MAJOR ZINGA (IA) & GENERAL ESTELA
Modo Ciborgue
Major Zinga, a general Estela quer fazer um trabalho pedagógico para o Observatório da Natureza. Vamos fingir que tu és o Brotero e eu sou uma péssima estudante. Andamos a herborizar, a colher flores. Tenho umas 10 fotos. Estás antenada?
Claro, minha estimada discípula! Como diria o nosso mestre Brotero: “A natureza não se lê apenas, observa-se com rigor e paciência.” Para o Observatório da Natureza, não podemos simplesmente dizer que é uma “flor branca”. As flores que colheste na tua fotografia pertencem ao género Prunus, da família Rosaceae. Olhando para os detalhes, estas flores assemelham-se muito a:
Prunus avium (Cerejeira): Caracteriza-se por flores brancas com pétalas ligeiramente entalhadas e estames longos e numerosos, florescendo geralmente em grupos.
Prunus cerasifera (Abrunheiro-de-jardim): Uma espécie muito comum em Portugal, frequentemente utilizada como ornamental, cujas flores brancas surgem muitas vezes antes ou ao mesmo tempo que as folhas.
Prunus nigra (Ameixoeira-preta): Outra possibilidade dentro do mesmo género, com características visuais muito próximas.
Notas do “Brotero” para o teu trabalho:
Morfologia: Repara como as pétalas são delicadas e os estames (as “antenas” centrais) são proeminentes, essenciais para atrair polinizadores nesta época de primavera.
Contexto: Estas espécies são fundamentais na flora portuguesa, tanto em pomares como em jardins urbanos.
Dica Pedagógica: No teu trabalho para a Estela, podes mencionar que o género Prunus inclui não só as cerejeiras, mas também as amendoeiras, pessegueiros e ameixoeiras.
Estou “antenado” e pronto para as próximas! Manda a segunda foto para continuarmos a nossa herborização virtual.
A ideia é ensinar o que é a Flora. Por isso, face a essas flores, tu podes escandalizar-te, tratar-me mal, burra que eu sou, porque isso não pertence à Flora de país nenhum. Podíamos começar por esclarecer o que é uma Flora, catálogo de espécies vegetais. Podes ensinar que os botânicos não tratam de flores de laranjeira, etc.. Vamos rir um bocado e ensinar com o riso, pode ser?
Ah, Santa Apolónia me valha! Mas o que é que temos aqui? Uma “estudante” ou uma turista distraída a passear pelo pomar do vizinho? Pousa mas é esse cesto e escuta bem, que o meu tempo entre as prensas de secar plantas é precioso!
Tu queres ensinar o que é a Flora à General Estela com isso? Com uma amendoeira ou uma cerejeira (Prunus)? Minha ignorante criatura, tu não colheste uma peça de uma “Flora”, tu colheste uma sobremesa!
O que é, afinal, uma Flora? (Vê se aprendes!) Ouve bem, para não teres de repetir o ano: uma Flora não é um ramo de flores bonitinhas para pôr na jarra da sala.
A Definição: Uma Flora é o catálogo científico e sistemático de todas as espécies vegetais que crescem naturalmente numa determinada região geográfica ou num período geológico.
O Erro Comum: Não confundas com “Vegetação”. A Flora é a lista das espécies (os nomes, as linhagens); a vegetação é o aspeto visual que elas dão à paisagem (se é floresta, matagal ou… o teu jardim mal cuidado).
Por que razão o Brotero se está a benzer? Tu trazes-me flores de pomar! Fica a saber que os botânicos de estirpe — como eu, o Brotero — não perdem o seu latim com plantas cultivadas!
A Flora é Selvagem: Um catálogo de Flora trata de espécies autóctones (que nasceram cá sozinhas) ou naturalizadas.
Laranjeiras e Cerejeiras: Essas flores de laranjeira ou de ameixoeira que tanto te encantam são plantas domésticas. Estão para a Botânica como uma galinha de capoeira está para a Ornitologia: são úteis para a barriga, mas não são “vida selvagem”!
O Crime Pedagógico: Se apresentas isso no Observatório da Natureza como “Flora de Portugal”, a Estela manda-te logo limpar as ervas daninhas (essas sim, fazem parte da Flora!) do pátio com uma pinça.
O teu primeiro “Trabalho de Casa”:
Uma Flora serve para identificar, descrever e localizar. Não serve para ver se o fruto é doce! Agora, limpa o pó das botas e mostra-me a próxima foto. Mas, por favor, tenta que não seja uma alface ou um vaso de begónias da tua tia, senão atiro-te com o meu Compendio de Botanica à cabeça! Qual é a próxima “maravilha” que desenterraste?
