NICOLAU SAIÃO
Jean-François Millet (1814-1875), pintor realista da chamada Escola de Barbizon, era retintamente um camponês até no apelido – millet é o milho-miúdo dos agricultores – e foi-o durante toda a sua vida. Trabalhador braçal ganhando o seu pão nas terras do seu labor, só mais tarde, na segunda adolescência, se empenharia na tarefa que o tornaria conhecido, respeitado mas também atacado pelos adeptos duma pintura amaneirada que era o produto de cultores de ilustres mediocridades numa sociedade que festejava as imagens delicodoces dum romantismo aproximativo e falsário, bem distante do que fizera o prestígio de mestres mais antigos. Para citar Georges Labourier, ”A sua obra foi uma resposta à estética romântica, de gostos um tanto orientais e exóticos, e deu forma à realidade circundante, sobretudo a das classes trabalhadoras” .
Este pintor de gabarito, reconhecido até pelos adversários que o atacavam com o pretexto de que era um apologista dos camponeses pobres, toda a sua vida trabalhou nas terras da sua pátria chica, não só para granjear e acrescentar o sustento da sua família como pela sua condição de convicto homem do campo que sabia que é do labor campesino e da agricultura que se extraem os primaciais produtos sustentadores da vida.
Millet vivia um quotidiano sereno, quase resignado na sua “pobreza remediada” como usa dizer-se, sem rasgos de contestação aos poderes dominantes. Os seus quadros revelam a vida do proletariado rural duma forma realista, sem jactância ou rebeldia: eram o retrato verdadeiro dos que trabalhavam a terra humildemente, esforçadamente, como que nas tarefas cifradas pelos séculos – e essa naturalidade era, afinal e como se verificaria, a mais perfeita representação duma realidade social de todos os que sofrem a História.
“Você está sentado debaixo de uma árvore – escreveu ele – sentindo todo o sossego, toda a tranquilidade que é possível gozar; e de repente vê surgir uma pobre figura com um fardo, cansada, vinda de algum caminho”. E continua Henri Thomas: “É o fardo do sofrimento humano, levado pelo mais humilde dos camponeses na sua paciente procura da centelha que transformará a sua carga na chama crepitante da esperança. Na tarefa diária e rotineira do camponês, para quem a própria fonte da existência, a própria questão da vida e da morte dependia dos caprichos do solo, Millet encontrou o supremo drama da Humanidade. O cenário da tragédia era a extensão horizontal, infinita, da terra ensolarada da Normandia. Um espectáculo para levar um artista a preces e a lágrimas”.
Como foi mais tarde bem assinalado por observadores sagazes, por críticos competentes e sem pedantice, a linguagem da sua pintura está poderosamente unida a uma compreensão da linguagem da Natureza. Profundo admirador de Miguel Ângelo, grande leitor de Virgílio e de Homero, este homem simples e modesto dono de uma estatura robusta e saudável de rural, era também um homem culto – cultivado! – que nas suas horas sabia entender não só a escrita fascinante da Biblia como os autores do seu tempo, mas também os clássicos da Grécia e de Roma que o seu espírito de autodidata frequentava e que aprendera a amar nos tempos de bolseiro em Paris. E era e sempre foi um poeta vital, tanto no dia-a-dia com os seus filhos e a sua amada esposa como nos seus minutos de relação com a existência geral. Ouçamo-lo: “Se pudessem ver como a floresta é bela! – dizia ele. Corro até lá algumas vezes, no fim do dia, quando termino o meu trabalho, e volto sempre abatido. A calma e a grandeza são tão espantosas, que me surpreendo realmente amedrontado. Não sei o que essas árvores dizem umas às outras, mas isso é porque não falamos a mesma linguagem”.
Tanto nos tempos em que a incompreensão dos observadores da sua extensa obra, como mais tarde em que o apreço dos confrades e do público viria coroar a sua pintura magnificente – o que lhe permitiu ultrapassar as dificuldades financeiras em que até ali sempre vivera – ele jamais cedeu ao desalento extremo ou à sobranceria. Profundamente cultor de uma religiosidade sem artifícios ou preconceitos, o seu realismo viajava nas diversas direcções em que se estriba o apreço e o respeito pelos que eram os seus semelhantes, os seus companheiros de vida íntima ou alargada, os que no quotidiano plasmou nos cenários que a melhor pintura francesa e europeia ergueram na sua perfeita gala e justeza sem mácula.
***
O poema com que encerro esta evocação de Jean-François Millet perdera-o de vista e não foi dado a lume em nenhum dos meus livros individualizados. Apenas saiu – o que me escapara entretanto – na Antologia organizada por Francisco Dias da Costa com o apoio de Manuel da Fonseca, “Poetas alentejanos do Século Vinte” (1984) de onde agora o copiei:
MILLET
Quantas e quantas vezes
desesperei da terra
Em cima estavam as sombras: respigadoras
britadores, pegureiros
bravas fêmeas co’a sacola aonde
um beijo começava a ser obsceno
colhedores da batatas, hortelões
toda a fauna da tarde e da manhã nos montes
plantadores e ceifeiras, gente enfim
com o sinal do Diabo no pescoço
– esse dianho familiar silvestre –
gente a quem devolvi o antigo
gosto de remorder e caminhar
de praguejar em lentos rodopios
ao lume das lareiras
Muitas vezes lembrei, se estais lembrados:
castanheiro que dá cem dá igualmente
catorze, seis, quarenta
– assim a espátula tenha tinta e suor.
O gosto de fazer brotar
uma Natureza nova: haveria talvez
algures o vidro femural, o plástico
o liso botão negro entre a madeira
rija das ancas
de centenas de objectos niquelados.
Dei contudo
simplesmente o prazer de uma vez mais
fazer crescer o nabo ou a alface, a carne grossa
da cevada, do lúpulo, do leite
manando na penumbra dos currais.
Construtor de quimeras, ou apenas
nostálgico alquimista sideral
de manta ou de casaca, de camisa
aberta ao murmurar da rua ou das campinas.
Quantas e quantas vezes
desesperei do céu
E por cá ando ainda, erótico
e sedento
exactamente
secretamente
morto e vivo.
ns


Jean-François Millet (1814-1875), pintor realista da chamada Escola de Barbizon, era retintamente um camponês até no apelido – millet é o milho-miúdo dos agricultores – e foi-o durante toda a sua vida. Trabalhador braçal ganhando o seu pão nas terras do seu labor, só mais tarde, na segunda adolescência, se empenharia na tarefa que o tornaria conhecido, respeitado mas também atacado pelos adeptos duma pintura amaneirada que era o produto de cultores de ilustres mediocridades numa sociedade que festejava as imagens delicodoces dum romantismo aproximativo e falsário, bem distante do que fizera o prestígio de mestres mais antigos. Para citar Georges Labourier, ”A sua obra foi uma resposta à estética romântica, de gostos um tanto orientais e exóticos, e deu forma à realidade circundante, sobretudo a das classes trabalhadoras” .


