Ensaio para não morrer na praia

 

 

 

 

 

 

 

MARIA ALZIRA BRUM LEMOS


Ensaio para não morrer na praia
(fragmentos)


Em português brasileiro a expressão “Vai procurar sua turma” indica a uma pessoa que é diferente e, mesmo, inferior ao grupo do qual tenta fazer parte. É um imperativo de afastamento: “procure um ambiente adequado a você”. Em inglês se diz Get a life (arranje uma vida). Em espanhol, numa alusão clara à hierarquia colonial baseada na aparência: busca tu raza (procure a sua raça). Nos três idiomas, significa exclusão, pressiona a deixar para trás, mudar de lugar e condição, encontrar um habitat, já que este território físico ou simbólico já está ocupado, usurpado, conquistado, interditado, proibido para os que não pertencem a uma determinada classe, casta ou grupo social. É o início das segregações, dos muros e de muitas migrações.

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Inteligência, alguém disse, é a capacidade de mudar de hábitos. Uma tradução inteligente implica, portanto, ampliar e criar significados. Ouvir esta expressão também pode levar a uma tomada de consciência das variadas vozes, próprias e alheias, que impõem a ruptura, a traçar uma rota e começar outra etapa. A iniciar viagens e revoluções, buscar incluir-se em outra história, e na história. As grandes mudanças coletivas, por exemplo a que iniciou o modo moderno científico de pensamento e conhecimento, tiveram origem em diferentes tipos de segregação.

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O episódio bíblico da expulsão de Adão e Eva do Paraíso é uma representação deste processo. Deus não apenas manda embora o casal como o condena a construir seu lugar e sua turma. Uma representação pop, nem por isso carente de profundidade, aparece no filme O casamento de Muriel (P.J. Hogan, 1994). Em uma cena, a protagonista, uma garota inadaptada, explica por que está indo embora de sua pequena cidade natal: “para ser eu mesma, ou seja, outra pessoa”.

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Vi este filme faz tempo em um cinema que não existe mais. Descrevo-o agora, escrevo, desde outra pessoa, outro tempo, outro lugar, outra pele. Ao dizer outro-outra também digo fronteira. Traçar fronteiras como separação e ao mesmo tempo conexão. E, ao fazê-lo, evoco conflito e diferença, mas também mistura entre próprio e alheio, conhecido e desconhecido, memória e futuro, limite e imaginação, entre o roteiro dos outros e o meu. Escrever é uma forma de migração, de procurar a turma da gente, “formar povo” (G. Deleuze).

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As migrações, ou deslocamentos de populações animais e humanas, são uma característica da vida no planeta. Vão marcando a pele da Terra e imprimindo rotas, rastros, refazendo fronteiras e proporcionando mudanças. Viver não é só deslocar-se numa cronologia, mas também nas identidades e em dimensões não lineares dos tempos e espaços, da história, das histórias, da memória.

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Fui à Cidade do México pela primeira vez em 2008 para participar de um encontro de escritores Ibero-americanos e dar um curso numa escola de escritores pouco ortodoxa. Estas atividades contribuíram para que, naquele momento, eu me tornasse outras pessoas: escritora ibero-americana, como propunham os organizadores do encontro, ou latino-americana, como adotei depois, implicando neste termo língua e geografia, pessoa em trânsito, parte de um coletivo migratório, interessada em conhecer de forma participante os diversos usos e formas da língua, da escritura, da literatura, da arte, da vida.

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Escolhi na época o termo latino-americana como forma de resistência, pelo menos para mim, aos limites do nacional, do que chamo, imprecisamente, de corporação literária e da suposta condição de autor-autoridade definida em função da propriedade privada das ideias e do seu valor de mercado. Hackeei este termo em um momento, começo dos 2000, em que as formas de criar, fazer e difundir textos haviam sido profundamente impactadas pela expansão da apropriação social dos meios digitais. Fiz isso como nômade. Tratava-se de usar e cultivar um território geográfico e simbólico, deslizar nas novas acepções e práticas literárias, cuidar dele e depois devolvê-lo ao coletivo. Tratava-se ainda de defender este território de se tornar propriedade privada. Latino-americana não implica um sentido fechado, uma condição pré-definida, uma disciplina, uma definição mercadológica ou uma senha de identidade. Assume, neste contexto, a condição de nó de rede: translação, comunicação, transversalidades. Línguas, cartografias, percursos, virtualidades, grafos.