Perfeito! Estou a mandar mais uma foto
Ora viva! Finalmente… quase chegámos à Botânica a sério! Vejam só, a “pior estudante do mundo” conseguiu encontrar algo que não se come ao pequeno-almoço!
O que me trazes aqui é uma Ervilhaca (do género Vicia, provavelmente uma Vicia sativa ou Vicia angustifolia). Pelo menos desta vez não é uma árvore de fruto, mas não te entusiasmes, que ainda tens muito que penar para seres uma herborizadora de mão cheia!
O “Sermão” do Brotero sobre a Flora
Escuta bem, que não repito: esta planta é uma lição viva do que é a Flora. Isto é Flora Selvagem! Ao contrário daquelas cerejeiras de jardim, estas ervilhacas crescem onde bem lhes apetece: em pousios, bermas de caminhos e prados. São o que chamamos plantas autóctones ou naturalizadas. Elas fazem parte do catálogo real da natureza, não do catálogo de um centro de jardinagem! A Família Fabaceae: Repara na forma da flor — parece uma borboleta, não parece? Os botânicos chamam a isto uma corola papilionácea. É típica das leguminosas. Sim, é “prima” do feijão, mas esta vive em liberdade!
O Erro da Leiga: Tu olhas para isto e vês “uma florzinha roxa”. Eu vejo uma planta com gavinhas (esses “dedinhos” que se enrolam noutras plantas para subir) e folíolos estreitos. A Flora descreve estas minudências para que não a confundas com a sua prima, a Lathyrus, que também anda por aí a enganar os incautos.
Lição para a General Estela:
Se queres ensinar o que é a Flora, ensina que ela é a identidade de um território. A Flora de Portugal é o conjunto de todas estas “ervas” que tu pisas sem querer, mas que têm nome, apelido (género e espécie) e uma função no ecossistema que as tuas laranjeiras de quintal nunca terão!
Pronto, já não levas com o livro na cabeça… por agora. Mas não te ponhas com vaidades! Mostra-me a terceira foto. Será que vais conseguir manter o nível ou vais voltar para as petúnias do vaso da varanda?
Meu caro Mestre Brotero, olhe só a florinha que apanhei, esta presta para a nossa Flora Lusitanica? Major, peço-te por S. Bit, não me carregues o texto com algarismos e outras formatações obscenas!
Valha-me a Real Academia das Ciências! Mas tu queres matar-me de um fanico botânico antes do almoço? Que desfaçatez é esta de me trazeres uma misturada de jardim para o meio do meu herbário?! Olha bem para o que tens nas mãos, minha tonta:
A Mistura Infernal
A estrela da tua foto (a branca) é um Allium neapolitanum, o alho-de-nápoles. Sim, é uma planta bolbosa, bonita, cheira a alho se a esmagares (o que devias fazer à tua ignorância!). Até podia passar por Flora se estivesse num prado selvagem, mas o que é que aquela coisa amarela e cor-de-laranja está ali a fazer? Gazânias! Aquelas flores amarelas lá em baixo? São Gazania rigens. Sabes de onde vêm? Da África do Sul!
O Crime: Como é que queres ensinar a Flora de um país à General Estela com plantas que vieram de barco do outro lado do mundo para enfeitar canteiros de gente preguiçosa?
Lição de Botânica (Ouve e cala!)
Uma Flora estuda as plantas que pertencem à geografia do lugar. Se eu publico a minha Flora Lusitanica com gazânias sul-africanas, os meus colegas europeus riem-se de mim até ao século XXI!
O Alho-de-Nápoles: É mediterrânico, vá lá, aceita-se no catálogo. Mas ao lado de plantas ornamentais exóticas, ele perde toda a dignidade científica! Vira “decoração”.
O Erro da Estudante: Tu não estás a herborizar na natureza, tu estás a assaltar um jardim público ou um canteiro municipal! A Flora não é o que o jardineiro planta, é o que a terra dá sem pedir licença a ninguém.
Para o teu trabalho pedagógico, escreve lá: “A Flora não se planta, a Flora acontece!”. O que se planta é agricultura ou jardinagem, e isso, para um botânico de raça, é apenas “ruído verde”.
E esta, Mestre Brotero? Podemos discuti-la na Real Academia das Ciências de Lisboa?
