O MAGA, o GCAA e a APDH

 

 

LUIS DOLHNIKOFF


O governo Trump é tal que faz pensar em um antigo apresentador de televisão brasileiro. Não por acaso: Trump é um antigo apresentador de TV. O brasileiro em questão se chamava Chacrinha. Entre suas várias frases famosas, esta se destaca: “Eu vim para confundir, não para explicar”. Chacrinha tinha alguma garça. Trump não tem nenhuma, apesar dos esforços em contrário e de ele gostar, muito, das próprias piadas. Mas Trump não confunde porque o queira. Confunde por ser confuso. Seu governo é confusamente disfuncional. Não governa seu vai e vem. É governado por amadores (incluindo comentaristas de TV e corretores de imóveis), a começar do próprio Trump, que é um grande negociador do mercado. Mas a política não é um mercado, apesar do que Trump crê e do que dizem os progressistas. Estados têm interesses, mas também têm valores. Trump parece acreditar que esses interesses são sempre e somente os sinônimos de lucro, e que tais valores são monetários. Mais marxista impossível (“É a economia, estúpido”). Há os que o adoram.

Entre esses deveriam estar os progressistas. Trump, afinal, está realizando o ansiado e ansioso sonho do fim do “Império Americano”, ao desmantelar a confiança no dólar pelo fim da racionalidade na condução da economia americana, ao minar o soft power da diplomacia e das alianças, ao diminuir a projeção do hard power ao questionar a Otan, confrontar aliados e fazer acordos intempestivos com inimigos. Ele é o Grande Cavaleiro do Apocalipse Americano (GCAA). Mas os progressistas não sabem o que fazer. Não podem adorar Trump, mas tampouco, no fundo confuso de suas certezas maniqueístas, podem rejeitá-lo, pois ele personifica o ansioso e ansiado GCAA. O GCAA lidera o MAGA, enquanto deixa os progressistas confusos parta trás, imersos e submersos na própria confusão profunda (o Partido Democrata que o diga, quando parar de balbuciar).

O GCAA fez há pouco um acordo de paz em separado com os houthis do Iêmen, garantindo a segurança da navegação americana no estreito de Bab Al Mandeb (que separa o Oceano Índico do Mar Vermelho e dá acesso a Suez) e escanteando Israel na mesma semana em que os mesmos houthis lançaram um míssil balístico em Tel Aviv e quase atingiram o maior aeroporto do país, o Ben Gurion. Alguns pretendem que isso é coerente com o AF (America First) do GCAA. Mas na verdade é coerentíssimo com seu TFAAA:  Trump First, Anywhere And Anytime.

Trump quer ser conhecido e reconhecido como o GPDM: Grande Pacificador do Mundo. Não pela paz, não pelo mundo, mas por Trump, que quer ardentemente ganhar o Nobel da Paz, segundo o próprio PGPDM (Pretenso GDPM).  Os houthis garantiram que continuariam a atacar Israel, o que deixou o GCAA (vulgo GPDM) pacificamente indiferente.

Assim se explica, ainda que não se justifique, o acordo do GCAA-que-quer-ser-o-GPDM ter, paradoxalmente, permitido aos houthis manterem seus arsenais. Se os houthis continuarem com seus ataques a Israel, mas o GCAA puder posar de GDPM, porque garantiu a paz da navegação no Al Mandeb, tudo bem e muito bem.

Enfim, os houthis mantêm seus mísseis. Portanto, a ameaça à navegação no Al Mandeb continua efetiva. Como o GCAA pôde aceitá-lo não exige mais análises. Seu interesse pessoal e seus interesses privados são seu grande valor. O que exige análise, questionamento, explicação, esclarecimento, compreensão, exegese, heurística e hermenêutica é por que o mundo não pulveriza os houthis de uma vez.

