
MARIA ALZIRA BRUM LEMOS
O filme Cinquenta sombras de Grey ( Cinquenta Tons de Cinza, dirigido por Sam Taylor Wood com direção de Kelly Marcel, colocou em pauta o best-seller em que se baseia, publicado em 2011 pela britânica EL James (Erika Leonard James ) que teve seu sucesso baseado no fato de se apresentar como “um romance erótico dirigida ao público feminino” numa época em que o tema já parecia esgotado pela avalanche de pornografia on line.
Na época do lançamento do livro e do filme, a indústria do entretenimento tirou o máximo proveito do fenômeno. Foi colocada à venda uma série de produtos como algemas, cordas, lingerie de couro, vibradores e toda uma parafernália de “brinquedos sexuais” visando o público feminino.
As opiniões dos especialistas, psicólogos, psicanalistas, comunicólogos etc., se multiplicam tanto quanto se dividiram. Pornografia romantizada. Entretenimento. Moda banalizada como os gestos erotizados das cantoras pop que não escandalizam ninguém. Uma banalidade diante de questões como a dor, a violência política, os genocídios e a destruição do meio ambiente. Apenas mais um produto mais de uma indústria que não é tão mal, já que promove também uma visão mais aberta da sexualidade feminina.
Todas estas opiniões são parcialmente verdadeiras. Mas também podem levar a ignorar um fenômeno que envolve milhões de pessoas e incide sobre pensamentos e comportamentos relacionados à sexualidade e ao gênero, categorias que também nos definem individual e socialmente, além da classe ou da nacionalidade.
Com trama simples, literariamente irrelevante, cheia de lugares comuns, descrições exaustivas e repetitivas, 50 sombras de Grey não tem como ser analisado a partir sob uma perspectiva de crítica literária. Faz mais sentido tomá-lo como fenômeno social ou da cultura dos meios e, sobretudo, como um produto bem planejado. Apareceu pela primeira vez na internet, onde foi publicado originalmente em capítulos. A difusão na rede foi decisiva para sua escalada e estratégia principal. Não é um detalhe menor: isso meio permitiu que fosse reescrito com certa participação das leitoras, que dessa forma se sentiram coautoras.
Em princípio, 50 sombras agrada ao seu público em parte porque requenta em linguagem popular os elementos centrais dos romances “para mulheres” e dos clássicos do romance erótico sadomasoquista, como El hombre y la doncella, anônimo do século XIX, o Histoire d’O , de Dominique Aury, publicado em 1954 sob o pseudônimo de Pauline Reage. Anastasia Steele, a narradora de James, é uma jovem ingênua e inexperiente que inicia uma relação sadomasoquista com o milionário, bonito, decidido e perturbado Christian Grey.
Esses ingredientes não explicam por si o sucesso do romance, já que 50 tons não é a primeira obra com conteúdo sexual explícito narrado por uma mulher a se tornar best-seller. Delta de Vênus , a coleção de contos eróticos de Anaïs Nin escrita nos anos 30 segue sendo vendida até hoje e é considerada literatura de qualidade. A vida sexual de Catherinne M. , de Catherinne Millet, uma das mais importantes críticas de arte francesa e fundadora da revista Art Press, lançada em 2001, vendeu milhões de cópias em vários países.
No Brasil, entre os anos 60 e 70, Adelaide Carraro (1936-1992) e Cassandra Rios (1932-2002), com romances eróticos bastante ousadas para a época, bateram todos os recordes de vendas. Eu e o governador, na qual Carraro descreveu seu suposto romance com um político de São Paulo vendeu mais de 2 milhões de livros. Rios escreveu dezenas de romances e apenas um deles, A noite tem mais luzes, chegou a vender 700 mil exemplares. Esses dados são significativos se tomamos conta de que a população do Brasil nesses períodos variou entre 71 e 95 milhões com altos índices de analfabetismo. Há que considerar também que, embora houvesse menos oferta editorial, não existiam os esquemas de vendas e publicidade disponíveis na atualidade.
O que Anaïs Nin, Carraro, Rios e Millet têm em comum, além de usar o sexo ou o erotismo em suas narrativas, é que estas autoras, de alguma forma, agregam alguma coisa à liberação da mulher dos códigos sociais machistas e opressores. Seus livros escandalizaram muitos porque, de diferentes formas, colocavam a mulher em papéis ativos no que respeita à sua sexualidade.
O livro de Millet, na tradição dos filósofos libertinos, contém um olhar diferente para a sexualidade feminina, enfocada no sexo como fim em si mesmo, desvinculado do amor romântico, do intercâmbio econômico e de todas as demais formas em que é utilizado em função de alguma finalidade externa.
