Recado

 

NICOLAU SAIÃO


PREÇÁRIO


O poeta tem que descobrir situações.

É isso que lhe exige o protocolo. Saber

que por detrás ou ao lado

da imagem fosforescente (como num espelho

apenas pensado)

existem outras coisas (essas sim importantes):

um regresso   um rádio de pilhas   um primo

 

O poeta fica muito calado. Não sabe nada.

Não consegue – nunca conseguiu – reparem

contornar situações. Lembra-se, é evidente

de uma certa manhã em que havia mais claridade

(mas isso, sem o privilégio da revelação

é apenas um arbusto entre muitos)

e calcula, sem palavras, rotações e translações

em locais inóspitos.

O poeta,  naturalmente,  sempre sabe qualquer coisa.

Sabe, por exemplo, que não se pode calar.

As palavras são efectivamente les mots:  colunas

em qualquer língua, graus de sustentação

para florestas, casas-de-campo, matrimónios

entre o planeta e o firmamento. É como

 

uma encruzilhada:  aqui há uma vela sobre uma cadeira

ali alguém que se inclina sobre a imagem duma montanha

e o poeta tem de optar. Por isso não escolhe nada

e quando é noite diz para si que tudo voltou ao princípio

 

e sabe que tudo foi rápido como um silêncio.

E, vai daí, agarra aqui e acolá uma frase

um sorriso

um pacote de batatas fritas, um relancear

 

que é o que lhe fica dos olhares alheios

sempre ligeiramente hirtos como um eco ou um reflexo.


RECADO


Uma pessoa – suponhamos – está na rua.

Do lado, desapareceu tudo: o lenço-de-cabeça

que a Mãe costumava colocar junto da cama

depois de vir do exterior (trazia

pacotes de bolachas, fruta diversa

e com ela entrava por vezes o cheiro da terra

molhada, vozes ao acaso

e um ou outro resíduo quase a prumo

do tempo que foi e não foi acesso

às figuras multiplicadas). E muitas coisas mais

habituais e mortas.

 

Este vaso antes da janela representa

antigos mundos, moléculas e átomos feitos

para o espanto e a cólera. Recordo

um pedaço de pão sobre uma cadeira velha

ambos num traço linear

e que não é menos que esse estranho ozono

que nem sonhávamos existisse

à superfície das nossas antigas idades.

 

Quero eu dizer – na vagarosa mágoa

dos minutos

Porque vos dou imagens

porque vos dou pedacinhos de peixe

porque, sim senhor, vos dou números e razões

(o joelho, durante muitos anos, ficou dorido

e a cicatriz sobre a sobrancelha direita

permaneceu como branca virtude tropical)

sei que tudo começa e naturalmente acaba

numa estufa onde existem gladíolos

– uma luz de pisca-pisca, uma esquisita

música que aumentando parece mais um rápido

e de repente calmo brusco calar do pinheiral

naquela noite habitual, com gente que se afastava

e que nos dava, sem que o soubéssemos, raras

 

palavras perdidas      transfiguradas.


 

Nicolau Saião