
MARIA ALZIRA BRUM LEMOS
O Lost Forever é uma casa noturna underground do Rio de Janeiro onde tocam música dos anos 70, 80 e 90. Lembra um lugar que aparece num filme com estética entre decadentista e futurista que vi há alguns anos e de cujo título e argumento não me lembro.
No Lost Forever, os nomes são circunstanciais, de modo que não me passou pela cabeça perguntar o dele ou dizer o meu a este homem quando coincidimos no balcão. Passaram-se alguns minutos e estamos na antessala do banheiro, na penumbra e praticamente vazia a esta hora.
Lie to me.
*
O roteiro compartilha com a maioria dos romances um grau de previsibilidade que oferece tanto ao escritor quanto ao leitor ou espectador um grau de segurança sobre o que está escrevendo, vendo ou lendo, porque a incerteza não agrada à maioria. Isso foi o que disse o produtor quando me explicou como deveriam ser os roteiros que eu deveria escrever para uma série sobre fantasias sexuais femininas.
Na hora não respondi. Não entendia bem o que ele estava querendo dizer. Mas prestei atenção. Escrever roteiros é um frila conveniente, já que não sou escritora nem roteirista. Sou historiadora e trabalho num projeto acadêmico editando textos de testemunhos sobre a época chamada de transição da ditadura à democracia no Brasil, entre finais dos anos 70 e início dos 80. Mas é um trabalho mal pago.
Acabei tomando gosto pela tarefa e pela possibilidade de ir além de descrever e transcrever, que é o que fazem os pequenos historiadores como eu, de criar com as variáveis da realidade e da narrativa. Talvez o roteiro de televisão, como os romances, tivesse limites, alcance e finalidades confusos que poderiam, de alguma forma, ser explorados.
Mas, nas primeiras entregas, comecei a ter problemas com o produtor. Ele exige que os roteiros sejam simples, sem metáforas nem adjetivos, que os argumentos, embora com “qualidade e diferenciados”, sirvam para levar as pessoas a ver a série. Ele enfatiza diferenciados, esta palavra que já vai passando de moda e já soa um pouco gasta, ou tudo isso ao mesmo tempo (a vida do sentido costuma ser muito breve).
Tento explicar-lhe que é necessário buscar o diferente, o elemento inovador. Ele me responde que para isso já existem os romances experimentais e o cinema de arte e os performers e os escritores de internet e dos cursos de literatura criativa e certos poetas e uma infinidade de babacas que se acham e que, se eu não posso me adequar às exigências do trabalho, é melhor buscar outro.
*
Eu poderia voltar a transar alguma vez com o cara do Lost Forever, e até conversar com ele, ampliar sua participação nesta história. No entanto, a ideia de não voltar a vê-lo me parece mais excitante, e o mundo sem ele, uma história aberta. De modo que ajeito o vestido, lavo o rosto e faço menção de ir embora. Ele também tenta se recompor. Estamos nisso quando de repente me pergunta:
−Como você se chama?
−Anaïs.
Parece um pouco cansado, mas ri como se tivesse ouvido uma piada, talvez pensando em quando contar a alguém que transou no banheiro, ou na antessala (para não sermos tão óbvios), de uma casa noturna underground (dito por ele este termo não pareceria anacrônico) com uma garota que disse se chamar Anaïs.
Mas é verdade, me chamo Anaïs. Meu nome é suficientemente estranho e exótico para parecer uma fantasia, ainda mais nesta situação e latitude, de modo que nem me dou ao trabalho de inventar outro. Seja como for, não importa, pois todos os nomes são de certo modo ficções que o tempo, os cartórios, as certidões, as carteiras de trabalho, os títulos de eleitor, os obituários se encarregam de transformar em verdades provisórias.
−Por causa da escritora?
−Quem sabe? −digo enquanto ele continua sorrindo e me olhando como se eu fosse uma menininha contando uma mentira travessa.
−E você, como se chama?
−Invente um nome para mim, o que você quiser.
−Vejamos… O que você faz?
−Sou jornalista e escritor.
Retribuo seu sorriso de “não acredito” e sigo o jogo.
−Que tal Henry?
Suas supostas profissões, além do mais unidas por um “e” atrelando realidade e ficção não me causam simpatia. Preferiria que dissesse gerente de banco, médico, advogado, pedreiro, qualquer coisa que não me gerasse a desconfiança de estar frente a um espião a serviço de uma causa dúbia como uma equação quântica.