Os houthis são um grupo terrorista porcaria (especialmente se comparado ao Hamas e ao Hezbolá) de um dos países mais pobres do mundo, que luta para… Não se sabe ao certo. O que se sabe é que luta pelo Irã, do qual recebe armas, treinamento e dinheiro. Durante algum tempo, atacaram a vizinha Arábia Saudita, porque ela, sunita, é o grande inimigo regional do Irã xiita depois de Israel. Após o 7 de Outubro, os houthis passaram de repente a atacar Israel e também o estreito de El Mandeb, que passa pelo sudoeste do Iêmen. Os houthis não têm nenhum interesse geopolítico, no sentido clássico, na guerra entre Israel e o Hamas, em Israel ou na Faixa de Gaza, com os quais não têm fronteiras.  O que move os houthis tampouco é um caso extremo e extremado de amor à causa palestina, mas de ódio a metade do mundo. O que move e comove os houthis é o antiocidentalismo antissemita alimentado pelo anti-israelismo travestido de antissionismo. Seu lema mais que explícito, inscrito em sua bandeira, é: “Alá é maior, morte à América, morte a Israel, maldição sobre os judeus, vitória para o islã”.  O explícito do lema é corroborado pelo ainda mais explícito das ações: os houthis agora atacam Israel e navios ocidentais no estreito de Al Mandeb – à exceção dos navios americanos, por obra e graça, principalmente esta, do GCAA.

Apesar de o GCAA considerar, na prática, aceitável que os houthis continuem a atacar Israel, nenhuma ameaça pode ser aceitável à navegação no Al Mandeb, um dos seis estreitos mais importantes do planeta (com os de Malaca, Gibraltar, Ormuz, Bósforo e Magalhães). Portanto, ou por tão pouco, por que o mundo não elimina a porcaria dos houthis de uma vez?

Os houthis são de fato uma porcaria (ou, em outra ordem, são a porcaria dos houthis: APDH), não no sentido prático de que não sejam deletérios, mas no sentido denotativo de que são um grupo terrorista de quinto mundo (o Iêmen é um dos países mais pobres deste pobre planeta) e de quinta categoria, que só existe belicamente por ser uma quinta-coluna iraniana no extenso arco do longo conflito árabe-israelense (que não é nem foi israelense-palestino: seu momento de maior intensidade foi a guerra de 1967, quando Egito, Síria, Jordânia e Iraque atacaram Israel). O grupo foi criado nos anos 1990, para combater o que ele afirmava ser a corrupção do então presidente iemenita Abdullah Saleh e proteger a minoria xiita local da maioria sunita. Seu nome vem de seu fundador, Houssein al Houthi (1959-2004). Se ele se chamasse Amir, eles seriam “os amires”. Talvez por isso também se autodenominem Ansar Allah, “os partidários de Alá”.

Então por que a APDH meteu a mão nessa merda, em primeiro lugar? Para fazer jus aos seus propósitos (“Morte à América, morte a Israel, maldição sobre os judeus”) e para seguir as ordens de seu mestre, o Irã. Mas os motivos estúpidos dos houthis são os motivos estúpidos da porcaria dos houthis. Portanto: por que o mundo não elimina a APDH de uma vez?

Por causa do Vietnã. Por causa do Iraque. Por causa do Afeganistão. E porque não se vencem guerras com bombardeios aéreos. E porque, por causa do Vietnã, do Iraque e do Afeganistão, ninguém (por exemplo, os Estados Des-Unidos e o Reino Ainda-Unido) pensaria em pôr tropas no sujo caos do Iêmen, o que seria necessário para eliminar a APDH. Sem uma invasão terrestre do sudoeste do país, onde a APDH atua, não há como vencê-la, no sentido de eliminá-la. E sem sua eliminação, sua ameaça ao estreito de Al Mandeb continuará.

Por enquanto, o GCAA consegui uma pausa, paga pela infâmia de um trato em separado de apaziguamento com a APDH, que sonha em destruir o Ocidente e o Pequeno Ocidente que é Israel no Oriente Médio (no que não estão absolutamente sozinhos), e de quebra matar o maior número de judeus que puderem (idem). O resto do mundo se cala. Parte comunga do antiocidentalismo da porcaria dos houthis (Rússia, China, Irã, Coreia do Norte, progressistas), parte não tem estômago para uma invasão terrestre do Iêmen (Inglaterra, França, Alemanha, Otan, UE). Somada a infâmia à covardia, os navios que vêm do Índico em demanda do Ocidente seguirão sem uma boa esperança de evitar ter de seguir rumo ao Cabo, e a APDH continuará, até onde a vista alcança, empoleirada no árido e miserável sudoeste do Iêmen, armada até os dentes podres pelo Irã e atacando Israel, enquanto não decide, ao seu bel prazer e não tão bela insanidade, reatacar a navegação do Al Mandeb.

Às vezes, é mais difícil entender do que explicar o incompreensível que amarga o dissabor da grande confusão contemporânea.