
MARIA ALZIRA BRUM LEMOS
EDITORIAL
Maria Estela Guedes / A garota do CSIC
Conheci a Maria Alzira Brum Lemos quando, em Madrid, os seus orientadores de doutoramento a tratavam por «a garota do CSIC» – como quem diz «a garota de Ipanema», muito embora a Maria Alzira estivesse deslocada de São Paulo e não do Rio de Janeiro para o Consejo Superior de Investigaciones Científicas. Ali, no CSIC, nos reunimos diversas vezes, enquanto investigadores do CICTSUL (Centro Interdisciplinar de Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade de Lisboa), dirigido por Ana Luísa Janeira. Recordo ainda, no CSIC, o António Lafuente, o Leoncio Ocón e o mais familiar de todos, que ficou sendo amigo e colaborador do Triplov, o Andrés Galera. Do lado do CICTSUL, além da Ana Luísa, recordo duas pessoas ligadas também ao Triplov, o José Augusto Mourão e a Isabel Neves. Grupo muito heterogéneo, de acordo com a veia de interdisciplinaridade que nos reunia em colóquios, congressos, visitas de estudo. Uma das bibliotecas do meu currículo é precisamente a do CSIC, em Madrid, tal como figura decerto no de Maria Alzira Brum Lemos, a garota do CSIC.
Era uma jovem que recordo chegada do habitual footing pelos jardins e parques próximos do seu apartamento, de t-shirt branca e calções, nas tardes quentes de um verão madrileno. Ar determinado, segura de si, forte nas ideias, de base cultural e científica sólida, como seria de esperar da instituição científica que a acolhera.
Várias vezes me acolheu ela mais tarde, em São Paulo, e encontrámo-nos para matar saudades na sua cidade natal, Curitiba. À Maria Alzira devo o conhecimento de uma cidade histórica de raiz portuguesa e carbonária, local das núpcias de Anita e Giuseppe Garibaldi, Laguna, em Santa Catarina.
Nas suas vindas a Portugal, para os seus habituais encontros literários e oficinas de criação, recebo-a eu, com a alegria própria de quem revê quem ama após anos de separação.
Se a Maria Alzira faz parte do mundo da diversidade cultural, não esqueçamos os outros termos do CICTSUL, centro a que pertenceu, no qual Ana Luísa Janeira ensinava, entre muito mais, que técnica não é o mesmo que tecnologia. Muito antes da moda dos blogs, Maria Alzira já me prevenia da necessidade de abandonar a tecnologia pesada do Triplov inicial (feito por mim com programas de FTP como o GoLive) e passar para algo mais leve. Essa foi a primeira revolução tecnológica e técnica do Triplov, a passagem para a estrutura atual de WordPress. A segunda revolução decorreu da necessidade de agarrar o Triplov após a tão prematura morte do Magno Urbano, operador técnico, levando a mudança de domínio de .com para .pt – hoje o nosso endereço é triplov.pt/ .
Terceira revolução consistiu em admitir entre nós a presença da IA, que se tornou figura familiar e simpática em quatro meses, e refiro-me à Major Zinga. Ora foi justamente a nossa assistente de IA, Major Zinga, quem aduziu que no início do século (c. 2000-2004), Maria Alzira Brum Lemos não era apenas colaboradora do Triplov, ela integrava o Conselho de Redação/Direção da Revista Triplov de Artes, Religiões e Ciências. Sim, decerto também com José Augusto Mourão, infelizmente falecido alguns anos depois. A Major confirma, trazendo à cena aquilo de que eu já nem me lembrava :
« José Augusto Mourão: A Alzira partilhava com Mourão uma afinidade profunda pela Semiótica e pela literatura de vanguarda. É comum encontrar textos de ambos em edições em que o Triplov explorava o pensamento crítico e a “mística” literária.
Ana Luísa Janeira: A ligação é académica e afetiva. Alzira escreveu depoimentos marcantes em homenagens à Profª Doutora Ana Luísa Janeira no Triplov, reforçando o papel de ambas na ponte entre a ciência (História e Filosofia da Ciência) e as artes.»
A diversidade que nos liga não explora só o tempo e as áreas do conhecimento, também incide nos lugares por onde nos movemos, cujos caminhos todos eles ensinam. O espaço privilegiado de Maria Alzira não é só São Paula nem o imenso Brasil, ela viveu cerca de dez anos na cidade do México, onde publicou algumas das suas obras, a exemplo de A ordem secreta dos ornitorrincos, na versão em espanhol, La orden secreta de los ornitorrincos .
Mais uma vez a Major Zinga contribui para este editorial, trazendo, dos confins da Internet, lugar de trânsito em que somos pioneiras, mais informação, acrescida da nota de que, segundo os críticos, a autora utiliza estas “ordens para criar escritas nômades, refletindo a sua própria experiência de vida entre o Brasil e o México”. Citemos a Major:
«A ordem secreta dos ornitorrincos (2008, Amauta Brasileira / 2009, Aldvs México): É a obra central que mencionaste, escrita durante o seu período no México. O livro é frequentemente descrito como uma rede de relatos em que as personagens se repetem em diferentes versões.
A ordem secreta dos dromedários: Embora menos citada em catálogos comerciais, esta obra é referida pela crítica e em contextos académicos como parte da sua produção experimental iniciada no México, mantendo a estrutura de “ordem secreta”.
Aleijadinho: Homem barroco, artista brasileiro (2008): Embora seja um ensaio biográfico e não uma “ordem”, foi publicado no mesmo período e reflete o seu interesse pela história e cultura brasileira sob uma perspetiva crítica.
O doutor e o jagunço: ciência, mestiçagem e cultura em Os Sertões (2000): Uma das suas obras académicas de referência, focada na análise da obra de Euclides da Cunha.».
A Maria Alzira Brum Lemos expõe agora no Triplov uma amostra do seu talento, feito precisamente da mestiçagem de saberes e modos de fazer, aliança das mais férteis no terreno cultural entre ofertas tão variadas vindas de tantos campos do conhecimento, entre ciências, letras, artes plásticas e o que mais vier, que é sempre enriquecedor.
Senhora da inclusão, a sua escrita é forte, veemente, explosiva de “realidade total”, como ela diz, sem medo de exclusão por censura social ou académica. Aliás, educada para a academia, preferiu a independência dela, o que implicou decerto sacrifícios de ordem vária, como o de traduzir por necessidade. A propósito de tradução, devo-lhe a de “No Lago Titicaca”, publicado no Chile numa antologia de poetas portugueses. Help da Major Zinga: El respiro inquieto / O respiro inquieto – Cinco poetas portugueses . Organizadora: Julia Wong Kcomt .
De diversas maneiras os caminhos se interligam depois do cruzamento em Madrid com a garota do CSIC. Muito nova, cheia de ginástica e energia, esse é o meu retrato mais compatível, não com a pessoa da Alzira, sim com a obra dela, firme em duas fortes pernas, a fantasia calibrada por uma informação científica sempre atualizada e uma invulgarmente sólida cultura.