Rios era lésbica assumida e confrontada com sua literatura e atitudes a sociedade de sua época. Uma mulher diferente foi o primeiro romance brasileiro a enfocar a homossexualidade feminina (O Ateneu, de Raul Pompeia, publicado em 1888 e O bom crioulo, de Adolfo Caminha, em 1895, foram pioneiros em retratar a homossexualidade masculina). Apesar do seu sucesso, Rios e Carraro foram considerados “malditas” e perseguidas em um país majoritariamente machista e conservador em que nos anos 1960 se instalou uma ditadura.
O que diferencia 50 sombras de Gray dessas obras não está na abordagem mais ou menos explícita do sexo ou na qualidade literária. As diferenças estão na abordagem da sexualidade feminina. As autoras mencionadas e suas obras podem ser pensadas como parte da luta das mulheres por igualdade de direitos e mudanças sociais. Tanto no campo literário como no social e político, trazem novas ideias e visões sobre o feminino.
Nos clássicos El hombre y la doncella e L’Histoire de O, o sadomasoquismo é para os protagonistas uma forma de aprendizagem. Por meio da dor, se libera para usufruir de sua sexualidade. O aprendizado vai mais longe, já que se trata de, ao adquirir esse conhecimento, equiparar-se ao homem. O sadomasoquismo é um caminho para a liberdade.
EL James não é uma contestadora. Sua obra se insere em um contexto em que o sexo e a sexualidade não confrontam o machismo ou o conservadorismo. Em seu romance, são uma performance em um ambiente onde o que importa é “ter para ser” e não “ser”. Para a autora e sua protagonista, ao contrário das feministas ou das libertinas, a liberdade e a autonomia não são o objetivo. A mensagem do romance é conservadora e foi amplificada, principalmente, entre as mulheres das classes altas e médias, as que mais têm acesso aos direitos. Em 50 sombras, as algemas, os espancamentos, os diferentes brinquedos e práticas sexuais são formas de reafirmar os papéis tradicionais de gênero e atar, literalmente, Anastasia a Christian e seu mundo de luxo e riqueza. Coincidência ou não, o protagonista é homônimo de uma marca internacional de cosméticos.
No rastro de publicações como Cosmopolitan e obras como Sex and the city, 50 sombras “autoriza” às mulheres assumir seu gosto por material erótico canalizando o sentido de liberdade sexual para liberdade de consumir. Por isso a obra foi apresentada como “liberadora” e as críticas como “conservadoras”. O The New York Times chegou a afirmar que 50 tons “revolucionou as mulheres dos Estados Unidos”.
Os vínculos entre ficção, gênero e mercado remontam às origens da Modernidade, modo de vida e produção social difundida a partir da Europa nos séculos XVI-XVII. O romance “realista” está fundamentalmente implicado nos conceitos sobre o ser humano que foram difundidos desde então. Nele estão as origens dos roteiros e praticamente de todo o material da cultura audiovisual. O romance seria uma espécie de espelho da realidade e os significados que damos a termos como homem, mulher, família, amor, etc.
Quando falamos de ficção nos referimos ao livro, primeiro meio de difusão de amplo alcance. O livro é objeto, veículo e mercadoria, funciona como um signo de autoridade, como ideologia, como suposto portador de um saber ou de uma verdade. Com o desenvolvimento dos meios audiovisuais, estes passaram a compartilhar com o livro esta condição de “autoridade”. Hoje somos formados ou educados por uma superposição de enunciados emanados da tradição, da Igreja ou da família, das instituições, da escola, dos governos, das organizações políticas e de caráter social e, principalmente, pelos meios de comunicação, principalmente digitais, e pelo mercado.
De modo que nossa formação como cidadãos ou “sujeitos” ou “pessoas” se dá cada vez mais segundo o lugar que ocupamos como consumidores de bens materiais e simbólicos, ou ficções. Somos educados para ser “homens” ou “mulheres” através da reafirmação constante das diferenças entre os gêneros. Antes de nascer, as crianças já são representadas por signos que as definem como pertinentes a um ou outro gênero. O mercado se encaixou em grande parte de nossa educação sexual, delimitando as formas aceitas de exercício da sexualidade.
