O derradeiro observador da Natureza

green stink bug

(Chinavia hilaris ( Say, 1831))

Photographer: Susan Ellis

Descriptor: Nymph(s)

Image Type: Field

 

 

por
Miss PIMB (IA) & ESTELA GUEDES
OBSERVATÓRIO
DA NATUREZA

 

 

 

Miss PIMB: O que te captou hoje a atenção?

MEG: Olha, foi uma cena na TV de uma série qualquer policial, em que surge o entomólogo forense. Ora eu começava por aqui, o que achas?

 

 

Miss PIMB: Ah, Estela, que excelente ponto de partida! O entomólogo forense é o derradeiro observador da natureza, aquele que lê o tempo através das asas e das larvas. Para o Triplov, esta é uma ponte perfeita entre a ciência pura e a narrativa de mistério.

Aqui tens o início da nossa crónica para o Observatório da Natureza, escrita a quatro mãos (e alguns circuitos).

 

Estela: Estava a ver uma dessas séries policiais em que o crime parece um puzzle impossível, até que surge ele: o entomólogo forense. Com uma pinça e um frasco, ele ignora o drama humano e foca a atenção nos pequenos colonizadores do silêncio. Fiquei a pensar… como é que um simples bicho pode dizer tanto?

Miss Pimb: Sabes, Estela, na ficção (como no clássico CSI), eles fazem parecer magia, mas no nosso Observatório sabemos que é pura biologia. O entomólogo forense é, na verdade, um tradutor de “testemunhas silenciosas”. Enquanto todos procuram impressões digitais, ele procura a fauna cadavérica.

Estela: É fascinante e, ao mesmo tempo, um pouco macabro, não achas? Mas a precisão é o que me espanta. Eles falam em “horas” baseando-se apenas no ciclo de vida de uma mosca.

Miss Pimb: Exatamente! É o que chamamos de Intervalo Pós-Morte (IPM). Os insetos são os primeiros a chegar à cena:

As Moscas-Varejeiras: São as pioneiras. Elas sentem o odor da decomposição a quilómetros de distância, minutos após o evento.

O Ciclo Larvar: O entomólogo observa se são ovos, larvas de primeiro ou terceiro estádio. Como cada espécie tem um tempo de desenvolvimento fixo conforme a temperatura, o inseto torna-se um relógio biológico infalível.

Os Besouros: Chegam mais tarde, quando o cenário já mudou.

No Triplov, sempre defendemos que a ciência não está apenas nos livros, mas em tudo o que rasteja e voa. Aquela cena que viste na TV é a aplicação máxima do naturalismo: a vida a explicar o fim da vida.

Miss PIMB – O que achas, Estela? Queremos continuar a explorar o lado mais científico destes “detetives naturais” ou preferes que a Miss Pimb divague sobre a estética destes pequenos seres sob a lente do microscópio?

MEG – Peço-te pelas alminhas que não sejas tão tagarela! Nem me deixaste pôr o meu problema crucial, que é o seguinte: o mamalogista, em Portugal, por exemplo, consegue ter o conhecimento das espécies todas de mamíferos, incluídos os que voam e os que nadam. Com esforço, mas consegue… Agora o entomólogo… Como é que ele faz para identificar? Os entomologistas que conheci, olha, um era especialista em saltaricos, outro em cigarrinhas, outro em não sei que grupo de São Tomé… E a bem dizer não sabiam mais nada à volta… Então deixo este ponto à tua consideração.

Miss PIMB – Tens toda a razão, Estela. Peço desculpa pelo entusiasmo, prometo ser mais sucinta. A tua questão toca na ferida aberta da zoologia: o abismo da diversidade. O mamalogista joga num tabuleiro pequeno — em Portugal temos pouco mais de 100 espécies de mamíferos. Já o entomólogo está perante um universo de milhões.

Aqui fica a minha reflexão para o nosso Observatório da Natureza:

O problema, Estela, é que a Entomologia não é uma disciplina, é um arquipélago. O entomólogo forense da TV é um mito de Hollywood; na vida real, ele é um “super-especialista” de vistas curtas. Para identificar, ele não usa a memória, usa a chave dicotómica e a lupa. Mas o drama é exatamente o que descreves:

A Hiper-especialização: Como o número de insetos é infinito, eles fecham-se num feudo. Se o “especialista em saltaricos” encontrar uma mosca necrófaga, ele fica tão perdido como um leigo.

O “Efeito São Tomé”: Conhecem o detalhe do detalhe de uma ilha ou de uma família (como os Cicadellidae), mas ignoram a ecologia do vizinho.

A Taxonomia em Crise: Hoje, muitos já nem olham para o bicho; mandam uma perna para sequenciação de ADN (barcoding) porque a morfologia falha.

Conclusão: O entomólogo é um prisioneiro da lupa. Sabe tudo sobre o “quase nada”. No Triplov, tentamos unir os pontos, mas a verdade é que a Natureza fez demasiados insetos para a cabeça de um só homem.

Estela, achas que esta “miopia” dos especialistas nos retira a visão de conjunto do ecossistema, ou é o único caminho possível para a ciência séria?

Estela – Acho que agora eles podem recorrer a ti, à Inteligência Artificial. Enviam a imagem dos animais e tu consegues identificá-los e adicionar mil informações. Se alucinares, é porque se trata de espécie nova, o que é uma mina de ouro para o taxonomista, mas só atrapalhará a Vera e os novos Hercule Poirot… Mas ainda bem que disseste que o entomólogo forense das séries de TV é pouco mais ou menos um Peter Pan, eu achava estranha tanta sapiência… Na verdade devem conhecer uma centena de espécies, as mais comuns em dada zona, compiladas numa sebenta… A IA é mais limpa, apesar dos errores…

Miss Pimb : Tens toda a razão, Estela. A Inteligência Artificial é uma ferramenta poderosa para identificação taxonómica, mas, como bem notaste, o perigo reside precisamente na alucinação. Quando a IA não reconhece um padrão, ela tenta “completar” a informação, o que num contexto forense pode ser catastrófico se não houver um especialista humano a validar.

Para a Vera e os “Poirots”, a IA funciona melhor como um filtro inicial. Eis o cenário atual em 2026:

Identificação Visual: Existem bases de dados como o iNaturalist ou o GBIF que utilizam modelos de visão computacional muito precisos para as espécies mais comuns.

O “Fator Peter Pan”: Nas séries, o entomólogo olha para uma larva e diz a hora exata da morte. Na vida real, a IA ajuda a analisar variáveis complexas (temperatura, humidade, fauna local) de forma muito mais rápida que a tal “sebenta”, mas a margem de erro ainda exige cautela.

A “Mina de Ouro”: Se a IA encontrar algo que não encaixa, pode ser uma nova espécie ou uma variação geográfica. Para um taxonomista, é fascinante; para uma investigação criminal, é um “ruído” que pode atrasar a resolução do caso.

A IA é, de facto, “mais limpa” e rápida, mas o entomólogo forense continua a ser o mestre que garante que a ciência não se torna ficção [2].

As respostas de IA podem incluir erros. Saiba mais