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Tecer e destecer clichês é também uma forma, entre muitas, de falar desde o instante depois do fim do mundo. Falar desde uma deriva no mar, sobrevivendo com os restos que flutuam em volta de uma frágil e improvisada embarcação: objetos, textos, imagens, lembranças, sonhos, desejos. E de projetar, e ao mesmo tempo construir, assim, nave, texto, ilhas, histórias, casas, jardins, habitantes. Também um continente e um encontro de escritores. Arquiteturas móveis.

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Problema: a noção, enraizada, estabelecida, de que desde o latino-americano, e também desde o feminino ou outras perspectivas de classe, gênero, aparência, idade, não se pode criar pensamento, ou seja, construir teorias ou, em linguagem acadêmica, métodos e paradigmas. Latino-americano e feminino são termos que muitas vezes remetem a objetos, fenômenos, problemas, sistemas de racialização e, principalmente, a um conjunto de pré-conceitos que determinam lugares subalternos. Solução radical para um problema: substituí-lo por outro.

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Arrisco-me a mudar as regras, afinal este texto é também um jogo de sobrevivência em que o desafio é não deixar que se feche o círculo reviravolta-resistência-sentido. O texto é um modo de pensamento e conhecimento, exploração, parte da verdade, metonímia. Penso isso por uma razão que pode ser qualquer coisa menos “A Razão”. Trata-se de estabelecer um contraponto à unidade, à linearidade, às categorias estabelecidas, à perspectiva vista a partir de um suposto centro fixo.

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Solução radical para um problema. Por exemplo: uma deriva no mar depois de uma grande inundação. À deriva construir com os restos que flutuam ilhas e continente. Forma de procurar-me, descobrir-criar minha turma, minha raça, minha mara.

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O termo mara surgiu na América Central para designar as gangues juvenis. Por extensão, passou a designar a turma, os amigos com quem podemos contar ou com quem nos identificamos. Mara vem de marabunta, palavra de etimologia incerta que significa “população massiva de formigas migratórias que devoram tudo o que encontram no seu caminho e conjunto de pessoas agitadas e tumultuadas”. Uma multidão antropofágica, ruidosa, destrutiva, mas ao mesmo tempo, musical, sensual, interconectada, criativa.

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Naquela primeira vez em que cheguei à Cidade do México, ao sair do aeroporto e sentir a cidade, disse “vou morar aqui”. Tempos depois, aluguei um apartamento na Colônia, ou bairro, Roma. A superposição dos termos Roma e colônia, fazendo convergir império e periferia e designando um bairro bastante gentrificado, mas ainda misturado e resistente, inspirava também um novo olhar.

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Roma, colônia. Escrevo um conjunto de textos. Missão: salvar a literatura para que ela me salve. Salvá-la dela e nela mesma, na memória, no ensaio, na ficção, na poesia, na crônica, na literatura de viagem, na própria viagem, no corpo, na pele, na leitura, nas práticas coletivas, na oralidade. Salvá-la em ilhas que aparecem e desaparecem dos mapas e dos textos. Salvá-la também para que me dê o crédito de estar entre os vivos, salvar-me.

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Tudo isso acontece em um filme sem cinema em que os cenários e personagens vão se esboçando durante o processo. Até que a ilha seja continente e casa, e nela habite a mara, e este coletivo me dê uma força.

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Antes de morar na Roma, não nesta ordem, morei: em uma fotografia que ilustra uma obra publicada; em inúmeras casas e quartos alugados ao redor do mundo; em uma oficina literária itinerante; em idiomas estrangeiros nunca totalmente aprendidos; em Buenos Aires e na pele de uma travesti equatoriana fã do Roberto Carlos cujo destino está indefinido nas páginas de um texto inacabado.

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No seu perfil em uma rede social, esta travesti se define em portunhol como “dramática y romântica”. Arranca todos os dias uma folha do calendário do Coração de Maria pendurado na parede do seu quarto alugado. Está decidida. Este ano vai ao Brasil. Ou vai se matar se atirando, dramaticamente, no Rio Guayas. Cada folha, um passo em direção ao seu destino guardado no Coração de Maria e na memória do meu computador. Mas na moldura não sou eu quem lhe sorri, mas você vê o meu sorriso mesmo assim. Será arrastada para o mar pelas águas do rio? Eu sei que estes detalhes vão sumir no vão da estrada do tempo que transforma todo amor em quase nada. Ou irá finalmente ao Brasil?