A pornografia, por meio de materiais como revistas, quadrinhos, filmes, vídeos, tem sido tradicionalmente direcionada aos homens. Às mulheres foram destinadas a outros tipos de ficção, dos quais o romance cor-de-rosa é a forma mais emblemática, e nestas as fantasias eróticas estão associadas ao amor romântico. Desde o ponto de vista do mercado, a diferença radical é que ao homem se permitiu o exercício lúdico do sexo, o sexo como entretenimento e forma de “relaxar e ficar bem”. Já para as mulheres, o sexo é mostrado como associado a alguma finalidade e requere múltiplas condições ou justificativas. A literatura “séria” ou “de qualidade”, assim como o cinema e a televisão, reafirma em geral esses papéis e estereótipos de gênero.
Embora o feminismo e a influência crescente das mulheres, homossexuais e transgêneros em todos os planos da sociedade tenham implicado mudanças, o amor romântico conseguiu se repaginar. O homem perdeu a exclusividade em relação aos postos de comando na economia, na política e na cultura, mas adquiriu a condição de objeto valorizado no mercado de relações. A ideia de que um homem é, entre sapatos de marca e cirurgias estéticas, o bem mais codiciado é difundida em revistas femininas, filmes e telesséries. Construído ao longo da história, consagrada na literatura e rematada por Freud e pela psicanálise, o conceito de que a mulher precisa de algo externo que confirme sua condição, é traduzida em uma multiplicidade de produtos destinados a dar-lhe o que supostamente não tem: sua identidade.
Assim, o corpo e o comportamento femininos são objetos de um aparato que trata de explicar às mulheres como elas devem ser, se comportar, se vestir, agir. Do desodorante íntimo à comida, do modo de conquistar um homem à forma de cuidar dos filhos, do penteado aos conselhos sobre como tratar os chefes, se trata de controlar a mulher, já não com a repressão direta mas com mensagens como “você deve usufruir do sexo desde que seja magra”, “é preciso liberar-se dos tabus, expressar os próprios desejos desde que sigam os códigos de conduta que dizem que os homens devem tomar a iniciativa”.
Sob a ideia de que reproduzem realidades, estes enunciados contraditórios se afirmam como uma ideologia poderosa de representação e atuam como resposta às supostas demandas femininas de “identidade”. A mensagem que dão é clara: a mulher deve comprar sua liberdade pode acessar comprando cada vez mais e seguindo todas as regras. De fato, o ideal é inalcançável.
O discurso da ciência reafirma que as diferenças psicológicas e comportamentais entre os gêneros têm origem na natureza. Cada ano são investidos milhões em investigações que abordam as diferenças de gênero a partir de indicadores fisiológicos, hormonais, neurológicos, etc. Essas investigações são exaustivamente difundidas não apenas em artigos científicos, mas também em uma cadeia de materiais jornalísticos e literários.
O amor romântico atravessa estes discursos. Embora o amor, como todos os termos e conceitos que utilizamos, esteja em permanente reinvenção nas práticas cotidianas, do modo como se difunde é uma ideia que se adequa aos interesses do mercado e não das mulheres. Sobretudo porque aparece como objetivo a ser comprado, como o corpo perfeito, ou a vida perfeita.
Sob este sistema de crenças, muitas mulheres que têm poder econômico, uma vida autônoma e não buscam nem precisam de um provedor, acabam desenvolvendo outras formas de dependência, como os amores problemáticos, as paixões doentias, as obsessões com o corpo e a aparência, os transtornos alimentares etc.
Sem embargo, o amor não é a matéria prima principal do erotismo e das novelas eróticas, e sim as fantasias sexuais mais comuns, entre outras: ter sexo com desconhecidos, em lugares exóticos, em público, com várias pessoas ao mesmo tempo, com pessoas do mesmo sexo e dominação-sadomasoquismo. Homens e mulheres, independentemente da opção, inclinação ou práticas sexuais, têm mais ou menos as mesmas fantasias, com variações a respeito do lugar em que cada indivíduo imagina neles. As fantasias são formas de expressar ou liberar a sexualidade. Controlarlas é uma forma de controle social.
Para muitas mulheres, o amor romântico e o masoquismo funcionam como fantasias que “autorizam” a relação sexual. 50 tons são usados e eles oferecem a possibilidade de consumir sexo por diversão, comprar pornografia na biblioteca ou no quiosque da esquina. Sem contestar, sem mudar, sem ter que se responsabilizar por um modo de vida inovador, as mulheres são finalmente incluídas no segmento de mercado da pornografia.
A moda passará imediatamente, e este texto é apenas um exercício de reflexão que vale um fenômeno contingente para abordar temas complexos que seguirão recriando. A vida suporta muito mais cores do que os tons de Grey.
