Atratores estranhos

 

 

 

 

 

 

 

MARIA ALZIRA BRUM LEMOS


Atratores estranhos*
Duendes


 Anões não são duendes, mas estes são quase sempre representados como seres de baixa estatura, menores do que os humanos.

Duendes não são humanos. O termo “humano” é aplicado ao gênero Homo e abrangeria, caso tivesse sobrevivido, uma ampla gama de espécies, como o Neandertal, o Homo Denisovano e Floresiensis, ou Homem de Flores ou Hobbit, como foi apelidado. Essa espécie media cerca de um metro de altura e desapareceu há uns 40.000 anos. Eram bem menores que os humanos atuais em geral, mas não eram duendes.

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Calle Corrientes, Buenos Aires, 2011.  Um homem de estatura média e uma anã caminham de mãos dadas. Calle Corrientes, Buenos Aires, 2019. Um casal similar. Ela usa um vestido vermelho.

Esses acontecimentos foram apenas coincidências, como o fato de você estar no mesmo lugar em ambas datas e atenta aos transeuntes. Objetivamente não significa nada. Os casais ou, o que seria uma coincidência ainda mais rara, o casal, poderiam passar sem que você os percebesse por estar olhando vitrines, cartazes de obras de teatro ou postos de souvenires.

Mas esta coincidência significou alguma coisa para você.

Da primeira vez que você viu o casal, estava acompanhada por um homem que se referiu “à coragem necessária para assumir uma anã como mulher ou namorada”.  Este mesmo homem, durante outro passeio, olhava com desejo roupas caras numa loja enquanto comentava que “vestido assim, poderia conseguir qualquer mulher”.

Da segunda vez você admira o casal e pensa como pôde estar acompanhada, ainda que por pouco tempo, por um homem tão estúpido e necessitado. Também pensa que, às vezes, o dono ou a dona da casa que você habita trabalha para destruí-la.

Agora você está em Buenos Aires para realizar um projeto a quatro mãos com um amigo muito criativo e famoso. Você se esforça. Ele não tem tempo, porque há tantas coisas para fazer. Ele não sabe, mas este projeto, mesmo que lhe pareça divertido e atraente, não é para ele. Um ser pequeno habita sua casa e o convoca para outras importâncias.

Jorge Luis Borges, traduzindo o que sentem muitos cegos, disse que eles não vivem na escuridão. Ao contrário, veem uma névoa branca. Talvez por isso alguns andem deslumbrados.

 

Foto: MA Brum Lemos

 

Você é curiosa e leu o Manual das criaturas visíveis e invisíveis da Criação, de Claudio Páleka, líder de uma seita uruguaia.  Segundo ele existem casais formados por humanos e duendes. “Os duendes possuem una potência sexual alta, embora haja poucas fêmeas entre eles. Por isso, em alguns grupos, tendem a buscar o sexo oposto de outros reinos, principalmente o humano”. O Monsenhor, sem usar linguagem inclusiva, continua: “Se está apaixonado, o duende tentará cativar o outro mostrando-se sábio e interessante. Se isso não funcionar, passará diretamente ao sequestro ou ocupação da casa da pessoa que ama e exigirá manejar os tempos ações (você pensa que esta expressão, “tempos ações”, renderia vários volumes de filosofia).  Tentará amarrar o outro, pois sentirá sua mobilidade como uma ameaça de engano e fuga. Mostrará sua tendência despótica, entorpecendo o outro em toda ação que seja individual e privada. Travará qualquer comportamento desconhecido e reprimirá sistematicamente os desvios que não se ajustem aos seus princípios”.

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Se você acredita ou alguma vez acreditou no amor romântico ou em certos projetos, pode ser que tenha tratado com um duende. Talvez agora mesmo more com um e ele seja o dono da casa.

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Não é simples, no entanto, o assunto. Estamos lidando com arquétipos, física quântica, truques de mágica, criaturas indefinidas, anime, folclore, cultura pop e, obviamente, senso comum e nonsense. Tempos ações como flechas de sentido: hábito, habitar, ser habitado, possuído por uma inspiração, uma emoção, uma paixão.

Os duendes não são exclusividade rio-platense. Habitam diferentes lugares e culturas, estão em contos de fadas, folclore, filmes, animes.  Aparecem em pinturas rupestres. Talvez sejam seres que só se atualizam quando se borram as fronteiras entre as dimensões, como certas tardes em Buenos Aires.

 

Texto inédito.

*Atratores estranhos é uma coletânea que deve sair no Brasil em 2027 reunindo textos novos e renovados.


REVISTA TRIPLOV 

Primavera 2026. Maria Alzira Brum Lemos .

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