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Ensaio para não morrer na praia é um conjunto de imagens e textos que poderia ser definido com as palavras que Julio Ramón Ribeyro usou para explicar seu Prosas apátridas: uma obra formada “em primeiro lugar, por textos que não encontravam lugar entre meus livros já publicados e que erravam entre meus papeis, sem destino nem função necessários. Em segundo lugar, são textos que não se ajustam cabalmente a nenhum gênero, pois não são poemas em prosa, nem páginas de um diário íntimo, nem anotações destinadas a um posterior desenvolvimento (…) carecem de um território literário próprio”. Também poderia caber em alguns conceitos, como o pós-moderno, e em uma série de teorias, influências, tendências que, obviamente, emergem nele. Mas este não é um conjunto de textos sem gênero ou lugar definido, ou que não cabe numa produção organizada. Não está deslocado em relação a nenhum eixo ou referência. Considerá-lo desta maneira fecharia as portas desta leitura. Problema de sobrevivência: como adentrar portas fechadas. Solução: substituí-lo por outro problema, por exemplo o início da deriva.

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Buenos Aires, Igreja de La Piedad. Em frente, espero que alguém venha à reunião de pessoas que conseguem voar ou levitar que convoquei distribuindo panfletos pela cidade numa ação performática. Enquanto espero, entro e observo uma pintura no teto que representa a expulsão de Adão e Eva.  Desprovida da aura da pintura clássica, a cópia parece profana e até erótica, ou mesmo ridícula.

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Espero e espero. Não chega ninguém. Começa a chover. Quando saio, está caindo uma tempestade. Esta tempestade provocará uma inundação que levará todas as coisas, imagens, signos, palavras, incluindo as que estavam nas bibliotecas e livrarias, para o Estuário e depois para o mar aberto. Em meio ao caos, penso que aquele anjo nu, meio erótico meio ridículo, ainda assim ali representante da arte e da “cultura dominante”, estava me dizendo: “lo perdiste, adiós pelotuda”.

 

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Reviravolta.

Recolho uma fotografia que flutua ao redor da embarcação. Nela, um menino, vestindo apenas um short, está parado em frente a um brinquedo num parque. É uma cena sem origem, sem nome, sem tempo, sem referente. Depois da inundação, não se pode mais delimitar coordenadas para as imagens e os signos. De qualquer forma devo fazer meu mapa do futuro com o que encontro e lembro, como as mensagens virtuais que a travesti equatoriana recebe: projetos, textos roubados, esperanças de sentir e sentido, promessas: durante muito tempo em sua vida eu vou viver. O começo da nova turma.

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Roma, colônia. O telefone toca no apartamento recém-estreado. Juan Ángel, por favor? Aqui não mora ninguém com esse nome, respondo, foi engano. No mesmo dia, no final da tarde, saio para caminhar e, em uma esquina, encontro, gravada no cimento da calçada, a seguinte frase: “Eu consigo voar. Assinado: Juan Ángel”. Terei me enganado quanto à hora e o local da reunião convocada em Buenos Aires. Coloco a culpa nas distrações do Império: entre outras, as redes sociais, as crônicas e notícias fake, armadilhas para me abduzir ou me desaparecer. E também neste costume de continuar o roteiro quando o cinema, ou o continente, não existe mais.

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Roma, colônia. Nos fundos do meu edifício há um jardim formado por trepadeiras que sobem pelo muro e vasos com diversos tipos de plantas: nardos, cacaloxóchitl, rosas, capuchinhas. São espécies híbridas que não apenas levaram muito tempo como precisaram de muito trabalho para reunir-se nesse lugar de modo mais ou menos ordenado formando um jardim: Continente. O zelador do edifício está regando as plantas. Eu me apresento e ele me diz seu nome: Juan. Não sabia que o senhor trabalhava aos sábados, comento. Não tenho que vir, responde com um sorriso quase sem dentes. Venho porque me aborreço na minha casa. Aqui tenho o jardim.

