Homem de bem

 

 

 

 

 

 

 

MARIA ALZIRA BRUM LEMOS


Matei a Helena. Não tive saída. Se o senhor me der uma chance para explicar, vai entender. Eu gostava dela. Era louco por ela. Não do jeito que o senhor está pensando. Nem estou louco agora. Ainda não. Mas vou ficar se o senhor não me entender. Eu sei que o senhor está acostumado a ouvir todo tipo de histórias e que não vai poder me ajudar se eu não contar tudo o que aconteceu de verdade. E a verdade é que eu não queria matar. Eu fui obrigado. Não tive culpa. Eu sei que todos dizem isso. Agora, se o senhor souber do que a Helena era capaz, vai entender. Não a Helena acordada. Acordada era uma pessoa boa. Bonita, o senhor precisava ver. Por isso que eu fiquei louco por ela. Sei o que parece, doutor. Mas não é o que o senhor está pensando. Não sou louco, aliás já nem era mais louco por ela. Fui eu que terminei. Se ela me ameaçou? Nunca, ela era um doce de pessoa. Só chorou um pouquinho uma vez. Normal. Era mulher, né? Claro que eu gosto das mulheres. Por quê? O senhor no meu lugar teria feito a mesma coisa. Eu sei que isso não vem ao caso e que o senhor não é assassino. Olha, era ela ou eu. Se ela tentou me matar? Tentou, mas não do jeito normal. Eu sei que o senhor não vai poder me defender se eu não contar tudo. Lógico que eu não quero passar o resto da vida na cadeia. Eu não sou bandido. Nem feminicida como elas estão dizendo por aí. Elas quem? O senhor sabe. Não, não quero comprar briga. Se o senhor acha que eu estou querendo enrolar, é melhor eu procurar outro advogado. Como é que eu vou ficar calmo? O senhor fica aí insinuando coisas, querendo que eu minta, fale mal da Helena… Como não está insinuando nada? Está querendo que eu diga uma coisa que não é verdade, que a Helena era ruim, que estava me ameaçando. Ela nunca fez isso. O problema é que ela não conseguia controlar o poder dela de invadir os sonhos dos outros com os dela. Eu sei que é difícil de acreditar, mas não era só comigo. Se o senhor não acredita em mim, pergunta para a família dela. Não vão falar com o senhor, querem me ver morto, já sei. Mas todo mundo sabe que ela tinha o tal dom. Como assim? O que é que o senhor não está entendendo? Vou tentar explicar. Se a Helena sonhasse, por exemplo, que eu estava morrendo queimado, afogado, dessangrado, eu ia morrer de verdade. Queimado, afogado, dessangrado. Eu sou muito novo pra morrer, doutor. Ainda mais de um jeito horrível assim. O senhor deve saber que as mulheres podem imaginar, e até sonhar, estas coisas. Como não sabe? Então o senhor não conhece as mulheres? Nunca teve que terminar um caso, um namoro, um noivado, um casamento? Como não interessa? O senhor precisa me entender para me defender. Se o senhor for mesmo tão bom quanto dizem, vai conseguir provar que eu é que sou a vítima nesta história toda. De que jeito? Simplesmente contando a verdade. Eu estou colaborando, sim. Que negócio é este de acordo com a Promotoria, psiquiatra? Por que eu não posso ir a julgamento? Eu vou, falo a verdade e pronto. O júri tem que acreditar em mim. Matei a Helena para me defender. O senhor faz a sua parte e coloca aí: “legítima defesa”. Eu sei que o advogado é o senhor, não precisa me dizer. Posso não ter esquentado tanto banco de escola, mas não sou burro. Aliás, antes eu pensava igualzinho ao senhor. Eu falava para a Helena: sonho é sonho, realidade é realidade e ponto. Mas eu não discutia, porque mulher se impressiona muito fácil, sabe como é. Não sabe? E principalmente por causa da doença dela. Ah, eu tinha esquecido de contar: a Helena era doente do coração. Tinha feito três operações, quase morreu numa delas. O senhor já sabia? Todo mundo já sabe? Como piora a situação? Estão achando que eu sou culpado pela doença dela também? Era o que faltava… Falaram na televisão? Meu nome caiu nas redes? Complica para eu sair da preventiva? Que gente nojenta! Para o senhor ver como são as coisas. Se eu tivesse ouvido os meus amigos nada disso teria acontecido. Quando eu contei que ia ficar noivo da Helena, vários me avisaram: é capaz de enviuvar antes de casar. Eu sei que são mortes diferentes. Mas eu era louco por ela, não ficava pensando na doença. No começo eu só pensava… bem… o senhor sabe no quê. Agora louco de ciúme eu nunca fiquei. O que é que estão falando? Pode perguntar para as amigas da Helena se alguma vez eu fiz cena de ciúme. Também querem me ver morto, entendo. Até porque ela era só minha. Não acho que ela era minha propriedade, é só modo de dizer.  