Em Argel com Fernando Echevarría

 

Fernando Echevarría

 

 

 

 

 

 


EDITORIAL

Maria Estela Guedes / Em Argel, com Fernando Echevarría


A Pedro Adão agradeço a ideia e os textos relativos a Fernando Echevarría patentes neste volume da Revista Triplov, e agradeço-lhe também o ser jovem, pois já começa a pesar a idade da maior parte dos que se congregaram para darem alma ao projeto Triplov. A idade arrasta após si o cansaço, eu, de cansada, preferi trabalhar com imagens em vez de palavras o meu contributo para a homenagem a este poeta tão subtil, tão culto e intelectualizado, tão discretamente posicionado atrás da cortina de água das suas palavras. Pensei: este homem faz parte da história do 25 de Abril, envolveu-se em movimentos como o LUAR – «ESTA NOITE HÁ LUAR», escreveu Luís de Sttau Monteiro, e poucos saberiam neste título se ocultava um movimento adversário da ditadura de Salazar , que visava a revolução; este homem, prossigo, foi um revolucionário muitos anos antes do 25 de Abril, quando os nossos escritores de esquerda, mais conspícuos na vontade de mudança de regime, precisaram de se exilar, grande parte em Paris, outra parte em Argel. Echevarría foi um exilado nas duas cidades.

Em Argel, Fernando Echevarría conviveu com tantos outros exilados, entre os quais Humberto Delgado, imediatamente antes da passagem deste a Portugal e assassínio pela PIDE, a polícia secreta. Recém-liberta da tutela francesa, com a liderança de Ahmed Ben Bella, a Argélia recebia bem os independentistas, e muito me alegrou passear na marginal, desenhado o casario com arcadas, pois se tratava do Boulevard Amílcar Cabral, figura guineense igualmente independentista que muito prezo.

Procurei os livros de Echevarría coincidentes com a sua permanência em Argel, só um corresponde às datas, «Sobre as Horas», de 1963. E nem uma palavra sobre Argel, ou palavra direta, referida, fosse ela «Argel». Vou a Argel ver o que ele viu e de que não fala, decidi. Neste ponto agradeço a Flor Campino, esposa do poeta, algumas indicações e sinais de uma biografia que ele reprimiu na obra, e a meus olhos começou a transparecer então, em especial no laço amoroso que o unia à família. É um livro muito discretamente apaixonado.

Extraordinária viagem a minha, em que tudo correu o pior possível, desde o avião, que partiu com quatro horas de atraso, perdendo assim a conexão, em Barcelona, com a Argélia, até ao regresso, doente, do que imagino tivesse sido uma intoxicação alimentar. O pior ainda havia de vir mas já me adiantei na história, pois o visto nunca mais me era concedido, e sempre estava mal o que  manuscrevi, e depois pediram que dactilografasse, enfim. Compreendo agora que, com as melhores intenções, o embaixador em Lisboa tentava dissuadir a anosa turista de visitar um país não turistável. Eu sou teimosa. Muito teimosa. Por isso o visto foi finalmente enviado, a dois ou três dias da partida. Tudo correu bem excepto o que correu mal. O hotel, de 5 estrelas,  em teoria, 7 ou mais andares acima da classe média do bairro, era assim uma coisa inenarrável, no íntimo contraste entre luxo e decadência, que julguei ter abrigado De Gaulle nos seus tempos de fausto, atendendo aos mármores, às madeiras, ao que fora bom antes de um século em cima ter tudo degradado. É que para o pequeno almoço só o pão árabe cortava a fome engalanada com todas as boas terrinas vazias brilhantes de esfregadas.

Não, o hotel não tinha albergado jamais nem Ben Bella nem Humberto Delgado, o hotel é novíssimo, estreado já entrados na segunda década deste século, e mais não digo porque tudo correu bem quanto ao trabalho de tirar fotografias que a Argel me tinha levado. Como é possível?! Reunindo todos os sinais e todas as pistas, comecei a discorrer, já em pátrias terras que, sem perceber, tinha vivido uma semana num bordel. Espantosa experiência!

Tirei fotos, esse era o trabalho que me impus, e repito que correu maravilhosamente, numa bela cidade, conhecida como «Cidade branca», a lembrar em tudo a mão colonizadora de antanho, cuja língua francesa ainda na Argélia se fala. Nesse conjunto de fotos falta alguma das que tirei no bairro em que Fernando Echevarría viveu com a esposa, Flor Campino, o bairro de Hydra. É o melhor bairro de Alger, como eles dizem, numa colina de que se avista a magnífica baía pela qual se espreguiça a cidade. O trânsito ali é incompatível com boas fotos, não há espaço para recuo, e as vivendas e prédios, não muito altos, ficam ocultos pelos jardins arborizados.

Todas as fotos documentam o que o poeta viu em Argel, exceto a Grande Mesquita, recentemente inaugurada. Ele não viu essa maravilha da arte arquitectónica, aliança entre tradicional e moderno, imensa e sóbria. Mas eu vi e admirei, por isso ao menos uma fotografia a documenta.

À esposa e à filha, Ruth, ainda bebé, dedicou o poeta o livro «Sobre as horas», meu companheiro de viagem, não só a Argel, também à poesia tão interiorizada, de intensas metáforas amorosas, em que de resto o amor se divide ou se confunde no familiar e no social, a desejada revolução, antecipada em rosas e cravos.


FERNANDO ECHEVARRÍA – ÍNDICE

Revista Triplov

Janeiro de 2026