Fragmentos

 

 

 

 

 

 

 

MARIA ALZIRA BRUM LEMOS


Domingo


Bom dia a quem quebrou sua cafeteira e saiu para comprar outra às 8 da manhã. Aos que saíram para ontem à noite. Aos que beberam álcool barato. Aos que conversam dentro de um bar onde ainda toca música. Aos que dormiram ao lado do caixa eletrônico de um banco. Aos que, sem saber, beijaram pela última vez na noite passada. Aos que médicos de um desaparecido império que diziam que a Lua visível durante o dia, como hoje, era mal presságio para os doentes. Aos doentes. Aos trabalhadores da também desaparecida Stadt des KdF-Wagen bei Fallersben. Aos que venderam seus primeiros sanduíches ao nascer do Sol. Aos que se dirigem à missa e às feiras de artesantos e antiguidades. Aos caídos e despossuídos. Aos que acreditaram na Roma eterna e no palíndromo. Às colônias. Aos que entenderam e aos que nunca.


O pão e o nome


Duas mulheres conversam sobre abrir um negócio: fazer pão. 2) Aquele homem tão bonito. 2) Permitir, permitir-se. 4) A transformação da matéria. 5) Ernestina, diz a mulher em situação de rua quando lhe pergunto como se chama. 6) O som do nome dela, a tarde inteira, antes da escritura. 7) Uma oficina-laboratório onde não se ensina nada, embora se fale. 8) Nomear e nomear-se como resistência à classificação da espécie como a carne, a mais barata do mercado. 9) Ainda vibrar, amplificar-se. Ernestina. 10) Ainda resistir à normalidade, ao término ou fim dos atos e das potências. 11) O momento da mudança: fazer pão.


Alarme silencioso


Dispara um alarme silencioso. 2) Na televisão fala o guardião solitário de um cemitério de vítimas: “faço o que posso espiritual e politicamente para que suas vozes sejam ouvidas”. 3) Campainhas de vento no apartamento ao lado. 4) Alguém me diz virtualmente “somos lindos e vamos morrer”. 5) A palavra sobrevivência fica enorme e vai engolindo as outras. 6) Espiritual e politicamente. 7) Sociedade da informação: tudo se sabe, nada se sabe. 8) O alarme toca quando a palavra está prestes a engolir-se. 9) Títulos de obras que não existem, legendas de fotos que nunca foram reveladas. 10) A realidade como laboratório de ficções. 11) Uma falsa polêmica.


Pequena geometria


Mulher da minha idade enquanto se arruma para sair reflete sobre vários assuntos intercalados: a crença, o misterioso desaparecimento dos panos de cozinha, a injustiça que subjaz na justiça, a diferença que faz a correta manutenção dos dentes, o problema da distância entre dois números, o próprio conceito de conjunto: crenças, panos de cozinha, injustiça-justiça, dentes, números. Uma geometria em que a superfície não é o contrário de profundidade: mulher de minha idade enquanto se arruma para sair.

 


REVISTA TRIPLOV 

Primavera 2026. Maria Alzira Brum Lemos .

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