Antes de me conhecer, teve outras histórias. Eu sou um homem civilizado, doutor. Será que o senhor não entende que eu tive que matar a Helena? Era ela ou eu. É isso o que eu tenho para dizer. Para o senhor, para o juiz, para o júri, para os jornalistas, até para Deus, se for preciso. Se eu acredito em Deus? Não sei, acho que não. Mas se ele existir e me perguntar eu vou dizer a mesma coisa que eu estou dizendo agora. É claro que eu estou com medo de ter que passar a vida toda na cadeia. Só com medo, não. Estou apavorado. O que é que eu preciso fazer para que acreditem em mim? Eu matei a Helena. Mas quantas vezes vou ter que repetir que era ela ou eu? Se eu alguma vez pensei em matar alguém? Nunca. Deus me livre. Já disse que não sei se acredito. É força de expressão. Nem barata mato. Eu vou empurrando o bicho com a vassoura para fora de casa. Isso eu estou contando só pro senhor. Por que senão o que é que vão pensar de mim? Já estão pensando? O que é que estão pensando? Que eu sou um assassino e que matei a Helena a sangue frio? Monstro? Feminicida? O que mais? As feministas estão pedindo prisão perpétua? Ainda bem que não existe aqui no Brasil. É nisso que dá a gente falar a verdade, ser honesto. Mas mentir eu não posso. Não posso dizer que a Helena era louca, doutor. Porque ela não era. Era doente do coração, mas não da cabeça. Ah, dizer que eu é que sou louco? De jeito nenhum. Eu era louco pela Helena, mas só no começo. Ela era muito bonita. Clarinha, sabe? Pequenininha, de olhos verdes, delicada, toda cheia de pintinhas. E tinha um corpo… tipo falsa magra… Por que não devo ficar falando que ela era bonita e gostosa? Como assim tarado? Me respeite. Eu não sou o maníaco do parque. Eu gosto das mulheres, sou um cara normal, um homem de bem. Calma que eu já chego lá. Não foi o senhor mesmo que pediu para eu contar tudo nos mínimos detalhes? Então, tenha paciência. Foi uns meses depois do noivado. Sei lá, não teve um motivo específico. Acho que com o tempo eu fui desgostando dela. Sim, eu tive oito noivas antes dela. E o que tem a ver? O senhor acha que oito é muito? Tenho minhas qualidades, não sou baixinho nem careca. O senhor sabe que é e não liga. Já lhe chamaram até de cara de gnomo e tudo bem. Entendo. Sei que o senhor não está aqui para me julgar, que esta função é do júri e do juiz. Já disse que não sou burro. Terminei porque não deu certo. Por que é que o senhor não pergunta pra elas? Eu sempre tratei muito bem as minhas noivas. Elas não podem falar nada de mal de mim. Como assim violento? Só faltava inventarem isso, aquelas ingratas. Eu fui noivo delas, doutor. Compromisso mesmo. Para cada uma eu dei aliança. Pior ainda? Que culpa eu tenho se elas perdem a graça, deixam de… bom… o senhor sabe o quê, de repente começam a querer mudar a gente, a botar a mãe no meio, as amigas, o cachorro, os filhos. O senhor é homem, tem que me entender. E daí que era 20 anos mais nova? Eu gostava da Helena, queria mesmo casar com ela. Pensei que ela fosse diferente. Mas ficou igual a todas, menos em uma coisa. Se eu soubesse deste detalhe, teria fugido antes como o diabo da cruz. Teria fugido daqueles olhos verdes, sabe a música, aqueles olhos verdes, serenos como um lago? Eu cantava para ela. O senhor tem cada uma, perguntar se eu acredito no diabo. Já falei que nem sei se acredito em Deus, quem dirá no diabo. É metáfora. Sei sim o que é, aprendi no cursinho. Agora o senhor falou uma coisa certa. Eu estava me sentindo preso, sufocado pela Helena. Eu sei que eu estou preso agora, preventivamente eles dizem, como se eu fosse um perigo. Mas pelo menos estou livre da Helena, nunca mais sonhei com ela. Desculpe eu falar deste jeito, mas foi tiro e queda. Não devo usar esta metáfora, pega mal, mas é só aqui entre nós. Voltei a dormir sem pesadelos. Estou insistindo nesta versão, como o senhor diz, porque é a verdade, doutor. O senhor quer que eu minta? Sei que o seu trabalho não é achar certo ou errado. Mas, se ouvir até o fim a minha história, vai me dar razão. Não que eu precise que o senhor me dê razão, porque eu sei que não estou louco. Olha, até entendo o senhor não acreditar. Mas, se estivesse na minha situação, ia pensar diferente. Não precisa se exaltar, não estou lhe chamando de assassino potencial. Então, como eu estava dizendo, a Helena começou a ficar igualzinha às outras, toda hora perguntava “no que é que você está pensando?” Sinceramente, tem coisa mais irritante?  