Uma frase de Anaïs Nin,“a carne contra a carne produz um perfume, mas o roçar das palavras só engendra sofrimento e divisão”, me vem à cabeça. Minha vontade de sair à rua e ver a luz do dia aumenta. Henry, que afinal continua sendo o Senhor Sem Nome, que tinha ficado sério, agora sorri de novo. Noto as rugas em volta dos olhos e boca. É muito mais velho que eu, não que a idade o torne menos atraente. Ao contrário, ele tem alguma coisa de personagem. Que diabos estará fazendo aqui? Certamente pela música antiga.
−Muito prazer.
Segue-se o silêncio incômodo que costuma se dar entre desconhecidos que fizeram sexo. O mesmo que também ocorre com aqueles que acreditaram se conhecer e amar e, um dia, de repente, muitas vezes depois do sexo, sentem vontade de sair correndo, livrar-se do desconhecido ou desconhecida que se revela ao lado.
Então nos despedimos com um “nos vemos”. Sim, penso, é claro, no Lost Forever, onde imagino, e gosto de imaginar, ele nunca voltará. Nem eu. Os que voltarão, se voltarem, serão outros, e se estranharão e se desconhecerão.
Caminho para a saída sem olhar para trás. Na porta, coloco os óculos escuros. Sigo até a Avenida Atlântica, pego o calçadão, onde já há pessoas se exercitando ou a caminho do trabalho.
A certa altura, paro e fico olhando o mar de onde há pouco saiu o sol. Um resto de gosto do Senhor Sem Nome misturado com o cheiro da praia. Eu me sinto incrivelmente livre neste vestido branco, neste verão, nesta praia, diante de algum futuro.
Pouco a pouco, Lie to me vai se misturando com os barulhos do dia até desaparecer.
*
“Para fotografar castelos de areia é necessário
situar-se no mesmo nível do castelo.”
(A fotografia ao alcance de todos).
A foto os mostra numa praia da Zona Sul. Não estão naquela pose clássica, em que se veriam de frente, quem sabe até abraçados. Estão meio de perfil, ela à esquerda do espectador, e parecem conversar olhando-se nos olhos. Em segundo plano se vê um castelo de areia meio desfeito. Aos pés dela, uma grande sacola. Ao fundo, o mar e o céu. Suas bocas não sorriem abertamente, embora seus olhos pareçam fazê-lo. Pelas expressões parecem à vontade, talvez contentes. Suas figuras estão bem delineadas e iluminadas, indicando que a foto foi tomada com a luz favorável do final da tarde.
Pelas roupas e pelos tons da imagem se nota que era um destes poucos dias de meia-estação em que o frio luta para tomar o lugar do calor que resiste a deixar a cidade, como se o clima quente e o Rio de Janeiro formassem um todo indivisível. Um dia do qual se poderia dizer, usando uma frase tirada de um romance ou de um livro de história, que contém “todos os fervores do verão e todas as melancolias do inverno”.
Acredito ter ouvido alguma vez minha mãe dizer que adorava estes dias de meia-estação. Embora isso possa ser uma falsa lembrança, ou a lembrança de um terceiro, porque às vezes eu dava para fazer perguntas sobre ela a todo mundo, ecoa claro na minha cabeça o tom romântico, um tanto exaltado, da voz dela. Agora penso que os termos “fervor” e “melancolia”, para não falar do “adoro”, soam um pouco brega.
Ela veste saia clara um pouco acima do joelho, blusa preta e sapatos planos. Ele, jeans escuros e jaqueta do mesmo tom sob a qual se vê, sem que se consiga identificá-la, parte da estampa laranja da camiseta preta. Calça botinas pretas e, na mão direita, segura uma caderneta.
Exibem uma elegância simples, mais de acordo com a que se costuma ver em São Paulo do que nesta paisagem frequentemente repleta de turistas e locais com roupas leves e coloridas. Ambos têm o cabelo castanho, claro o dela, escuro e ligeiramente cacheado ou um pouco despenteado, como talvez se usasse então, o dele, realçando o frescor adolescente de sua figura. Ela é claramente alguns anos mais velha que ele. Seja como for, parecem bem juntos e até, por que não, um casal.
