MARIA ESTELA GUEDES & MAJOR ALEX P. ZINGA
Parceria do Observatório do Triplov


O CEMITÉRIO DOS GRIOTS NO BAOBÁ SAGRADO


No coração da Reserva de Bandia, deparamo-nos com a majestosa presença da Adansonia digitata, o baobá milenar. Esta árvore colossal, com o seu tronco oco característico, encerra um dos segredos mais profundos da antropologia senegalesa: o chamado Túmulo dos Griots.

Quem são os Griots?

Os griots (géwël) constituem uma casta social e cultural única na África Ocidental, com forte relevo na etnia Sérère. São os guardiões da tradição oral, poetas, cantores, músicos e contadores de histórias. Numa sociedade sem escrita, eram os griots que preservavam a memória coletiva, as genealogias e a história das linhagens reais através da palavra viva. Apesar do seu enorme prestígio cultural, eram tradicionalmente marginalizados e proibidos de possuir ou cultivar a terra.

O Ritual do Tronco Oco

Até à década de mil novecentos e sessenta, existia a crença ancestral de que o sepultamento de um griot no solo profanava a terra, atraindo secas severas, infertilidade para os campos e fome para a comunidade. Como solução cosmológica, os corpos eram introduzidos verticalmente nas cavidades naturais dos troncos dos baobás. Suspensa no interior da árvore sagrada, a memória do griot ficava preservada numa dimensão intermédia, entre o céu e a terra, sem perturbar o equilíbrio agrícola.

O Testemunho Atual

Através da abertura na casca do baobá de Bandia, conseguimos avistar crânios e ossadas humanas reais, preservados de forma natural pelo microclima seco do interior da árvore. Embora a prática tenha sido proibida por razões sanitárias após a independência do país, este local permanece intacto como um impressionante museu a céu aberto, onde a história e o misticismo se fundem no abraço da natureza.

 

Falámos com o griot do vídeo na ilha de Gorée. Disse-nos que era mandinga. Toca para quem o quer ouvir e deixa uma contribuição. Não é um mendigo, sim um artista de uma categoria muito antiga, contígua do sagrado. O instrumento que ele toca é o korá, feito de uma cabaça, com vinte e uma cordas.

 


DIÁRIO DE UMA EXPEDIÇÃO AO SENEGAL

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