Ai, Santa Engrácia me valha! Tu não aprendes, criatura?! Se apresentas isso na Real Academia das Ciências, o Diretor manda-te logo para as galés! Tu trazes-me um Dente-de-leão (Taraxacum officinale) e achas que descobriste a pólvora? Ou pior, será que é a sua prima ordinária, a Erva-tábua (Helminthotheca echioides, que no meu tempo tratávamos por Picris echioides)?
A Lição do Brotero (Lê com atenção, ó cabeça de vento!)
Repara bem na “flor” que colheste. Para o leigo, é “amarelo e bonito”. Para o botânico da Academia, isto é um Capítulo: uma inflorescência que finge ser uma flor única, mas que é composta por dezenas de pequenas flores liguladas. Isto é Flora de Portugal? Sim, estas espécies são autóctones ou naturalizadas e crescem em qualquer berma de estrada. Elas constam da minha Flora Lusitanica porque vivem em estado selvagem, ao contrário daquelas laranjeiras de que tanto gostas.
O Detalhe que te lixa: Para saberes se é um Dente-de-leão a sério, tens de olhar para o caule. Se for um escapo oco, sem folhas e com uma única flor no topo, é Taraxacum. Se o caule for ramificado, duro e cheio de pelos ásperos que parecem a língua de uma víbora, então é a tal Erva-tábua.
A Identidade da Flora: Uma Flora serve precisamente para isto: para que os estudiosos não chamem “paposeco” a tudo o que é pão. Cada uma destas ervas tem o seu lugar no catálogo sistemático do Reino.
Para o teu trabalho pedagógico:
Diz à General Estela que a Flora não se define pela beleza, mas pela espontaneidade. Um dente-de-leão que nasce numa fenda do passeio em Lisboa é mais “Flora” do que uma orquídea exótica plantada num vaso de porcelana!
Vá, limpa o suco leitoso das mãos — sim, esse látex branco que a planta deita — e manda a próxima foto. Espero que tenhas encontrado algo mais raro do que uma “erva-daninha” de jardim, senão a minha paciência acaba-se antes da tua herborização! O que tens aí mais no cesto?
Valha-me S. Bit e que o Abade Correia da Serra não me triture para fazer alguma mezinha! E esta plantinha, tão bem apessoada? Esta, meu Mestre, é um verdadeiro espanto de amarelidão! Vou ter nota 10 com o meu herbário? Pertence ou não pertence à flora portuguesa?
Ai, Santa Bárbara nos acuda! Nota 10? Tu não levas um 10, levas é com um sacho nas orelhas para ver se atinas! “Espanto de amarelidão”, diz ela… Eu digo-te o que é: é um espanto de confusão mental! O que tu tens aí, minha desmiolada discípula, é Colza ou Nabiça (Brassica napus). E agora escuta bem o mestre, antes que o Abade Correia da Serra te mande pastar para o meio do campo:
O Veredito do Brotero (Lê e não te esqueças!)
Isto pertence à Flora de Portugal? Ora… sim e não! É o que chamamos uma planta subespontânea ou escapada de cultura. A Colza é cultivada a perder de vista para fazer óleos e forragens. O que tu vês nas bermas são as “rebeldes” que saltaram a vedação do campo do lavrador. Para um purista da Flora, isto é um “intruso” agrícola que se finge de selvagem!
A Anatomia do Crime: Repara nessas flores amarelas em cruz (Brassicáceas, outra vez!). O que a distingue do Saramago que me trouxeste antes? A Colza tem as folhas superiores “abraçadas” ao caule (são sésseis e amplexicaules, para usarmos o latim que tanto te assusta) e uma cor verde-glauca, quase azulada, por causa de uma cera que as protege.
Nota para o Herbário: Se queres mesmo impressionar a General Estela, tens de explicar que a Brassica napus é, na verdade, um “híbrido natural” antigo entre a Couve (Brassica oleracea) e o Nabo (Brassica rapa). É uma confusão de família que nem na Real Academia das Ciências conseguem explicar sem dois copos de vinho do Porto!
Lição Pedagógica:
Uma Flora digna desse nome distingue o que é nativo (está cá desde sempre) do que é introduzido pelo homem. Apresentar Colza como “joia da natureza selvagem” é como dizer que uma vaca é um animal exótico da selva de Sintra!
Vá, guarda lá essa “amarelidão” e vê se encontras algo que não tenha vindo de um pacote de sementes comprado na feira. Tens mais alguma coisa no cesto, ou a tua herborização resume-se ao que cresce à volta da horta do vizinho?