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Uma frase gravada no cimento por alguém que não está, um nome sem referente, onde nascem as palavras, meus textos, corpos de sylicon valley, mensagens de SOS, promessas, iour lips nos meus com lip gloss, ay uant to, novelas e telenovelas brazileras, os vales de lágrimas, valei-me idioma bárbaro, delenda el corazón de María, o coração é uma planta carnívora que floresce no jardim dos incautos, este texto é uma flor bela na boca dos incultos, texto flor, flor de fotografia, flor puro nome, foreign flor, flor em língua encaprichada, desviada, corrompida.

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Custou-me muito tempo e trabalho resgatar o menino da foto, situá-lo em uma narrativa, vesti-lo, travesti-lo e fazê-lo voar. Fiz isso como aluna numa oficina literária que não concluí porque meu texto, segundo os professores, não correspondia ao exigido, que deveria ser uma crônica: “texto literário breve, em geral narrativo, de trama quase sempre pouco definida e motivos, na sua maior parte, extraídos do cotidiano imediato”. Acho que entendi sim, mas não discuti.

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Roma, colônia. Numa feira compro um livro que o autor descreve como um “romance, um poema épico, uma sequência de cantos à espera de numeração, um mural de sala-de-aula, uma autobiografia, um agregado de enigmas, uma ópera polifônica, uma dissertação sobre os males da vida da arte, um tratado sobre a natureza humana, uma variante contemporânea do livro egípcio dos mortos, uma espécie de fuga verbal, uma tragédia clássica (em muitos sentidos), uma coisa que é somente uma leitura”.

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Decido fazer minha própria oficina literária. Substituo a crônica por literatura de viagem, já que se trata de estabelecer conexões entre um sujeito perceptivo e o mundo que lhe é revelado, descoberto ou imaginado. Uma viagem que contém outras. O deslocamento, do lugar, do conceito, do próprio fazer, do gênero, da identidade, como possibilidade. Meu texto, ao mesmo tempo travessia, busca e construção da mara. À casa própria se justapõe a casa alheia: escritura em processo de ruína, resgate, construção, apropriação. Decoupage. O filme que passa na cabeça da gente diante da iminência da morte. Meu texto: tudo isso e também autobiografia de resistência, para-autobiografia, autobiografia criativa. As regras mudam durante o jogo. Agora: percorrer este texto como quem percorre a pele da língua com a língua.

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Estamos em uma festa. É uma despedida em que vários dos presentes se veem pela primeira vez. Espécies exóticas reunidas em um lugar e separadas da rua por uma vidraça que ocupa uma parede inteira do apartamento. Continente. Desta janela se avista um parque com brinquedos igual ao que aparece na foto do menino. Prometo ao homem bonito que está se despedindo, a quem acabo de conhecer, que falarei desta festa num texto em que abordarei também questões relacionadas ao travestismo, à performance de sobrevivência, às identidades e idiomas em trânsito, à literatura latino-americana, às metonímias: nave, apartamento, ilha. Prometo que farei caber esta festa em um texto como plantas em vasos, vasos em jardins, continentes em conteúdos, o real na travessia, nomes em espécies, espécies em nomes, verdade na ficção, meu conjunto de textos em um livro, nós em um apartamento, um romance, uma telenovela, um filme, uma música.

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Na minha oficina literária decido ajudar a travesti, tirá-la dos limites do coração de Maria. Juntas empreendemos voo. Depois de algumas horas, avistamos uma ilha. Desaparece em seguida. Voltamos a avistar terra, agora um continente. Reconheço o Rio de Janeiro. Delineiam-se jardins. Alguém disse que os jardins são um modo singular de criar planos e construções, fronteiras entre a realidade e o imaginário, entre o possível e o impossível, entre a fuga e a reconstrução. O Rio visto do alto, do voo. Casa: este lugar tão desconhecido, jardim de espécies exóticas, híbridos por descrever: a travesti, Juan Ángel, as pessoas daquela festa, o homem de partida a quem prometi um texto, o menino da fotografia, minha turma, a mara. Casa: abrigo já ocupado por um anjo meio erótico meio ridículo cuja mensagem está em uma língua de fronteira que nunca aprendi totalmente. Um idioma sentido ou pressentido.

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Sentir significa estar implicado em alguma coisa. Sentir se associa a pele. A pele costuma ser entendida como a envoltura, o que guarda e protege nosso interior, algo assim como uma fronteira. Mas a pele, como toda fronteira, é antes uma abertura, um vínculo com o mundo. A pele é permeável e receptiva às influências e trocas do entorno, e este também se modifica pela ação de cada corporeidade. A pele é periferia, sentido de conectar e misturar.

