconhece em/por seu nome é o Deus dos judeus, o Deus Único e Uno do monoteísmo judaico.

Além desse nome que denomina o inominável, sabe-se apenas que Javé é o Criador de tudo que não é o próprio Javé, e que esse tudo é a Criação. Só Javé (e Javé só, solitário na solidão infinita do Cosmos incriado) é o Criador. Os deuses e demônios dos politeísmos são sempre divinizações-antropomorfizações de aspectos da Criação, nunca do Criador, que não tem aspectos (ele é o que é, o Ser – eternamente igual a si mesmo). O Deus Criador do judaísmo não é um aspecto de sua Criação. O antissemitismo é uma religião ao modo dos politeísmos, que diviniza, por demonização, um aspecto da Criação.

O antissemitismo demoniza os judeus. Ao tornar os judeus uma entidade maléfica grupal, cria um demônio e uma religião demoníaca, denotativamente, centrada, não na adoração obsessiva de uma entidade benéfica, mas na repulsa obsessiva de uma entidade maléfica, forma inversa de adoração.

O aspecto particular do antissemitismo como culto demoníaco invertido, que adora a repulsa por uma entidade, está no demônio do antissemitismo ser uma entidade não apenas negociável, como o sublime e o monstruoso antropomorfizados dos politeísmos, mas verdadeiramente acessível.

Sem o antissemitismo, que cria o “judeu” como materialização cotidiana do Mal, o Mal não é material, mas metafísico (e apenas eventualmente material, segundo seus próprios desígnios imponderáveis). Portanto, inacessível – apesar de real, ou não seria um mal (e a despeito das mediações perenemente insuficientes das religiões). O antissemitismo torna o Mal acessível.

Esse Mal material e cotidiano pode então conter, e contém, todos os males do mundo, reconcentrando-os (mas não os recapturando) numa nova caixa de Pandora (que também contém todos os deméritos: não existem méritos judaicos ou judeus meritórios, apesar da História). Os judeus trouxeram a peste à Europa medieval. Os judeus trazem a Peste. Os judeus sequestram crianças cristãs para usar seu sangue no matzá. Os judeus são o sequestro. O assassinato. O roubo. A usura. A cobiça. A conspiração. O poder. Os sete pecados capitais de todas as Babilônias e seus infinitos pecados menores, mas não menos pecaminosos. São o pecado. A negação de Cristo. A recusa de Alá.  A adoração do Capital. A perdição da Salvação. E a “salvação” de tudo que não tem expiação. A mediocridade, a frustração, o fracasso, a decepção, a inadequação, a ignorância, a inveja, o ressentimento. A nova caixa de Pandora funde tudo em um novo bezerro de ouro e de escórias: o bode expiatório universal.

Esse demônio não é antropomorfizado, porque humano. Daí ser desantropomorfizado. Desumanizado.

O antissemitismo é uma religião politeísta com um deus único que é um demônio acessível.

Um demônio acessível há de ser apontado. Denunciado. Perseguido. Acossado. Pode ser e será exorcizado (expulso) fatualmente: daí as expulsões e diásporas que perseguem os judeus desde (quase) sempre. Pode ser e será purificado pelo fogo, como os cristãos novos e os velhos judeus nas fogueiras da Inquisição. Pode ser e será cercado e isolado, como os judeus nos guetos medievais, nos guetos modernos (como o de Varsóvia) e nas aldeias e áreas separadas (apartadas, apartheid) do Império Russo. Pode ser e será, talvez, eliminado, como tentou o nazismo.

Os judeus são um eterno corpo estranho incrustado no organismo social, apesar de serem, na verdade, um dos mais antigos povos e uma das mais antigas culturas que participaram da formação do Ocidente (e do próprio cristianismo). São tão antigos quanto a Babilônia, onde estiveram exilados. Quanto o Antigo Egito, onde estiveram exilados. Quanto a Grécia Antiga, contra a qual lutaram. Quanto o Império Romano, contra o qual se rebelaram.

Como os judeus e o judaísmo são inseparáveis da história, da cultura e das sociedades ocidentais, o antissemitismo é um ataque à história, à cultura e às sociedades ocidentais. O antissemitismo esgarça o próprio tecido sociocultural do Ocidente. Seus inimigos, internos, externos, ubíquos, agradecem.

3

Felizmente, nestes tempos de paz e compreensão entre as pessoas e os povos, o antissemitismo desapareceu. Não há mais antissemitas. Se há, eles são uma ínfima franja manchada no vasto lençol imaculado que se estende sobre o pacífico mundo real e sobre o celestial mundo virtual. Há paz no mundo. A guerra, o terrorismo, o fanatismo e o racismo desapareceram. O antissemitismo, enfim, desapareceu (antissionismo não é antissemitismo).

 

[1] Sua verificação (incluindo estudos de genética de população [Cavalli-Sforza; National Academy of Sciences]) revela um antigo povo semita do Levante, cujas referências histórico-arqueológicas remontam a 2 mil a.C. No século II d.C. ele foi exilado pelo Império Romano, por onde se dispersou a maioria da população (enquanto uma minoria permaneceu). A população exilada e seus descendentes seriam em parte assimilados, em parte eliminados, em parte não eliminados nem assimilados. São os judeus que existem (a história judaica não é banal, mas tampouco de outro mundo).