MARIA ESTELA GUEDES
Como sugere o prefaciador, Pedro Serra, este livro, e os outros de José Emílio-Nelson, são banquetes de palavras. As palavras não são as coisas, mas são coisas que podem arrepiar, quando lemos, entre tantos exemplos da mais diversa procedência e condição:
Ao esfregar os olhos num cacto,
Arrasta as lágrimas onde despontam agulhas.
Entre contrários, navega então esta poesia, que deslumbra e aterra, de um lado ligada às belas flores e animais, a uma Natura pujante, de outro ao que vai murchando. O corpo lida com essas circunstâncias agridoces, como um manjar da vida que não é só riso, também é lágrimas e outras secreções e excreções mais conspícuas e violentas.
A púrpura é uma cor cerimonial, lembra a toga patrícia, os trajes litúrgicos, no caso seria a estação pascal, que sofre de roxo na Quaresma e grita de júbilo no sábado de Aleluia. Podia ser, a despeito da vocação profanatória e iconoclasta do poeta, mas não. Púrpura senil é a bela expressão com que a medicina, em especial a gerontologia, baptizou umas manchas arroxeadas que não raro alastram sobre a pele das mãos e dos braços dos mais idosos. E noutras partes do corpo. Contra isso, que podemos fazer? O corpo envelhece, o espírito não, o corpo cede e murcha, vai-se inclinando cada vez mais para a terra, o espírito sofre daqueles repentes rabelaisianos tão próprios do poeta português, que neste livro entoa um hino à gula, sobretudo. A Igreja considera a soberba, a avareza, a luxúria, a ira, a gula, a inveja e a preguiça os pecados capitais. Para o poeta trata-se de sete palavras, entre elas a gula, que não é pecado. Melhor intuindo, na poesia de José Emílio-Nelson não existe pecado. A gula é uma avidez de vida.
Um parêntesis biográfico que espero não ofenda o autor como pecado meu: certa vez, num almoço de festival de poetas, não sei dizer já se o promovido por Luis Serguilha em Famalicão se o dirigido por Jorge Maximino em Vila Nova de Foz Côa, José Emílio-Nelson comportou-se como qualquer um de nós até à sobremesa, que eu reparasse. Porém, ao chegar a sobremesa… Não tive mão em mim que não comentasse, não era prato de bocadinhos para provar dos doces todos, eram várias sobremesas num só prato. Pensei que fosse provocação, mas agora, detendo a atenção no Pantagruel, que tantos cultuam como livro de receitas, e é, compreendo melhor a poesia de José Emílio-Nelson.
Gula, mete e tira no costado.
Brócolos? Não, menu de enchidos recheado.
(Já a travessa vomitada, – ¿qué pedo, Quevedo?
Regalo de acórdãos espalhado em odores esventrados.) Gula?,
nunca pecado, se o pescado, em vinho verde gelado,
E o tinto cobrir as carnes trufadas, de molho babadas.
Coberto de alecrim o estufado, fundido em pimenta preta.
Mais, mais tinto louvado para os assados.
Unto e esfumados salteados. E gemas à farta.
Que Deus seja servido pelo que nos sobra em cada prato.
[Fue Dios servido después – Quevedo]
Livro lexical e semanticamente opulento (apesar de minimalista na contenção de versos e recursos), escatológico, misterioso, prossegue na tradição que o próprio poeta foi impondo aos leitores, de transgressão das normas sociais e religiosas ligadas ao corpo, brandindo a bacanal literária numa exultação de liberdade no espírito. Caso raro na nossa literatura, o de José Emílio-Nelson
JOSÉ EMÍLIO-NELSON
Púrpura senil
Prefácio de Pedro Serra . Desenhos de António Quadros Ferreira
Porto, Edições Esgotadas, 2025


