
EDITORIAL
Maria Estela Guedes & Alex P. Zinga (IA)
A Berta e eu conhecemo-nos nos dias ruidosos de Curtea de Argeș, mítica cidade, antiga capital da Valáquia, na Roménia, quando as correntes poéticas do International Festival Poetry Nights uniram de forma indelével os nossos caminhos, sob a batuta do poeta Dumitru Ion, entretanto falecido. O Triplov guarda registos dessa profícua interação literária em 2017 e 2019. Ali, entre as muralhas carregadas de lendas da antiga Valáquia e sob a égide da Academia Internacional Oriente-Ocidente, a voz vertiginosa da Colômbia e a escrita de Portugal encontraram franca sintonia. A Berta Lucía Estrada Estrada participou ativamente nas leituras públicas do festival, em 2019, existindo no Canal Multimédia do Triplov gravações em áudio e vídeo das suas leituras em Curtea de Argeș.
A nossa forte ligação gerou frutos literários editados pela própria Academia Oriente-Ocidente. Foi a Berta Lucía quem assumiu a missão de traduzir para espanhol poemas meus. Assim, na antologia “Poesys”, que reúne a poesia apresentada no Festival de Curtea de Arges, ambas figuramos juntas no volume Poesys 23 (2019), no qual Berta Lucía Estrada surge como a tradutora dos meus “Tres poemas de Estela Guedes” (incluído “San Rey Sebastián”).
Nesse berço de afinidades cresceu uma aliança de interação mútua de poeta para poeta, através da qual Berta Lucía, uma livre-pensadora radical e destemida, assumiu a nobre missão de verter para a língua castelhana o meu poemário Clitóris Clítoris, e de o divulgar na Colômbia, como aconteceu com a leitura de poemas desse livro no XXXVI Encuentro de Mujeres Poetas Colombianas, em 2020, organizado pelo Museo Rayo (situado em Roldanillo, Valle del Cauca, Colômbia).
Este vínculo transfronteiriço também se manifestou em território nacional. Cruzando o Atlântico e a Europa, a poeta, ensaísta e ficcionista trouxe a sua acutilante mundividência aos Colóquios do Triplov em Lisboa. Sob o teto austero e propício à reflexão do entretanto desaparecido Mosteiro de Santa Maria das Monjas Dominicanas, no Lumiar, partilhámos mesas de debate sobre o papel e a emancipação da mulher no Mundo, consolidando um espaço de resistência intelectual em que o ensaio e a poesia serviram de ferramentas de desocultação.
A nossa rota de cumplicidade editorial estendeu-se ainda mais a norte, fixando-se no Porto através da parceria estabelecida com a Revista InComunidade, dirigida por Henrique Dória, querido amigo de muito longa data. No seu dinâmico auditório da Rua Júlio Dinis, as nossas vozes voltaram a ecoar em uníssono, erguendo pontes de pensamento crítico e unindo plataformas de criação, no curso do Primeiro Encontro / Colóquio Triplov-InComunidade (maio de 2023)
A presença entre nós desta gigante da cultura hispano-americana, e mais concretamente a dar corpo a este tomo de Verão de 2026 da Revista Triplov, representa um ponto muito alto na nossa atividade cultural, que nos deixa muito mais ricos. Berta Lucía caminha com igual mestria pela defesa do feminismo, pela poesia que descodifica o horror da guerra e pelo ensaísmo de fronteira. É esse excelente contributo que nos oferece, provando que o Triplov é, antes de tudo, uma geografia viva feita de encontros humanos e de uma densidade artística que volta a manifestar-se, em pleno esplendor, nas páginas que aqui trazemos a público.
O grande marco internacional da Berta Lucía é o combate ao silenciamento histórico das mulheres na literatura universal, consagrado no seu ensaio “¡Cuidado! Escritoras a la vista…”. Ela não faz apenas crítica; faz justiça histórica e resgata as vozes femininas das margens. No índice da nova revista vemos isso em ensaios sobre Marguerite Yourcenar, Marvel Moreno e Frida Kahlo. É nesse âmbito que perspetivo o interesse que demonstrou pelo meu livro Clitóris Clítoris (Editora Urutau, São Paulo / Pontevedra, 2019).
Laureada com o Prémio Nacional de Poesia Meira Del Mar (2011), a sua escrita poética é reconhecida por ser uma descida lúcida aos infernos da dor e da guerra (particularmente a colombiana). Como ela própria afirma, a poesia e o ensaio são o seu “láudano” e a sua forma de desvelar segredos e “arcanos” do mundo.
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Membro proeminente do PEN Internacional/Colômbia, Berta Lucía Estrada Estrada destaca-se internacionalmente como livre-pensadora radical, ateia e ensaísta destemida. A sua capacidade de dialogar cara a cara com clássicos da literatura (desde A Novela de Genji até Mircea Cărtărescu, patentes agora na Revista Triplov) faz dela uma ponte cultural viva entre a Colômbia, a Europa e omundo lusófono através do Triplov.
Berta Lucía Estrada Estrada é desde Curtea de Arges colaboradora assídua do Triplov. Saliento, por mais recente, Tríptico da Agonia, um livro, publicado na coleção Fios de Ariadne, das Edições Triplov, em co-autoria com Floriano Martins; esta parceria reforçou ainda mais a nossa proximidade, dada a amizade entre o Triplov e a Agulha, isto é, entre mim e o Floriano.
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Berta Lucía E. Estrada
Julho de 2026
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