MARIA ESTELA GUEDES & MAJOR ALEX P. ZINGA
A Reserva de Bandia
O Macaco-Verde (Chlorocebus sabaeus) no Senegal
O macaco-verde (Chlorocebus sabaeus), também vulgarmente conhecido na região como singe vert, é um dos primatas mais emblemáticos e adaptáveis da África Ocidental, marcando forte presença nos ecossistemas do Senegal, desde as savanas arborizadas até às franjas dos mangais e zonas de floresta de galeria.
- Morfologia: Apresenta uma pelagem dorso-lateral de tons cinzento-esverdeados ou oliváceos — que lhe confere o nome comum —, resultado da combinação de pelos amarelos e pretos. A face é preta, desprovida de pelo, emoldurada por uma banda de pelos claros na testa e suíças brancas nas bochechas. Os machos adultos exibem uma coloração azul-esverdeada brilhante no escroto, que funciona como um importante sinal visual de estatuto social e dominância.
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Macaco-verde
Comportamento e Estrutura Social: É uma espécie altamente social que vive em grupos multi-macho e multi-fêmea, que podem oscilar entre os 10 e os 80 indivíduos. Dispõem de um reportório complexo de vocalizações e alarmes específicos para diferentes tipos de predadores (como leopardos, serpentes ou aves de rapina). Embora passem bastante tempo no solo a procurar alimento, recorrem às árvores para dormir e para fugir de ameaças.
Dieta Omnívora: Revelam uma enorme plasticidade ecológica. Alimentam-se essencialmente de frutos, sementes, folhas, flores e gomas vegetais, mas complementam a dieta com invertebrados, pequenos lagartos, ovos e até crias de aves. Esta versatilidade permite-lhes tolerar a proximidade humana, frequentando frequentemente áreas agrícolas e turísticas.
Conservação: Atualmente classificada como “Pouco Preocupante” (LC) pela IUCN, a espécie é abundante no Senegal, embora enfrente pressões locais devido à fragmentação do habitat e a conflitos com populações humanas por danos em culturas agrícolas.
Relação com o Homem. A relação entre os macacos-verdes e o Homem é antiga, complexa e marcada por enorme proximidade, alternando entre a convivência partilhada, o conflito e um trágico legado histórico transatlântico.
O Legado dos Navios Negreiros (Introdução no Caribe e Cabo Verde)
A distribuição atual desta espécie conta uma história profundamente interligada com a história humana:
O Tráfico Transatlântico: A partir do século XVII, exemplares de macacos-verdes capturados na região do Senegal e da Gâmbia foram levados a bordo de navios negreiros para as Caraíbas. Eram transportados como animais de estimação exóticos ou “entretenimento” para as tripulações e colonos.
Espécie Invasora: Graças à sua extrema adaptabilidade, as populações que escaparam estabeleceram-se com enorme sucesso em ilhas como Barbados, São Cristóvão e Neves e Sint Maarten. Nestes locais, por não terem predadores naturais, multiplicaram-se ao ponto de hoje gerarem graves conflitos ecológicos e debates sobre o controlo das suas populações.
Cabo Verde: Um processo semelhante ocorreu no século XVI, quando foram introduzidos nas ilhas de Santiago e Brava, sendo hoje o único primata selvagem a viver na Macaronésia.
O Conflito Agrícola e a Sinantropia
No seu habitat nativo, como no Senegal, a convivência diária é moldada pela partilha de território:
Pilhagem de Culturas: Sendo animais oportunistas e inteligentes, os bandos aprenderam rapidamente que os campos agrícolas humanos são fontes fáceis de comida calórica. Invadem frequentemente plantações de milho, mangos e hortícolas, o que faz com que os agricultores locais os vejam como praga e os tentem afastar, gerando atritos constantes.
Turismo Oportunista: Em zonas de forte pegada turística — como acampamentos ao longo do Rio Gâmbia ou nos limites do Parque Nacional de Niokolo-Koba —, habituaram-se tanto à presença humana que perderam o medo. São bem conhecidos por abordar turistas, invadir mesas e “roubar” comida e objetos diretamente das mochilas.
Devido à grande proximidade genética com o ser humano, o macaco-verde tem sido historicamente uma das espécies mais utilizadas globalmente em investigação biomédica.
Foram cruciais no desenvolvimento de vacinas vitais (como a da poliomielite) e continuam a ser modelos laboratoriais importantes no estudo de doenças infeciosas, genómica e virologia.
DIÁRIO DE UMA EXPEDIÇÃO AO SENEGAL