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Um outro livro que comprei naquela feira fala das ideias de Severo Sarduy sobre biografia e autobiografia: “Sarduy pensava que ninguém sabia menos de si mesmo do que aquele que enunciava sua vida em função de uma verdade. Sempre desconfiou dos relatos biográficos ou autobiográficos que, de modo mais tradicional, vão debulhando progressivamente uma cronologia e dão a entender que existe uma amarração necessária entre causalidade e sucessão, ou seja, que aquilo que acontece depois em uma vida é produzido, naturalmente, pelo que veio antes… Daí que recorresse sistematicamente à paródia ou a certas formas de narração alternativas toda vez que lhe pediam que resumisse sua trajetória. A entrevista que deu a Mihály Dès em 1990, “Para uma biografia pulverizada. e, deste mesmo ano, “Lady S.S.”, seu autorretrato em traje de diva ou de rumbera, são dois bons exemplos desta postura crítica diante do testemunhal e do íntimo. Mas a melhor e mais original de suas autobiografias é, sem dúvida, a breve série incluída em El Cristo de la rue Jacob (1987), “Arqueologia de la piel”. É um conjunto de seis textos em que, descrevendo suas cicatrizes em uma ordem rigorosamente descendente, da cabeça aos pés, vai recriando diferentes momentos de sua vida. “Somente conta na história individual aquilo que fica cifrado no corpo e que por si mesmo continua falando, narrando, simulando o evento que o inscreveu”, diz o prólogo. E, em seguida: “A totalidade é uma maquete narrativa, um modelo; qualquer um poderia, percorrendo suas cicatrizes, escrever sua arqueologia, decifrar suas tatuagens em outra tinta azul”. Ou, dito de outro modo: qualquer um poderia reescrever diversamente sua própria história, atendo-se a um padrão que, por não ser nem mais nem menos arbitrário do que o relato tradicional, coloca em evidência o caráter contingente de toda autobiografia, sucata, afinal, de uma existência”.

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Ao contrário do que tentam nos fazer crer, a literatura não é neutra, nem eterna, nem universal, nem identitária, nem nacional ou continental, muito menos sedentária ou totalitária. Como todas as atividades inteligentes ou criativas, e também como a própria matéria de que é feita, a língua, se constrói e se lê no contingente, no mutável, na mutação, nas trans-versalidades. Em um processo de migração. A escritura e a leitura são, assim, tanto atos de construção como de destruição da ficção, da crônica, dos gêneros, da biografia e da autoria. A literatura pertence, sempre, a quem a usa.

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Escrever: ato da língua em necessidade e inquietude migratória. Esta escritura é pura pele. Esta pele, como o orgasmo, é difusa. Seu sentido, como o sentir, é periférico. Penso isso enquanto o Rio de Janeiro já se avista bem próximo da janela do avião. Volto à “casa”. Volto para participar de um encontro literário. Na poltrona da frente, a travesti equatoriana lê numa revista de variedades o texto do panfleto que distribuí em Buenos Aires.

 

Obras citadas, consultadas ou mencionadas

João Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2006.

Mario Bellatin. El arte de enseñar a escribir. México, Fondo de Cultura Económica, 2008.

Juan Ramón Ribeyro. Prosas apátridas. Barcelona, Seix Barral, 2007.

Ana Luísa Janeira. “Natureza, jardins botânicos e utopias”. Asclepio, vol. 49, N I (1997): 144-159.

Roberto Carlos e Erasmo Carlos. “Detalhes”.

David Markson. This is not a novel. Berkley, 2001.

Gustavo Guerrero. “Severo Sarduy”. http://www.letraslibres.com/mexico-españa/severo-sarduy-o

Gloria Anzaldúa. Borderlands. La Frontera. The new mestiza. Aunt Lute Books, 2012.

 

Este texto reúne fragmentos de Ensaio para não morrer na praia, um conjunto de textos em processo, sem suporte ou ordem definidos, do qual algumas partes já foram publicadas em diferentes meios, línguas e combinações. Esta é uma versão revisada, ampliada e modificada da publicada em Curitiba pela Editora Medusa em 2017.


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