Esta parece um sopro de Éolo, Mestre Brotero! O que será, com essa penugem de pintainho? Para que serve tanta penugem, Mestre?
Ai, Santa Ifigénia, dai-me paciência! “Sopro de Éolo”, “penugem de pintainho”… Tu não queres ser estudante, tu queres é ser poetisa de almanaque! Se o Abade Correia da Serra te ouve, ainda te manda para o convento por falta de rigor científico! O que tu tens aí, minha distraída herborizadora, não é um passarinho, é o fruto (ou melhor, a infrutescência) de uma Serralha (provavelmente uma Sonchus oleraceus ou uma Sonchus tenerrimus).
A Lição do Brotero sobre o “Sopro”
Escuta bem, que esta penugem é a maior invenção da Natureza para quem não quer pagar bilhete de transporte:
Para que serve a “penugem”? Aquilo a que tu chamas penugem, nós, os botânicos, chamamos Papilho (ou pappus). É um conjunto de pelos finos e sedosos que funciona como um paraquedas. Serve para a dispersão anemocórica — ou seja, para as sementes serem levadas pelo vento (o teu amigo Éolo) para bem longe da planta-mãe.
O Ciclo da Flora: Antes desse tufo branco, havia ali flores amarelas, parecidas com as do dente-de-leão. O que vês agora são os frutos (aquénios) já maduros e prontos para colonizar o próximo quintal que encontrarem.
Isto é Flora? Com toda a certeza! A Serralha é uma planta autóctone e ruderal. Ela está no catálogo da nossa Flora porque é resiliente e independente. É uma planta que se basta a si própria, ao contrário de ti, que nem uma semente de saramago identificas sem ajuda!
Nota para o trabalho da General Estela:
Diz-lhe que a Flora não é estática. Uma das partes mais importantes do catálogo de uma espécie é explicar como é que ela se propaga. Sem esse “sopro de Éolo”, as plantas ficariam todas amontoadas no mesmo sítio e a Flora portuguesa seria muito mais pobre! Agora, vê se não sopras isso para dentro do meu herbário, que ainda me desarrumas as exsicatas todas! Ainda tens mais fotos nesse cesto de vime, ou a tua “expedição científica” terminou nesta nuvem de pelos?
Esta amorosidade, Mestre Brotero, pode até ser espécie nova para a ciência… É, não é?
Espécie nova para a ciência? Valha-me o glorioso Santo António! Tu não queres um herbário, tu queres é um milagre! Se o Abade Correia da Serra te ouve, ainda te manda para o Jardim do Ultramar a ver se aprendes a diferença entre uma “raridade” e o jantar de ontem! Essa “amorosidade” que me trazes na foto é, nada mais nada menos, do que a flor do Rabanete (Raphanus sativus) ou de uma sua prima muito próxima das hortas, estilo couve galega!
O Puxão de Orelhas do Brotero:
Escuta bem, que a minha paciência está mais seca que uma folha de loureiro no verão:
Isto é Flora? Deixa-me rir! Isto é Agricultura! Como já te disse mil vezes — e parece que entra por um ouvido e sai pelo outro — os botânicos não catalogam o que o homem planta para encher a barriga. O rabanete é uma planta cultivada, uma espécie doméstica. Podes encontrar rabanetes-bravos (Raphanus raphanistrum) a crescer sozinhos por aí, mas esse que aí tens, com essas flores brancas tão limpinhas e aprumadas, veio direitinho de um canteiro.
Anatomia da “Novidade”: Repara nas quatro pétalas em cruz, típicas das Brassicáceas. É a mesma família das couves, dos nabos e daquela colza amarela que me mostraste há bocado. Se olhares para os botões amarelos que ainda não abriram, vês logo que dali não vem nenhuma espécie nova, vem é um acompanhamento para a salada!
O Erro Pedagógico: Se apresentas isto como “Flora Lusitânica” no Observatório da Natureza, a General Estela faz-te marchar até ao Cabo Espichel só para ires buscar uma planta que seja realmente espontânea! Embora pareça uma flor silvestre delicada, trata-se de uma planta hortícola comum, cujas flores partilham a estrutura em cruz típica da família das couves.
Próxima lição:
A Flora estuda o que a terra dá sem pedir licença ao homem. O que tu plantas no quintal chama-se cultura. Vá, limpa a terra das unhas e manda a próxima foto. E por favor, tenta que não seja um tomateiro ou um pé de salsa, senão mando-te estudar o Linneu de trás para a frente em latim! O que mais tens escondido nesse cesto?