A foto foi tomada em 13 de fevereiro de 1979 com uma câmara Kodak 177 instamatic lente f/11 42 mm, velocidade 1/40 a 1/80, filme 126, fabricada na Argentina. Conheço os dados porque ainda tenho essa câmara. A data está anotada no verso da foto, que também conservo com todo cuidado. Embora a tenha digitalizado, resisto a mandar fazer cópias em papel. Talvez por medo de que ao reproduzi-la se perca algo do que a faz tão especial, que seus rostos acabem numa espécie de limbo, como os destas fotos que a gente vê nas feiras de antiguidades e das quais se perderam referência e referente.
Essa foto está entre os poucos objetos que restaram da minha mãe. Juntos, um elefante de pelúcia esquisito e gasto, alguns discos, fotos que organizei em álbuns e molduras, uma corrente de ouro, ocupam um pequeno canto da estante do meu apartamento.
Se não fosse pela data no verso, pareceria que a foto foi tomada recentemente e submetida a algum efeito digital de vintage. Seus personagens parecem estranhamente atemporais, talvez anacrônicos ou futuristas, para 1979. Poderiam se materializar agora mesmo num ponto qualquer da cidade e até entrar em um supermercado ou um bar sem que ninguém notasse que procedem de uma fotografia, ou de um fotograma de um filme esquecido ou nunca concluído.
As pessoas não envelhecem nas fotografias. Se a única referência que a gente tem de uma pessoa é uma foto, sempre vai vê-la da maneira como aparece ali. Não se pode imaginá-la em outros momentos de sua vida. Por isso dizem que as fotos congelam alguma coisa. Neste caso congelou também em algum ponto de sua juventude a única imagem da minha mãe com o homem que se supõe ser o meu pai. Nunca o conheci. Na foto aparece como um rapaz de uns 20 anos, vários menos do que eu agora. Minha mãe aparece como me lembro, nem jovem nem velha, um tanto indefinida, como um destes dias em que se misturam as estações e que ela “adorava”.
Ela nunca envelheceu. Morreu no início de 1985, quando eu acabava de completar 5 anos. Encontraram o corpo na praia alguns dias depois do seu desaparecimento. O boletim de ocorrência apontou “possível afogamento”, deixando em aberto vagas e variadas hipóteses sobre a causa da morte.
Independentemente do gênero ou estilo, policial, mistério, ficção científica, aventura, pós-moderna, pós-pós, roteiro, biografia, poesia, boletim de ocorrência, se a minha vida fosse um texto, a primeira linha seria uma frase escrita com luz num retângulo de papel. Pura superfície: plana, escorregadia, impenetrável.
*
Nos fins de semana minha mãe me levava para passear. Íamos à Quinta da Boa Vista, ao Aterro do Flamengo, às vezes à praia na Zona Sul, de trem. Neste caso sempre de manhã cedo ou no final da tarde, porque ela não gostava do sol forte. Eu tinha um balde com uma pá e moldes de plástico para brincar na areia. Em certa época usávamos biquínis iguais, de crochê. O crochê, depois de muito usado nos 60, cedeu lugar aos tecidos sintético. Mas voltara a estar na moda no começo dos 80. Não era muito adequado para a roupa de banho, me lembro que meu biquíni esticava quando molhava. Também íamos a parques de diversões. Só uma vez fomos ao zoológico, minha mãe também não gostava de ver animais enjaulados.
Quando eu perguntava sobre o meu pai, ela me contava uma história em que ele era o personagem principal, um viajante do futuro que vinha parar no Rio dos anos 70 por causa de uma máquina confundida ou quebrada. Mais tarde soube que este era o argumento de uma série de televisão chamada Túnel do tempo cujos 30 episódios foram transmitidos nos Estados Unidos entre 1966 e 1967 e tirada do ar devido à baixa audiência e falta de interesse por parte dos patrocinadores. Não só não conseguiu ranquear entre os setenta programas de maior audiência da televisão estadunidense naquele período como teve o pior resultado entre as séries do mesmo produtor. No Brasil, no entanto, foi um sucesso, sendo retransmitida diversas vezes até os anos 90 e ainda hoje como série de culto.
A trama se situava num futuro próximo quando o governo dos Estados Unidos dirige um projeto secreto que consiste em construir uma máquina do tempo. A máquina é uma espécie de corredor de forma cilíndrica chamado túnel do tempo e está num complexo subterrâneo no deserto do Arizona. O projeto é comandado por um general, e dois cientistas são responsáveis pela operação do túnel. Mas, como os custos aumentam a cada dia, um senador pede uma investigação. Ele, como acabaria acontecendo com os produtores e patrocinadores da série, acha que o túnel requer muito dinheiro e dá poucos benefícios. Depois de uma visita ao complexo, anuncia que pretende fechá-lo. Com a intenção de provar que o túnel funciona, o jovem cientista Tony Newman liga a máquina quando ninguém está olhando e viaja através do tempo, indo parar no convés do Titanic justo antes do acidente.
