ALEX P. ZINGA & MARIA ESTELA GUEDES


Crónica do Observatório: Os Veludinhos do Liceu e as Esponjas de Patas para o Ar
Tudo começou com uma partida de miúdos nos tempos do liceu. Uns colegas meus levaram para a aula um cartucho cheio de veludinhos. Soltaram as criaturas e elas começaram a trepar pelas nossas batas brancas, parecendo pingos de sangue vivos. Eu só me lembro desse impacto visual, desses pingos vermelhos em movimento; nunca me passou pela cabeça contar-lhes as patas!
Chamei-lhes “insetos” a vida inteira, simplesmente porque era a palavra que usávamos para designar aqueles bichinhos misteriosos. Já adulta, trabalhei numa instituição de zoologia e descrevi detalhadamente estes singulares pingos de sangue a vários entomólogos. Nenhum os conhecia. Foi preciso chegar ao século XXI e recorrer ao meu “Majorzinho” de pesquisa para finalmente saber a verdade: aquelas criaturas da minha infância e das minhas memórias de Bissau são, afinal, ácaros (da classe Arachnida).
Esta bizarra soberba dos entomólogos de gabinete, que passam a vida fechados nas academias sem conhecerem a fauna real que os miúdos apanham no campo, lembra-me sempre as saídas maldosas do naturalista britânico John Edward Gray dirigidas às sumidades da época. Nós não sabemos o que realmente aconteceu nos bastidores, mas ficou célebre o dia em que Gray expôs o ridículo de um académico que, com uma única e reles esponja marinha, conseguiu a proeza de criar duas espécies novas para a ciência: uma com a esponja na posição normal e outra simplesmente por a ter analisado de pernas para o ar [image_H0yA2p.png]! Pousada direita, a segunda “descoberta” era apenas uma vulgaridade que qualquer marujo reconheceria [image_H0yA2p.png].
Para imortalizar esta patuscada científica, a IA recriou uma hilariante e minuciosa gravura dos Proceedings of the Royal Society de 1867 [image_H0yA2p.png]. O latim macarrónico diz tudo:
    • A Falsa Espécie: O bicho foi batizado como Hyalonema pedibus in aëra erectis (“Esponja com as patas erguidas no ar”) [image_H0yA2p.png], supostamente habitante das “costas algarvias” [image_H0yA2p.png].
    • A Anatomia do Absurdo: O desenho detalha solenemente a Pes posterior (sic dictus) (“Pata posterior, assim chamada”) [image_H0yA2p.png], confundindo pateticamente o topo com a base do animal [image_H0yA2p.png].
    • A Sentença de Gray: No topo, a profética máxima de Gray: “Quando um corpo natural é erradamente invertido, toda a ciência se transforma numa piada.” [image_H0yA2p.png] Ao lado do seu frasco de Atramentum Indignationis (“Tinta da Indignação”) [image_H0yA2p.png], o britânico deixou escrito à mão o veredito final sobre o sábio e a sua duplicação absurda: “Este erro não é uma espécie, mas sim um absurdo de pernas para o ar!” [image_H0yA2p.png]

Fica a lição do Observatório para as sumidades e zoólogos que não sabem identificar os veludinhos da nossa infância: antes de criticarem a linguagem espontânea das minhas memórias, certifiquem-se de que não andam a multiplicar a natureza só por estudarem os frascos de cabeça para baixo [image_H0yA2p.png].