O meu 25 de Abril

 

 

MARIA HELENA CARVALHO DOS SANTOS


Em 1974 eu estava na Guarda havia já alguns anos onde fui Professora do Liceu com quase 300 alunos do 3º ao 7º ano, nas disciplinas de Português, História e OPA. Entretanto preparava o Doutoramento na Universidade de Coimbra com o Professor Doutor Silva Dias e mais tarde fui convidada para a Universidade Nova de Lisboa onde fundei a Cadeira de Estudos Portugueses.

Na madrugada do dia 25 de Abril o telefone tocou…Era a minha irmã, que morava em Lisboa, com a notícia da Revolução, acrescentando:  “é desta que a coisa vai…” e a ligação caiu.

A Rádio Renascença e a RTP transmitiram nesse dia fora do Horário habitual a notícia do que se passava com a revolução militar contra a ditadura… Mas o retransmissor para a Guarda ainda estava desligado a essa hora como era habitual na época.

Mas a TVE que captávamos com antena, também já estava a divulgar a notícia de uma revolução em Portugal… Mas sabia-se muito pouco ou quase nada… Interrogava-me sobre o que é eu que podia fazer? Os meus filhos ainda estavam a dormir e acordei-os… O meu marido também… Procurei umas Bandeiras Portuguesas que tinha em casa das últimas campanhas eleitorais… Era tudo do que eu precisava…

Fui com os meus filhos de carro até ao Liceu para falar com o Sr. Reitor e dar-lhe conta que eu estava com a Revolução e que por isso não ia dar aulas nesse dia… Mas como o Sr. Reitor estava em Lisboa, tive de falar com o Vice-Reitor que estava muito incomodado e não achou graça ao que eu lhe disse e reagiu muito mal educadamente como era apanágio dos homens da PIDE.

Despedi-me e com as bandeiras que tinha trazido fui rodeada por muitos alunos que queriam saber o que se estava a passar. Eu expliquei o que sabia… uma revolução contra Salazar… E distribuí as bandeiras… Dei-lhes a entender que devíamos participar na revolução e ir em manifestação para o centro da cidade… Não foi preciso mais nada e também se juntaram alguns professores…

Fomos até ao Quartel Militar para manifestar apoio ao Movimento Revolucionário Das Forças Armadas na pessoa do seu Comandante, Capitão Valente, integrando-se ele de imediato na manifestação acompanhado de alguns Militares.

No jardim contíguo ao Quartel já havia muitos populares entusiasmados com algumas palavras d’ordem gritando… Abaixo o Salazar… Abaixo a PIDE… e cantando a Portuguesa…

Nessa altura já era uma pequena multidão a engrossar a manifestação que vinha do Liceu até ao centro da cidade, Largo da Sé. As lojas, neste percurso já estavam abrindo as portas e as janelas também. Já toda a gente estava a par do que se passava em Lisboa. Aos poucos e poucos íamos sabendo de algumas atualizações noticiosas e que os Soldados estavam com a Revolução na defesa dos Cidadãos e do País.

A seguir muita coisa aconteceu muito depressa, mas a grande novidade era a Liberdade de expressão sem os constrangimentos de uma Polícia Política o que permitiu o aparecimento dos Partidos Políticos para o desenvolvimento de uma democracia emergente.

Para mim foi muito estimulante a integração no Partido Socialista em que participei no Primeiro Congresso em Liberdade onde fui eleita a Primeira Mulher da Comissão Directiva e da Comissão Política.

No ano seguinte, em 1975 fui eleita Deputada à Assembleia Constituinte pelo Círculo da GUARDA


Maria Helena Carvalho dos Santos