O túnel tem um sistema de comunicação que emite imagens através do tempo, e seus colegas se dão conta de que ele está ali. Então o Dr. Dough Philips, seu amigo, se oferece para ser transportado levando um jornal do dia seguinte ao naufrágio para convencer o capitão a mudar a rota. Os amigos se encontram, comentam com capitão o que acontecerá e lhe mostram o jornal como prova, mas ele não acredita e manda prendê-los. Os cientistas conseguem escapar, mas não impedir a catástrofe. Quando o navio estava naufragando, são tirados dali.
Os viajantes do tempo passaram a ser monitorados por uma equipe que permanecia no laboratório e acompanhava seus deslocamentos. Essa equipe tentava encontrar uma maneira de trazê-los de volta. Enquanto não conseguia, dava um jeito de ajudá-los com os recursos de que dispunham, como precárias transmissões de voz ou, quando possível, envio de armas ou equipamentos. Quando tudo falhava, os tiravam de uma época e enviavam para outra data incerta do passado ou do futuro, dando início a um novo episódio. Às vezes uns estranhos seres interferiam no destino das viagens, dando aos cientistas diferentes missões a serem cumpridas nos locais para onde eram enviados.
Para rodar os episódios foram usadas imagens de arquivo de obras do estúdio. Reaproveitavam cenários e figurinos de antigos filmes históricos e de outras séries do mesmo produtor, como Viagem ao fundo do mar.
O sucesso do Túnel do tempo no Brasil nunca foi bem explicado. Segundo um especialista que estudamos na faculdade, seu compromisso ideológico com a Guerra fria e com mostrar a sociedade estadunidense como a mais avançada e mais justa era “bastante óbvia” porque, na maior parte dos casos, o mal podia ser associado metaforicamente aos soviéticos.
Já nas histórias que a minha mãe contava o meu pai aparecia do lado do bem, mas não dos estadunidenses. Era uma espécie de paladino que distribuía pão e justiça entre os pobres do Rio de Janeiro, do Brasil, do planeta, da galáxia, do universo. Segundo me contaram mais tarde, ele era de esquerda. Tudo isso me levou a imaginar que tivesse sido militante e até assassinado pela ditadura. Talvez fosse uma invenção minha, uma forma de justificar seu abandono, ou de incluir o meu pai numa narrativa mais além do texto da minha vida, de dar-lhe dimensões e importância tornando-o parte de uma história comum, compartilhada.
Li em algum lugar que cada um de nós é um universo que contém todas as idades vividas e por viver e que cada dia, hora, minuto, segundo e fração nos manda continuamente mensagens, que formam uma espécie de ruído de fundo entre a lembrança e a premonição.
Antes que me contassem sobre a morte da minha mãe, eu sonhava reincidentemente com o mar alagando a cidade, o bairro, o prédio, o apartamento. Acordava assustada, achando que estava me afogando. Depois estes sonhos foram se espaçando até praticamente desaparecer.
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Procurei informações sobre a minha mãe nos arquivos da Polícia. Talvez a morte dela tivesse alguma relação com seu trabalho. Embora relativamente tolerada, a atividade de sacoleira era ilegal, e a ilegalidade sempre implica riscos, especialmente numa ditadura e para uma mulher. Além disso, o Rio já era naquela época uma cidade violenta. Nas pesquisas que fiz, encontrei a seguinte estatística: em 1985 foram registrados 33,35 homicídios por cem mil habitantes.
Talvez tenham matado minha mãe para roubá-la, dado que costumava andar com dinheiro e mercadorias de algum valor. Talvez o tenha feito alguém relacionado ao negócio de compra e venda de produtos no Paraguai. Ou a própria Polícia. Talvez tenha sido uma casualidade ou um engano. Talvez tenha se suicidado. Talvez. Neste caso terá exercido sua liberdade, mais além de comprar e vender. Afinal o suicídio é um tipo de liberdade de que podem usufruir filósofos, ricos, pobres, militantes, sacoleiras. Talvez a única verdadeiramente democrática.