Eu sei que todas fazem isso. Finalmente o senhor concordou comigo em alguma coisa. Já estava até pensando que o senhor… Esquece. A Helena não conseguia evitar me desejar mal mesmo não querendo. Aqueles sonhos terríveis começaram um pouco antes de eu terminar com ela. Não estou gozando da sua cara. Não eram pesadelos, porque pesadelos não acontecem. A gente acorda e tudo bem. Mas, se a Helena sonhasse que estava me esfaqueando, ou me dando um tiro, ou me envenenando, já era, eu ia morrer de verdade. Por isso eu deixei de dormir, tinha que ficar alerta. Li uma vez numa revista que uns cientistas obrigaram um gato a ficar acordado, era uma experiência para ver até onde o bicho aguentava. Credo! O senhor tem cada ideia. Claro que eu nunca maltratei nenhum gato, já disse que nem barata eu mato. Mas os cientistas sim. O gato morreu louco depois de sete dias sem dormir. Eu já estava há seis dias sem pregar olho. A única solução foi matar a Helena. Não, não foi porque ela queria voltar comigo. Se fosse por isso, modéstia à parte, eu já teria matado várias. Acho que o senhor sabe que as mulheres podem fazer coisas horríveis quando a gente termina com elas. Pior é que, quanto mais a mulher persegue, mais a gente fica enjoado dela. Não é raiva, não. É um enjoamento. Também não devo falar isso, já sei. Não estou fugindo do assunto. Se a Helena me ameaçou?  Já disse mil vezes que não. Ela não faria uma coisa destas. Pelo menos não acordada. Acordada ela no máximo era chata, ou pelo menos tinha ficado. Agora, dormindo, ela podia fazer coisas horríveis. O senhor não deveria pensar isso de mim. Eu não estou em condições de gozar da sua cara, nem acho que seja de gnomo. Vou repetir quantas vezes for necessário, porque é a verdade. No começo, até tentei não pensar no assunto. Falava para mim mesmo que os pesadelos vinham porque eu estava me sentindo culpado por ter largado a Helena. Por que é que mulher tem tanto poder pra fazer a gente se sentir culpado? Pensava “vai passar”, “essa dor é só impressão”. Mas não era, doutor. Doía mesmo. A Helena me queimava, me espetava com agulha, parece que tinha prazer em me fazer sofrer aos poucos. Certo, vou tentar ser objetivo. A Helena não queria o meu mal. O problema era exatamente este: ela gostava de mim. Seria melhor se não gostasse. Sabe quando a gente não quer que uma mulher de quem a gente gostou muito goste da gente? Se ela me odiasse, eu estaria livre agora. E não aqui, nesta jaula, que nem o gato no laboratório. O senhor tem que me tirar daqui. Senão vou acabar louco. Eu sei que o senhor está tentando, inclusive usando a tese de que eu já sou louco. Quem disse que eu não estou colaborando? O senhor é que não está se esforçando para acreditar em mim. Desculpe, mas deveria. O senhor é pago pra me defender. De que jeito o senhor quer que eu colabore? Mentindo? O senhor, sendo advogado, pode até entender muito de mentira, mas o que é que entende de sonho? Aposto que não sabe por que a gente sonha. Mais ou menos não vale. É a mesma coisa que não saber, e o fato é que ninguém sabe. Se o senhor não tem certeza, como pode saber que eu estou mentindo? Lógico que eu ouvi falar no tal do Freud. Não sou ignorante. Este negócio de sonho é muito sério. Se o senhor quer mesmo me ajudar, coloca aí: “legítima defesa”.

 

PS: Um Doutor em Psiquiatria, titular da cadeira de Etnopsiquiatria da Faculdade de Medicina, testemunhou em favor do réu. Segundo ele, há precedentes de homicídios semelhantes num povo originário do Alaska. Alguns homens desse povo, acometidos por pesadelos terríveis, acreditam que suas mulheres se transformam em alces gigantes e furiosos que os atacam. Por causa dessas alucinações, acabam matando-as sem consciência dos seus atos. O advogado alegou que o réu agiu em legitima defesa putativa, que milita em favor daquele que age convencido de que está sendo agredido por um terceiro sem que haja, da sua parte, culpa nessa suposição.

 

Este conto é inédito em português. Uma primeira versão foi publicada em espanhol na revista Carátula.


REVISTA TRIPLOV 

Primavera 2026. Maria Alzira Brum Lemos .

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