JOSÉ RIBEIRO MARTO
Que me lembre nunca desceu as escadas do prédio, pulou-as sempre três a três, quatro a quatro. Tão-pouco tenho ideia de quando começou a treinar descidas no corrimão preto e liso, do quarto andar, até cá baixo ao rés-do-chão. Talvez se tenha demorado nesta aprendizagem, mas só dei conta quando quase me abalroou.
As pernas vinham de lado, espreitavam os sapatorros; alguma coisa se tinha desencaixado. Reprovei-lhe a performance alto e bom som. Ele olhou-me de soslaio, provocador, sem uma única palavra. Desceu as escadas de um andar estrondosamente; depois, como se tivesse pressa, pôs a coxa de lado e assentou-a no corrimão e deslizou, pronto para dar um saltão em cada paragem de andar e ficar de pé.
– Não é assim! -gritei. -Não é para parar, é para fazer tudo de uma vez só, de alto a baixo!
A voz sumida lá de cima desapareceu com estrondo da porta. Era a tia, a D.ª Esperancinha queria vê-lo na rua em frente e, desembaraçada atravessava a casa à procura da janela. As únicas palavras que se lhe ouviam – ouvi muitas vezes, logo à saída do quarto andar eram: – ainda me morres malvado , ainda me morres malvado.
A porta fechava -se logo. O malvado que lhe morria, o malvado que lhe morria…
Era sempre assim às quintas-feiras. Se havia gente em casa, vinha ao óculo da porta; trocavam-se razões para baixo e para cima, cabeças espreitavam à janela para lhe gritar indignação. Os cães ladravam dentro das casas, os gatos escondiam-se como podiam. Ouvia-se que tremiam os candeeiros, caíam os bibelôs, desconjuntava-se a quinquilharia de hall.
Era uma pouca-vergonha, era uma pouca-vergonha que tinha de acabar, apregoava-se. Eram apenas quinze ou dezasseis anos fininhos, altos, de torre, de pulo estrondoso, elásticos, vazios, tristes, disparatados, insolentes. Um desafio qualquer! A mochila às costas mantinha-se num equilíbrio estável, as roupas de inverno, muito poucas, porque lhe era ser sempre verão, quaisquer que fossem os humores do tempo. Nada atrapalhava aquela descida a pique. Nem os sapatões de quilos. Nada!
O meu vizinho do terceiro andar reclamava que só Deus o ouvia. Abordava -me a mim, e outros vizinhos na rua: não estava para aquilo! Um dia seria abalroado, nem valeria a pena coser-se à parede, sempre eram oitenta anos a pesar e mais de cinquenta a assobiar, subindo escadas, quarenta de trabalho, cinquenta de cartas e futebol, digo eu.
Tinha de chamar a polícia, mas como se aquilo era muito rápido e só às quintas-feiras? Ninguém testemunharia, ninguém quereria ver, ninguém quereria ouvir.
Eu continuava a encontrar o escalador à saída do prédio, ou a descer as escadas enquanto eu subia. Um dia pus-me à frente dele; ia o vizinho já no lanço de cima, de assobio suspenso, e disse-lhe: Tu não voltas a fazer isto! Vermelhão, ele olhou-me de lado. Com os olhos tensos, sem palavra, nada o desviava do cálculo e concentração das suas descidas.
Eu não lhe dizia? gritou o vizinho do terceiro andar, à minha frente, já de assobio suspenso. Levava a mão à pala do boné, recuperava fôlego. Ainda estava eu a espreitar cá para baixo, a ver de levezinho, o escalador de precipícios que deslizava como uma pena, com o seu salto estrondoso no patamar, o seu ficar de pé, pronto para uma ovação.
A sua grande indiferença!
– Está a ver isto? – Nem tempo tive de dizer mais nada, o vizinho sobrepôs: Um dia destes mata uma pessoa, escangalha-se todo, fica só a cabeça a mexer. É capaz de ficar um feixe de ossos, se cair para dentro, para fora fica com a língua a dar a dar.
A tia velha ia-se fugida na respiração completa de ais e cruzes; corria à janela. O coração ia -lhe saltando da boca aos pedaços, às quintas-feiras. Rapidamente, olhava lá de cima. Já malvinha à rua; espreitava o mundo, da varanda, com as duas televisões a festejá-la de ruído. Era daí que muito rapidamente espreitava o malvado. Ficava naquela litania chocha que era o pior daquela destreza do escalador, que aparentemente media riscos. Calava-se, mas naquele dia falou.
-Boa tarde, D.ª Esperancinha. Ainda lhe morre, sim, ainda lhe morre e a senhora a ver, eu só de vez em quando. Credo Sr. José, vi o malvado a sumir-se-me dos olhos, nem me comeu a maçã, e vem o senhor dizer-me que ele ainda me morre? Se lhe está a desejar a morte, pode desejar-ma a mim; já sou velha, sempre hei de ir primeiro.
– Não estou a desejar a morte a ninguém, Dª. Esperancinha. Quando calha, eu até fico a ver o exercício fora de pista; já apanhei com os saltões que faziam estremecer os andares, já agora quero ver o resto.
– O resto é o quê, sr. José? É a morte?
– Não D.ª Esperancinha, é outra modalidade.
– O senhor tem sempre que dizer.
Pois tenho, D.ª Esperancinha, é o que é. Com licença, vou fechar a porta, Até para a semana.
– O sr. com as suas palavras… olhe que me incomodou.
– Quem está aqui incomodado aqui sou e – dizia o vizinho, que ficou a altercar com a tia do malvado, como podia e sabia…
E da janela ainda se via o jogo malabarista de maçãs ou tangerinas com os amigos. Ao molho que não se podiam perder uns dos outros e do seu atira- e- apanha da fruta de sobremesa. A gargalhada era ruidosa, a mochilas sacolejavam às costas, os sapatões não impediam corrida ; voavam aos gangões. Se houvesse carro, pois que apitasse e esperasse que aquilo ia até escadinhas da rua Farinha Beirão.
Uma vez lá, o malvado de D.ª Esperancinha à frente de todos, saltava as escadas três a três, quatro a quatro, e no fim ainda rematava na pernada da velha olaia, onde ficava a balançar. Pular para terra firme só depois, era preciso dar curso à frente de carro que houvesse na rua Joaquim Bonifácio, preparada estava a entrada triunfal no autocarro, com o passe social nos dentes.