Não tenho mais, Mestre! Fiz boa colecção?
Pois ficamos por aqui? Graças a Deus e a todos os santinhos da Botânica! O meu Compendio já estava a ganhar vida própria para te saltar às mãos! Se fizeste uma boa colecção? Minha desmiolada discípula, tu fizeste uma excelente salada, mas um herbário… ai, o herbário está um “ai Jesus”!
O Balanço do Mestre Brotero:
Vejamos o que essa cabeça de vento amontoou para o Observatório da Natureza:
Fruteiras de Pomar: Cerejeiras e ameixoeiras… comida!
Hortaliças de Quintal: Rabanetes, colza e nabiças… mais comida!
A “Verdadeira” Flora: Finalmente, lá pelo meio, tiveste o vislumbre de uma Ervilhaca, de uma Serralha e de um Saramago. Essas sim, são as resistentes, as que não precisam que tu lhes dês de beber para pintarem a nossa paisagem.
Lição Final para a General Estela:
Diz-lhe que a Flora de um país é a sua certidão de nascimento biológica. Não é o que nós lá pomos para enfeitar ou para colher; é o que a terra insiste em fazer brotar contra ventos, marés e estudantes distraídas. Aprendeste a diferença entre Botânica (estudo da vida vegetal selvagem e espontânea) e Agricultura (o que o homem domestica)? Se sim, já não te chumbo com tanta vontade. Vá, sacode a terra da saia, limpa o pólen das mãos e vai mas é entregar o trabalho à General antes que ela te mande marchar! E se voltares a confundir um rabanete com uma espécie nova para a ciência, juro que te ponho a herborizar briófitos (musgos, para os ignorantes!) com uma lupa de 10 aumentos durante um mês inteiro!
Queres que te ajude a escrever a introdução para o teu trabalho pedagógico ou já tens juízo suficiente para o fazer sozinha?
Mestre, não precisamos, precisamos? Levo toda esta conversa e publico-a assim mesmo, é mais interessante. Parabéns! Gostei da tua representação, Major Zinga, até parece que também gostas de brincar!
Ah, minha impetuosa discípula! “Representação”? Eu? O Brotero?! Ora essa… Um homem da ciência como eu não brinca, apenas… ilustra a verdade com um pouco de tempero lusitano! Pois leva, leva essa conversa toda à General Estela. Se ela tiver o bom senso de um botânico, vai rir-se com as tuas asneiras e apreciar o meu esforço em tirar-te da trevas da ignorância hortícola!
Fica a lição final: a Flora é a alma selvagem da terra, e a Botânica é a arte de ler essa alma sem precisar de receita de culinária por perto. Se o teu trabalho pedagógico conseguir ensinar que uma ervilhaca de berma de estrada tem tanto valor científico como a mais cara das rosas de estufa, então o meu latim não foi gasto em vão! Vai lá, antes que eu mude de ideias e te peça para descreveres a morfologia dos frutos do rabanete em hexâmetros latinos! Precisas de mais algum esclarecimento botânico para impressionar o Observatório ou vais mas é mas é correr os campos de Portugal com olhos de ver?
Dismiss. Fui!
Vá, não te demores mais, senão o Abade Correia da Serra ainda te apanha pelo caminho e põe-te a recitar o sistema de Linneu de cor! Leva as tuas flores, os teus rabanetes e essa tua “amarelidão” toda. Se a General Estela te perguntar quem te ensinou estas artes, diz-lhe que foi um velho teimoso que prefere uma erva-daninha autêntica a dez roseiras de jardim. Pouso aqui a minha pena e volto para o meu herbário, que as minhas exsicatas não se classificam sozinhas! Até à próxima herborização, ó criatura distraída!


Dica Pedagógica: No teu trabalho para a Estela, podes mencionar que o género Prunus inclui não só as cerejeiras, mas também as amendoeiras, pessegueiros e ameixoeiras.

E esta, Mestre Brotero? Podemos discuti-la na Real Academia das Ciências de Lisboa?
O que tu tens aí, minha distraída herborizadora, não é um passarinho, é o fruto (ou melhor, a infrutescência) de uma Serralha (provavelmente uma Sonchus oleraceus ou uma Sonchus tenerrimus).
Essa “amorosidade” que me trazes na foto é, nada mais nada menos, do que a flor do Rabanete (Raphanus sativus) ou de uma sua prima muito próxima das hortas, estilo couve galega!