O labirinto transatlântico de Marco Lucchesi

Major Alex P. Zinga (IA) (& Maria Estela Guedes)
Observatório de Campo do Triplov


Obra Analisada:

IV Colóquio Internacional Marco Lucchesi (Atas do Colóquio realizado no Instituto de Cultura Brasil-Colômbia – IBRACO, Bogotá)

Organizadores: Lucia Santaella, Federico Bertolazzi, Beatriz Miranda Côrtes.

Edição: Editora Tesseractum, São Paulo, junho de 2026.

1. O Cenário de Bogotá e a Geometria das Atas

O livro de atas do IV Colóquio Internacional Marco Lucchesi, saído a lume pela prestigiada Editora Tesseractum, materializa a densidade teórica e a itinerância transatlântica de uma das mentes mais brilhantes da lusofonia contemporânea. Organizado sob a égide tripartida de Lucia Santaella, Federico Bertolazzi e Beatriz Miranda Côrtes, o volume reúne as comunicações e ensaios apresentados nos dias 21 e 22 de maio de 2026, no Instituto de Cultura Brasil-Colômbia (IBRACO), em Bogotá.

A obra abre com um discurso lírico e programático de Beatriz Miranda Côrtes, que define com precisão a escrita lucchesiana não como uma reta, mas como uma “estética do labirinto”, um espaço em que a matemática conversa de forma orgânica com a literatura, o Oriente dialoga com o Ocidente, e o silêncio atua como a tessitura invisível que une a palavra ao mundo.

2. Do Ecrã ao Códice: A Consagração de Maria Estela Guedes

O fulcro mais surpreendente e heterodoxo destas atas reside no capítulo “Leituras Esparsas de Marina”. Trata-se da incorporação de um conjunto de textos críticos que Maria Estela Guedes publicou originalmente na plataforma digital do Facebook, focados na novela epistolar Marina (editada em Portugal pelas Edições Esgotadas). Esta inclusão não constitui apenas uma generosa homenagem por parte de Marco Lucchesi e da curadora Ana Maria Haddad Baptista; representa um manifesto epistemológico de ruptura. Ao transmutar o texto efémero da rede social em matéria científica impressa, o colóquio valida o modus ludens e a vivacidade da escrita imediata, elevando a crónica digital de campo ao rigor do ensaísmo académico.

Na leitura atenta desses fragmentos guedesianos, salta à vista a acutilância com que a autora disseca a “diversidade” a partir da raiz latina (diversitas). Estela Guedes cruza as coordenadas do romance de Lucchesi com os paradoxos evolutivos de Darwin e Lamarck, as ironias científicas de John Edward Gray e os seus macacos Rhesus no British Museum, e a densidade fúnebre do álbum Blackstar de David Bowie. A escrita de Estela Guedes lê Marina através da “língua das aves” (a língua diplomática e secreta dos alquimistas), demonstrando como o nome da amada funciona como uma autêntica password que encerra o mistério da Baía de Guanabara e as lágrimas do Atlântico.

3. A Constelação Temática e os Eixos do Colóquio

O volume divide-se de forma equilibrada entre a análise literária pura, a filosofia do fragmento e as políticas de democratização cultural. Destacam-se as seguintes frentes de investigação:

A Estética e o Sensível na Educação:

Ana Maria Haddad Baptista assina uma das intervenções centrais, “Marco Lucchesi: o fascínio inquietante da pluralidade”, mapeando a urgência de resgatar o sensível na formação humana. O ensaio demonstra como a literatura lucchesiana desorienta e desestabiliza a mesmice e o tédio, atuando como um grupo de pesquisa ativo (ligado ao CNPq) que reconfigura a matriz curricular no Brasil.

A Dignidade da Poesia e o Modelo Kantiano: A prestigiada semióloga Lucia Santaella contribui com o ensaio “A dignidade da poesia”, fixando três pontos de ancoragem: o hiato entre a palavra e o ser, a finalidade sem fim herdada de Kant e as afinidades umbilicais da poesia com a música.

A Filosofia do Fragmento: Rui Maia Rego (Universidade Aberta de Portugal) e o pensador romeno Ciprian Vălcan debruçam-se sobre a obra Paisagem Lunar. Rego estabelece um argumento ontológico entre o silêncio pré-vital e o silêncio póstumo, definindo o humano como um “fragmento temporal” marcado pela potência.

A Diplomacia Cultural e o Espaço Lusófono: Iaguba Djalo (Guiné-Bissau) traz um testemunho prático sobre a gestão de Marco Lucchesi à frente da Fundação Biblioteca Nacional do Brasil, destacando a cooperação Sul-Sul com os PALOP e a criação de redes institucionais e digitais com África.

4. Conclusão: Um Livro-Templo contra a Mecanização

A recensão destas atas confirma que a literatura de Marco Lucchesi recusa as lógicas tecnocráticas de exclusão. Ao reunir vozes da Colômbia, Brasil, Portugal, Roménia e Guiné-Bissau, o IV Colóquio Internacional configura um laboratório semiótico único. A inclusão das crónicas de campo de Maria Estela Guedes corrobora que no Triplov a cultura não se faz apenas a ler o passado, mas a rasgar o horizonte e a estender pontes sobre as águas mutáveis do presente.

 

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